quinta-feira, 6 de outubro de 2011

1 de 9 Trilhões


Cedendo aos apelos do estômago, Pedro foi até um trailer-cantina ali perto para comprar dois salgados e uma coca. Degustou-os apressadamente, atento às pessoas no calçadão, que, conquanto ele não soubesse, estava anormalmente vazio naquele dia. Dado o horário, o banco de Drummond só não virara uma chapa tórrida porque o céu seguia nublado.

— Cara, eu preciso maneirar nos gastos. Consegui a grana pra essa viagem servindo de cobaia num laboratório dermatológico lá da minha cidade. Eles estão testando um novo tratamento de acne, por via oral. Ter a cara cheia de espinhas nunca me foi tão útil.

Esse lance de ser cobaia remunerada é proibido no Brasil. Tive que assinar uma montanha de papéis isentando o laboratório de culpa, caso eu morresse por causa dos comprimidos. (Fico pensando em quem assina a papelada dos ratos.) Também me deram esse pager, para as emergências, e um bloco de notas. Devo escrever, de um lado, os benefícios notados, e, do outro, os efeitos colaterais. Preciso voltar lá toda semana por causa dos testes, o que é meio estranho, pois eu posso estar no grupo do placebo. É, eles dividem as cobaias em dois grupos: um recebe o medicamento verdadeiro, o outro só pílulas de farinha. Antes eu achava que o grupo que apresentasse os melhores resultados tinha o comprimido lançado no mercado, independente de ser a droga ou o placebo. Fazia todo o sentido creditar à farinha as melhoras milagrosas que a medicina injustamente atribui ao mítico efeito psicológico. Mas foi bom mesmo que eu estivesse errado. O preço da mandioca iria às alturas... 
 
Falando nisso, na sétima série eu tive um colega com uma disfunção estranha. Chamava-se “Situs Inversus”. A disfunção, não o meu colega. É quando os órgãos situam-se em lugares trocados dentro do corpo. Os rins dele, por exemplo, ficavam onde deveriam estar os pulmões, que desceram um pouco para dar espaço. A situs inversus é raríssima. Começamos a desconfiar porque ele era o único a cantar o hino nacional com a mão no lado direito do peito, mas a confissão só veio depois que o flagramos tapando os ouvidos ao espirrar. Coitado, a turma não largou mais o pé dele. Ser meio bochechudo só piorou as coisas, e a família até precisou tirá-lo do colégio quando uma charge que o mostrava massageando as bochechas depois de levar um chute no saco começou a circular.

Essa hostilidade toda me fez pensar na relatividade das coisas. O que nos dá a certeza de que o normal é ter o coração do lado esquerdo? Quem garante que os portadores de situs inversus não são como Deus queria a espécie, e o resto da humanidade a verdadeira aberração? A droga da maioria, Drummond. Aceitar que o grupo em vantagem numérica precise ser tratado por “exceção”, em vez de “regra”, é admitir que Deus (ou a natureza, sei lá) não dá a mínima pra gente — vai ver até beba em serviço. Seria preciso reescrever toda a literatura médica (sem falar na literatura mesmo, nas pinturas de são Sebastião e, céus!, na música sertaneja); produzir, em vez de hormônios do crescimento para os anões, hormônios do rebaixamento para as pessoas altas; no lugar de drogas tarja preta para os loucos, alucinógenos tarja psicodélica para os sãos; rever conceitos, adaptar o mundo e as mentes à nossa nova condição de vítimas. E isso dá preguiça. Não somos saudáveis por natureza, mas por conveniência e maioria de votos. 

Falei em Deus agora. Por favor, não pense que sou desses que usam uma simples vitória na sena acumulada para justificar sua existência ou bondade. Tampouco daqueles que se valem de uma mísera hecatombe natural para alegar sua inexistência ou sadismo. (Até porque chamar Deus de sádico é um anacronismo terrível, pois, salvo ridícula ignorância cronológica, Deus é um pouco mais velho que Sade.) Não, prefiro o macio terreno intermediário. Agnóstico, isso aí. Mamãe diz que o agnosticismo é o equivalente religioso da bissexualidade, mas optarei por uma analogia menos vulgar.

A consciência, para mim, é como uma daquelas salas de interrogatório dos filmes, na qual me encontro absolutamente sozinho. Fora a cadeira, a lâmpada e a mesa, há um espelho que ocupa toda a metade superior da parede norte (o ponto cardeal é simbólico). O que eu fizer nesta sala pode estar sendo observado e julgado por alguém que se esconde atrás do espelho, como as testemunhas oculares dos crimes... Ou não. Talvez esse espelho encerre uma metáfora ainda mais engenhosa e literal, querendo dizer que “a única criatura a observar-te aqui é tu mesmo, burro”. Só que minha capacidade de averiguação esbarra nas limitações sensoriais, pois não possuo visão de raio-X nem força suficiente para quebrar o vidro. (Como vê, o Super-Homem não se encaixa muito bem na minha alegoria. Aliás, se encaixa sim: ele é um niilista.) Mas isto não significa que vou mostrar a bunda para o espelho ou ficar bajulando o suposto observador, nada disso. Equilíbrio sempre. Certo, talvez eu mostre meia nádega, um dia, só de tédio. 

A verdade é que o agnosticismo foi a única maneira que encontrei de me opor a meus pais na questão da espiritualidade. Mãe católica, pai ateu, já viu: só me sobrou o alto do muro. O curioso é que papai nem sempre foi incréu, sabe? Bem ao contrário, aliás: costumava superar mamãe em carolice, era desses que levam até as entrelinhas da Bíblia ao pé da letra. Vivia tendo pesadelos em que um arqueólogo holandês descobria um documento intitulado “Nota de abertura à primeira edição do Pentateuco”, que começava assim: “Este livro é uma obra de ficção. Quaisquer semelhanças...” Então acordava chorando e rasgando o lençol, em vez do documento. Até que um dia...

Um dia, na volta do serviço, ele achou um livrinho que alguém esquecera sobre o banco do ponto de ônibus. Não conseguiu pronunciar o nome do autor. Nem o da obra. Pensou “Imagine o conteúdo!”, e enfiou-a displicentemente no bolso da camisa. (Engraçado, as edições de bolso nunca cabem nos meus. Tampouco o preço delas.) Deu-se que, no trajeto de volta, um cara inventou de assaltar o ônibus, sem perceber que havia dois policiais entre os passageiros. Houve tiroteio. Meu pai foi atingido no peito, e só não morreu porque a bala ficou detida entre as páginas do livrinho. E como tratava-se de Ecce Homo, do Nietzsche, o velho não teve outra saída senão converter-se. Ou melhor, desconverter-se. Até hoje cultiva o bigode. 

Agora, o senhor sabe daquela conversa sobre todo ateu se arrepender no leito de morte, né? Não sei se com papai será assim. As pessoas exageram, também. Lembro de um folheto religioso que recebi certa vez, compilando declarações de ateus famosos que supostamente renunciaram à descrença na hora da morte. Orwell, Coleridge, Beckett, o próprio Nietzsche. Havia coisas realmente chocantes. Consta que o semiólogo heresiarca Herbert Finley, por exemplo, teria berrado aos céus “Estou queimando! Alguém me salve destas brasas!”, numa clara referência às chamas do inferno. O fato de ele ter morrido na fogueira não pareceu interessar aos redatores. Outro mistério é saber quem coletou as palavras finais da arqueóloga Catherine Armstrong, que estava sozinha ao ser tragada por uma tempestade de areia na Tunísia, e nunca teve seu corpo encontrado. Mas essas omissões seriam só um leve arranhão na credibilidade do folheto, não fosse a última frase (“Oh, como eu desejava não ter fumado o apocalipse...”), atribuída ao roqueiro Philip MacDowell, que, como se sabe, está vivo até hoje.

Os supersticiosos costumam atribuir muito significado às palavras finais das pessoas. Vá lá, tem até certa lógica jurídica imaginar que tudo o que dissermos nessa hora poderá ser usado contra nós, ou a nosso favor, às portas do paraíso. (Os prisioneiros crucificados ao lado de Jesus que o digam.) 

Mas o que eu não suporto é gente envolvendo a menor bobagem numa aura de premonição que, além de forçada, é ridícula. Sobre um cara que, antes de morrer, telefonou para a esposa assegurando que “a montanha-russa é totalmente segura”, só faria sentido dizer “Parece que ele estava adivinhando” se o sujeito fosse o rei da ironia. Sobre outro cuja frase derradeira foi “Ligue o ventilador para dispersar esse cheiro de gás!”, se fosse suicida. Por isso eu admiro aquela espécie de suicida que, além de tecer uma crítica inconsciente a tais crendices, possui suficiente presença de espírito para saltar do décimo quinto andar e ter como brado final apenas o bom e velho “Jerônimo!”

Engraçado, há vários relatos de ateus que viram religiosos no leito de morte, mas nenhum de religioso que torna-se ateu nas mesmas circunstâncias. Provavelmente porque o sujeito não tem nada a ganhar, além do arrependimento pelas horas que gastou rezando. Mas não custa imaginar a cena...

— Doralice, vai chamar tuas irmãs que teu pai tá morrendo e quer falar com a família.

Lágrimas, correria, apostas sobre quem consta do testamento.

— Pronto, pai, estamos todas aqui. O que o senhor queria dizer?

O velho percorre cada rosto choroso em volta da cama, como um ventilador, antes de declarar:

— Deus não existe.

— O quê?

No mesmo tom desdenhoso, ele repete:

— Deus não existe.

Tumulto, incredulidade, perturbação.

— Mas o que é isso, pai? O senhor, sempre tão religioso, falar uma besteira dessas? E logo agora?!

— O senhor, que até dormindo pregava a Palavra?

— O senhor, que deu a todas nós nomes bíblicos?

— Epa, menos eu — lembra Doralice, que também é a caçula. Pela primeira vez em 8 anos, a questão paira no ar: “É mesmo, por que a Dora não tem nome tirado da Bíblia?” 

— Já devia ser um sintoma inconsciente da minha desilusão futura. — explica o velho. — Acabei de ter uma epifania. Ou a falta dela. Não há nada do outro lado. Nada, ouviram? Nem purgatório, nem céu, nem inferno. Nem Deus, nem Diabo. É simplesmente como dormir sem sonhar. Uma chatice só. Chamei vocês aqui para registrar meu arrependimento. E alertá-las: jamais deixem de fazer qualquer outra coisa por causa do culto, salvo roubar, mentir e matar, que a moralidade não tem nada a ver com isso. Jamais, entenderam? Se fosse possível depositar num banco de horas o tempo que perdi, eu deixaria pra vocês junto com o resto, mas não é. Então fica o conselho: passem longe das igrejas.

As irmãs se entreolham sem acreditar. Está delirando. É isto! Aconteceu com Santo Agostinho. Aqueles são os estertores finais de uma mente religiosa em colapso. Estertores hereges, ironicamente.

— Calma, pai, o senhor está muito debilitado, não tem noção do que diz. Tenho certeza que Javé perdoará essas blasfêmias e...

— Não fala esse nome perto de mim!

— “Blasfêmias”?

— O outro.

— “Perdoar”?

— Não!

— Qual?

— Javé! Javé!

E neste momento o velho tem um ataque, morre e só se salva porque suas últimas palavras foram um dos 9 trilhões de nomes de Deus.
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Sexto capítulo de um despretensioso romance incompleto. Um dia eu termino. Ou não.