segunda-feira, 15 de junho de 2009


Meu reino por um registro!


Certas expressões são propositalmente fadadas à redundância. Como escrever, por exemplo, sem cair em deselegante repetição que o fato a ser comentado nesta crônica chegou até meu conhecimento através do Jornal Hoje de hoje? Muito mais grave que a ausência estilística, no entanto, é o curioso valor implícito num comentário pretensamente civilizado dos redatores do programa, sobre o flagrante de uma briga de trânsito em Curitiba.

Se entendi direito (o que não é pouco provável), das três mulheres que apareciam no início do vídeo estapeando um rapaz de camisa verde, apenas uma era filha do dono da floricultura, cujo caminhão bloqueando a avenida por onde tentava passar o carro do outro homem havia motivado este a agredir o comerciante, minutos antes, legitimando o revide. A selvageria piorou de vez quando o jovem foi até seu automóvel e retornou, munido de uma caneta, para furar qualquer parte das agressoras que estivesse à mão. Não deixando por menos, uma das mulheres quebrou-lhe um cabo de vassoura nas costas.

Até aí, infelizmente, nada que qualquer motorista razoavelmente experiente ou simples espectador da era da TV não houvesse presenciado. Com raríssimas exceções — entre as quais figuram as duas desconhecidas, cuja ligação com toda a história foi ignorada, talvez por não existir —, transeuntes costumam ser naturalmente espectadores, nestes casos. Mas o problema maior ocorre quando tenta-se isentar o grupo ao qual pertencemos de culpa, como no infeliz comentário feito pelo âncora, quando o vídeo mostrava a briga no ápice:

“Na calçada, um homem assistiu a tudo sem qualquer reação.”

Com alguma presença de espírito, se você chegasse à frente da TV neste momento, presumiria que as imagens haviam sido registradas por uma dessas câmeras de segurança, certo? Do contrário, por que os jornalistas se dariam o trabalho de condenar a atitude inepta do transeunte, quando o igualmente indiferente cinegrafista que lhes enviara o flagrante passava por inocente?
Algum reacionário poderá alegar que o câmera estivesse apenas cumprindo seu dever para com a sociedade, captando flagrantes da vida real que alertam sobre o perigo da intolerância cotidiana, etc, etc. Longe de mim querer transformar o ofício de cinegrafista numa sinecura, mas até que ponto o compromisso profissional deve servir como salvaguarda da imoralidade?

Este caso me lembrou bastante o de um amigo meu. Imaginário, é óbvio. Reclamava muito de sua falta de sorte, já que andava mal vestido, mal casado, mal dormido, mal tudo. A despeito disso, passeava pela ilha de Manhattan numa manhã gloriosa, quando encontrou uma câmera de vídeo sobre uma página dobrada, semi-escondidos embaixo de um banco. Depois de verificar se ninguém o observava, meteu o aparelho no bolso, murmurou um “já tava na hora, né?” para o céu, desdobrou a mensagem e pôs-se a ler seu conteúdo:

“Às 8 horas e 46 minutos, ligue a câmera e a direcione para os edifícios mais altos à sua frente.”

Já intuindo que devia estar participando de uma pegadinha, ele obedeceu, sem saber que acabaria por registrar de camarote o maior ataque terrorista da História.

Depois que o último avião colidiu com um dos prédios do World Trade Center, meu amigo, entre calculando o preço pelo qual poderia vender aquelas imagens às emissoras do mundo inteiro e vagamente preocupado se não teria morrido parente nos atentados, deparou-se com uma discrepância óbvia: se tudo havia mesmo sido obra de terroristas, como convencer a paranóica CIA de que sua sorte em estar gravando as imagens desde o início fora nada mais do que isso, pura sorte? Podia ter pensado num álibi qualquer, mas aí lembrou-se de sua condição de imigrante ilegal e resolveu atirar a câmera no mar, com um palavrão. Ainda teria tempo de berrar outra afronta ao Criador, antes de correr para as imediações da destruição, a fim de pelo menos passar por humano solidário:

— E depois dizem que o Senhor é brasileiro... É assim que trata os conterrâneos?
Link para a reportagem supracitada:

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Da série "As placas que NÃO caíam na prova do Detran"

Sobre sonhos e vírgulas


Quando a Acsa começou a falar enquanto dormia, a primeira reação do Felipe foi buscar nos arquivos de solteira dela a lista dos nomes de ex-namorados, para ver se algum batia. Tornando-se evidente que nenhuma mãe do mundo — salvo, claro, as minimalistas — batizaria o próprio filho de “i” (letra que ela pronunciou seguidas vezes nos primeiros solilóquios inconscientes), não lhe restou outra saída se não envergonhar-se da própria desconfiança.

Mas, sem que a mulher parecesse recordar sequer de ter sonhado algo, os monólogos continuaram, e na segunda semana ela já não pronunciava apenas o “i”, mas um estranhíssimo “ivê”. Depois de conjeturar vagamente se aquele não seria o apelido íntimo do Ivanildo, casinho de faculdade dela, o Felipe decidiu que era hora de procurar um analista. Sozinho, pois temia que a presença da esposa fosse interferir subjetivamente no prognóstico quiçá bombástico que o homem poderia lhe dar.


O Doutor Borges era um daqueles sujeitos que pareciam preferir estar fazendo qualquer coisa no mundo, menos exercendo a profissão para a qual haviam estudado. Ouviu pacientemente a história do Felipe, demonstrando especial interesse na parte em que este falava do histórico de sonhos premonitórios na família da esposa; depois, afagando o clichê em forma de cavanhaque, quis saber:


— Você já perguntou a ela se os sonhos lhe dizem alguma coisa?


— Na verdade, não contei nada sobre essas conversas noturnas a ela — admitiu o outro — Acho que, sem policiamento, pode ser que acabe revelando algo mais elucidativo, o senhor entende?


O Dr. Borges entendia. Recomendou, então, que, ainda na surdina, o Felipe gravasse o que a esposa diria nas semanas seguintes, voltando ao consultório a cada nova palavra surgida durante o sono. Se tudo saísse como esperava, os sonhos perturbadores deixariam de ocorrer a partir da sétima semana.


Assim, sem saber que era grampeada ao cair da noite, a Acsa passou do “ivê” ao “ivêxis”, daí para o “ivêxiselei”, pro “ivêxiseleieleixis”, até chegar no ultra-enigmático “ivêxiseleieleixiselexis”. Na sétima semana, entretanto, como o Dr. Borges previra, o Felipe correu para o consultório com um sorriso de orelha a orelha, alardeando que os monólogos haviam cessado.


— Como conseguiu essa mágica, doutor? — perguntou ele, maravilhado. Borges sorriu, aparentemente apenas satisfeito com o primeiro resultado positivo alcançado em séculos de divã. Guardando a fita com a última gravação no bolso do paletó, acrescentou aí uma meia dúzia de postulados freudianos a respeito do mundo onírico. Felipe, que já vinha estranhando a ansiedade no rosto do doutor, toda vez que aparecia com outro neologismo da esposa, achou mais esquisito ainda o fato dele não ter cobrado por aquela última consulta. Mas quem se importava? A Acsa estava curada e a economia só viria a calhar, ué. Despediu-se e voltou para casa.


Alguns dias mais tarde, após outra noite tranqüila onde o único ruído produzido pela companheira de cama fora o da respiração, Felipe a encontrou absorta na manchete principal do jornal da manhã, sentada à mesa da cozinha.


— Viu, amor? — indagou a mulher, sem tirar os olhos do periódico. — Até que enfim saiu um ganhador da Mega-Sena aqui da cidade. Uma pena ter sido tão injusto, pois o cara é doutor, não devia precisar. Tal de Borges, estranho ele dar o nome...


Quase engasgando com uma torrada, o homem conseguiu gaguejar:


— Q-Quais os números sort-sorteados?


— Ah, peraí... esse jornal é cheio de frescuras, as dezenas vêm em algarismos romanos... São elas: I - V - X - LI - LIX - LX... O que, no nosso sistema arábico, dá: um, cinco, dez, cinquen.. Amor? Amor, você tá pálido, aconteceu algu... Meu Deus, uma ambulância, aqui!


Donde conclui-se que:


1 - Em vigília ou dormindo, é essencial saber posicionar a vírgula corretamente;


2 – O importante não é o sonho, é o intérprete.


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terça-feira, 2 de junho de 2009

O Verbo Jazer




Morava ao lado do cemitério. Querendo ou não, acostumara-se à idéia da morte. Dos outros. Vez por outra, debruçava-se na janela da sala, admirando com certo fascínio o cortejo espalhafatoso que precedia o cadáver embalado de algum coronel, vereador ou qualquer dessas subcelebridades provincianas. Enterros simples não eram com ele. De caixotes feitos com madeira parcialmente corroída por cupins, dizia, bastava o seu guarda-roupa.

Um dia, acontecimento raro, resolveu passear sozinho pelas dependências da necrópole — dar um rolé, como diziam os mais jovens. Comparou túmulos, leu epitáfios, chutou vodus, examinou retratos. Depois, quando começava a se convencer de que Huck Finn tinha razão ao dizer que os mortos não são criaturas com as quais se deva perder tempo, ocorreu-lhe (talvez inspirado mesmo nas molecagens do personagem de Mark Twain) fazer uma brincadeira meio boba com os caracteres removíveis na lápide de determinado sargento: trocando a ordem numérica, alterou o ano de falecimento do oficial, de 1982 para 2198. E quase morreu de susto, porque no instante seguinte um homem de cabelos grisalhos, porte físico avantajado e rota indumentária militar surgiu do nada, tocando-lhe no ombro:

— Obrigado, soldado — disse o sargento, a voz embargada. — Acaba de me conceder mais 216 anos para torturar liberais.

Eu?!


— Claro. E lhe sou eternamente grato por isso. Agora preciso ir, a ditadura não pára!

E saiu assoviando marchinhas de caserna pelos portões abertos do cemitério. Em sua lápide, outra mudança sutil se operara — o verbo jazer passara sozinho para o futuro:


“Aqui jazerá...”

Transformou aquilo num hobby. Divertia-se selecionando as pessoas certas para ressuscitar (temendo incorrer no mesmo erro do sargento torturador) e recomendando-lhes que gastassem o tempo sobressalente com sabedoria. Alguns, dado o patamar a que as coisas haviam chegado no mundo dos vivos, não apreciavam muito o retorno:

— O quê?! Mulheres disputando cargos públicos? Que mais falta acontecer, um negro presidir os Estados Unidos? Só pode ser o apocalipse, me mande de volta, sim?

Outros, ao contrário, decepcionavam-se profundamente com a lentidão do progresso científico:

— E então, cadê os carros voadores?
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— Ahn... — engrolava ele, pensando se deveria desiludir completamente o colega ao revelar que ainda fabricavam fuscas. — Talvez demore um pouco...

Mas a maioria, de um modo geral, mostrava-se grata pela sobrevida. E aos poucos ele sentiu como era ser Deus.

Eventualmente, pensava em testar seus “poderes” por outras bandas (cemitérios da capital, Abadia de Westminster, nada muito sofisticado), para desistir logo em seguida da empreitada. Afinal, ainda havia muitos verbos “jazer” passíveis de alteração, naquele lote.
.
A essa altura nosso amigo já atentara para o potencial financeiro de sua descoberta. O único problema foi a procrastinação demasiada. Perdia-se na brincadeira divina de cuspir na cara da morte, enferrujar o gume de sua sagrada foice e pisar na aba da capa preta, adiando o comunicado bombástico à mídia de todo o mundo, mês após mês. Esperou demais.

Em dezembro de 1999, caiu doente. Algo entre o resfriado e a peste negra. Já muito debilitado, pediu que lhe trouxessem o único amigo em quem confiava. Egoísta como só os humanos no leito de morte, não contou-lhe tudo: apenas o fez prometer que mudaria a ordem dos algarismos que iriam formar o ano de sua partida, na cabeceira da cova, de modo a conseguir o número mais alto possível. Embora extremamente confuso, o rapaz entendera tudo certinho. As circunstâncias é que não colaboraram, pois o outro só veio a óbito em 2000.

Quando o amigo parou em frente ao túmulo dele, duas semanas depois, não havia muito o que fazer. Só para cumprir a parte do juramento que conferia ao engajamento pessoal, trocou displicentemente o “2” de lugar com o primeiro zero.

O sobrenatural pode às vezes ser apavorante, mas é bom saber que até ele precisa se submeter aos protocolos da Física Clássica. Tendo agora falecido no ano “0200” da era Cristã, o homem que um dia residira ao lado do cemitério não tinha como ter ressuscitado sequer uma lagartixa naquele local. Só posso dizer que seu amigo ficou petrificado ao ver a horda de coronéis, médicos, políticos, adolescentes e até padres irrompendo irritadíssimos pelos portões de ferro da necrópole, xingando-o dos palavrões mais cabeludos por ter tirado o doce de suas bocas (“logo agora, quando a coisa tava ficando boa...”), até voltarem a desaparecer completamente, deitados sobre suas antigas sepulturas.

E a Morte, na ânsia por tirar um sarro vingativo do homem que a fizera de boba durante tanto tempo, acabou cometendo terrível incorreção gramatical ao evidenciar o caráter quase pré-histórico da única lápide em que o verbo jazer não estava conjugado no presente, nos limites daquele cemitério:


“Aqui jazaste (e bota jazaste nisso)...”