quarta-feira, 20 de maio de 2009

Fósseis do ofício

Ela não pára de te olhar, e você pensa: “ôsh”. Depois reflete melhor, certificando-se de que a carteira continua no bolso. A moça até que não é feia, mas a fixidez sugere algo mais sério que amor ou assalto. Ela se levanta e vem em sua direção. Desesperado, você tenta limpar a farofa do canto da boc...
            — Como disse?
            — As vendas do Lord Nerd, como vão?
            Você não entende a pergunta. Está prestes a dizer “não sei onde fica essa loja” quando se lembra. O Lord Nerd, claro, seu primeiro romance!
            — Ah, você leu, é?
            — 28 vezes. Fundei um fã-clube dedicado exclusivamente à personagem Miss Mônica. Olha, eu sou, sei lá, fanática pela tua escrita, viu?
            Você coloca disfarçadamente a camisa por dentro das calças. A líder de um fã-clube da Miss Mônica ali e você com farofa no canto da boca!
            — Sério?
            — Sim! — e os olhos dela brilham — A gente costumava dizer lá na escola que, quando crescesse, queria ter uma família igual à dela! A erudição emanando das paredes, discussões domésticas com verniz filosófico, pais cujo maior temor era o dia em que os filhos pequenos lhes perguntassem “de onde vem o metano de Marte?”. Ficamos até melhores em certas matérias, depois que lemos o livro. Vivíamos dizendo que era questão de tempo até você desbancar Barbara Cartland do topo dos best-sellers.
            — Ah é?
            — Agora, uma coisa sempre nos intrigou na estória...
            — Sim, o que era?
            — Aquela parte no 18º capítulo, onde a Sra. Chandler passeia à beira da praia e encontra a metade de um rosto humano desenhado na areia, e diz: “só quem sentirá falta do homem quando o dia do grande expurgo passar serão as sete maravilhas do mundo, pois nenhum outro animal inflará seus egos de mármore” — você nota três coisas enquanto ela recita a tal passagem: a ânsia da moça em deixá-lo admirado pelo grau de seu fanatismo e dois erros de concordância que a revisão terceirizada não podia ter deixado passar — Era uma alusão a Foucault, não?
            — Bem...
            — Porque havia uma vertente do grupo que achava que estava mais para Albert Camus, e outra que chutava ter a ver com o Eco... Ah, e o final do livro foi o melhor que já li em toda a minha vida, juro! Só de lembrar a cena em que o Cronus atira os cordões umbilicais dos 7 Superiores ao fogo, gritando “às cinzas, às cinzas!”, nossa... Olha só, até arrepio!
            — Puxa...
            É o máximo que você pode fazer? Uma fanática se declarando e você só diz “puxa”?
            — Olha, até encenamos algumas passagens no teatro do grêmio. Eu interpretei Miss Mônica!
            — Puxa...
            — Mas e você, o que está fazendo por aqui?
            Você não pode dizer que ainda não terminou de ressarcir à editora o prejuízo da tiragem megalomaníaca daquela obra, e que hoje em dia o mais próximo de Literatura que contempla são os suplementos culturais que eventualmente lhe entregam nas ruas. Não vai decepcioná-la revelando que virou funcionário público e só tem mais 7 minutos para terminar o almoço. Ah, mas não mesmo!
            — Atualmente, estudando uma proposta da Rocco.
            — Da Rocco! Puxa, eu sabia que você ia arrasar a Barbara Cartland! Espera só a turma saber!

5 comentários:

  1. Po, mto bom o seu blog!
    os textos estão bem legais, espero q vc continue atualizando com regularidade =)

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  2. Ah, se essa fosse a realidade dos novos escritores...

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  3. Seus textos são um máximo! O humor é um dos recursos mais delicados. Mas e você, já mandou suas crônicas para açgum jornal ou revista? porque tá na hora! :)

    um prazer descobri-lo!

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  4. Lusca e Lara:

    obrigado por terem lido e, Lusca, estou fazendo o possível para atualizá-lo no mínimo duas vezes por semana.

    a_rosa:

    Fiquei da cor do teu nome/sobrenome com essas palavras! Valeu mesmo, colega.
    Agora, sobre enviar textos meus para jornais ou revistas... taí, nunca havia pensado nisso...
    Como se procede nesse caso, vc já o fez, conhece alguém do ramo, não sei?

    De qualquer forma, muito obrigado pela indicação, viu?
    Abração.

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  5. Muito bom!
    Gostei da parte da farofa no canto da boca. Acho como uma simples leitora que o talento do cronista é desglamourizar (se existir essa palavra)o dia-a-dia (se ainda existir esse crase - rss) e ainda conseguir que a história seja interessante. Na minha opinião você vai muito bem.
    Abraço.

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