terça-feira, 18 de maio de 2010

O Ateu

Era o primeiro dia de trabalho do ateu na livraria evangélica. Como suspeitasse que o haviam contratado por uma espécie de cláusula igualitária (“Provavelmente a mesma que obriga os estacionamentos a reservar 2% das vagas a deficientes físicos”, ponderou), ou, pior, pretendiam convertê-lo por associação, ele fez questão de assinalar sua condição de cético já no contato com a primeira cliente.


— O senhor trabalha aqui?


— Depende. Esse “senhor” aí é com s maiúsculo ou minúsculo?


— O quê?


— Nada, nada. Posso ajudá-la?


— Sim, por favor. Estou procurando uma Bíblia encadernada em...


— Ficção é no segundo corredor.


A moça piscou, confusa.


— Não, eu disse Bíblia.


— Eu ouvi. Corredor 2. Ficção fantástica.


— Como, ficção?


— Ué, ficção. Substantivo feminino: “Literatura tratando de fatos inventados”.


— Eu não preciso de um dicionário, obrigada.


— Nota-se que obras realistas não são mesmo o seu forte.


Até aparecer outro funcionário e conduzir a mulher à seção certa, cochichando sobre o lamentável ceticismo do novato, que suspirou, voltando a ler o Richard Dawkins que trouxera escondido na mochila.


Mais tarde, um pastor quisera saber sobre uma tal “Autobiografia de Deus”, sucesso absoluto entre os fiéis de sua igreja. O ateu conteve-se para não mencionar a impossibilidade lógica daquele título (“Ficção da ficção!”) e informou:


— Não temos, mas na biblioteca municipal o senhor encontrará o “Testamento Divino”, do mesmo autor.


Felizmente o homem não entendera a ironia e acabou indo mesmo até a biblioteca. Quando voltou para acertar as contas, o cético já havia batido o cartão.


Foi o primeiro dia.


Embora não pudesse evitar os olhares constrangedoramente piedosos dos colegas e fregueses (muitos dos quais pareciam enxergá-lo como portador de um vírus mortal e contagioso), com o tempo ele notou que os fiéis extremistas eram minoria. Quase sempre se podia conversar civilizadamente sobre qualquer tema — de futebol a, quem diria, religião. Ou falta dela.


— E como você veio parar logo aqui, meu rapaz? — ia perguntando, certa tarde, um senhor simpático que viera procurar G. K. Chesterton na loja errada.


— Eu deixei currículo por engano. Pensei que fosse uma livraria especializada em Nietzsche. Algo no bigode desse Noé aí da vitrine, não sei. Quando percebi o erro, já era tarde. Mas eles só descobriram que sou ateu durante a entrevista. Acabei contando para desencorajá-los.


— E o mais curioso é que eles te contrataram!


— Pois é. Política de Inclusão Metafísica, ouvi dizer.


— E você chegou a ler a bíblia?


— Só passagens esporádicas. Até leria na íntegra, se não saíssem divulgando tantos spoilers na mídia e nas igrejas, argk!


— Spoilers?


— Trechos cruciais de uma obra que ainda não lemos. Por exemplo, os evangelhos seriam muito mais emocionantes se eu ainda não soubesse sobre a ascendência Real do protagonista, sua captura, tortura e morte pelos órgãos de repressão, qual discípulo é um delator infiltrado e, principalmente, a reviravolta suprema da ressurreição. Contando, perde a graça.


Para o ateu, a monotonia do serviço só foi verdadeiramente quebrada alguns meses mais tarde, quando apareceu na livraria um homem estranho. De túnica branca, sandálias antiquadas e barba mal feita, parecia irradiar inexplicavelmente luz e paz por onde passava. Ficou um tempo examinando as estantes de teologia aplicada, meio ruborizado. Como fosse o único na loja aparentemente imune ao efeito hipnótico do visitante, o cético aproximou-se desconfiado.


— Posso ajudá-lo?


— Depende. O pronome na sua frase tinha que tipo de L?


— Minúsculo! — respondeu o outro prontamente. O cliente misterioso pareceu impressionado.

— Ótimo — disse, com um sorriso ao mesmo tempo iluminado e amarelo. — De puxa-sacos, o meu Reino está cheio. Onde fica a seção de Auto-ajuda?


O funcionário indicou o lugar, quase não acreditando no que ouvira. Deus demorou surpreendentemente pouco escolhendo algumas edições de bolso, apesar de sua túnica não os possuir. Contrariado, pagou pelos livros no cartão de débito (“Desculpe, mas o senhor não tem crédito comigo.”), despediu-se e saiu pelas portas de vidro sem abri-las, levando junto a luz e a paz.


— Agora, não é possível que você ainda não acredite n’Ele! — disseram os amigos, à mesa do bar, quando o cético lhes contou da aventura.


— Estão enganados, meus caros — rebateu ele, um sorrisinho de empáfia num canto da boca. — Nunca estive tão certo de minhas convicções.


— Como assim?!


— Ah, façam o favor, Deus está lendo auto-ajuda! O gênero dos que não acreditam em si mesmos! Não percebem o que isto significa?!


O silêncio dos amigos parecia antever a gravidade da revelação seguinte.


— Deus também é ateu, gente!