quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Afluente Imaginário*

Há uma passageira do ônibus que faz a rota 607, Parque Atalaia-Centro, por volta das 16h20, que muito me intriga ou fascina. Não sei ao certo quando comecei a reparar nela – é um desses hábitos que a gente só se dá conta de ter ao ser impedido de praticar, como quando tentamos alisar o cavanhaque recém-raspado. A observação constante, embora dissimulada, permitiu-me formular algumas teorias sobre sua vida fora dali.

Do privilégio de poder escolher sempre o mesmo banco (o penúltimo do lado direito, encostado à janela), deduzi duas coisas: que ela mora próximo ao ponto de partida do coletivo e é obsessiva em algum nível. Defronte ao assento pelo qual invariavelmente opta há um espelho, e eu também teria inferido daí que é vaidosa ou narcisista. Um fato, porém, advogou o contrário: quase tão imutável quanto a localização de minha colega é sua concentração nas páginas do livro que estiver em seu colo.

No início talvez fosse a mera empatia que se costuma sentir por quem compartilha conosco um hábito querido. Também havia a curiosidade sobre o título da obra (cuja capa, por embarcar depois da leitora ter aberto o volume e desembarcar antes que ela o fechasse, eu nunca via). De pé a seu lado, penso ter identificado três ou quatro vezes um que outro trecho familiar, e, ao menos em uma ocasião, palavras redigidas num idioma que ignoro. Não que me esforce muito neste sentido. A relação estabelecida entre mulher e objeto emana uma cumplicidade na qual não vale a pena se intrometer espiando por cima do ombro. 

 Só num ponto do trajeto o solipsismo se interrompe. Antes e depois dele, a impressão que se tem é que o mundo em volta pode mergulhar no mais completo caos que a concentração da leitora não sofrerá o menor abalo. É também a terceira coisa invariável a respeito dela: quando o ônibus começa a travessia da ponte sobre o Rio Coxipó, sua cabeça, como que impelida por uma mão invisível, desvia-se das páginas para contemplar, durante seis ou sete segundos, o espetáculo das águas que um débil trecho de mata emoldura. Findo o instante, torna a submergir no oceano de papel, e dali não sai, suponho, até o fim da viagem.

Esse gesto maravilha-me de tal modo que quase sempre prefiro apreciá-lo a observar o rio. Superficialmente, parece implicar o triunfo do fato sobre a ficção, da realidade sobre o sonho, da vida sobre a descrição da vida. Mas é possível vislumbrar em seu cerne quase o oposto: o quão pouco falta para que o imaginário se equipare ao real em todos os aspectos. Ou, para usar a metáfora de Schopenhauer, o quão pouco falta para que se tome consciência de que realidade e sonho são páginas de um mesmo livro, e que optar por um não significa desprezar o outro. Essencialmente, nada no trajeto do Parque Atalaia-Centro muda — mas o afluente é a única coisa que continua a merecer a preciosa atenção da leitora. Há, em tal atitude, a sugestão de que nem com o olhar se mergulha duas vezes no mesmo rio. 

Ignoro o que a paisagem significa para ela, naturalmente. Pode ser que tenha perdido um irmão ou amigo naquelas águas, e o ato de olhá-las não passe de uma reverência póstuma, quase instintiva, como os cristãos que se benzem ao passar por uma igreja. Nem a melancólica hipótese de luto, contudo, invalida o encantamento. Independente do motivo, a olhadela de 7 segundos é o respiradouro pelo qual o universo dito palpável se infiltra na fantasia dita imaterial da leitora. O mundo a distrai do livro porque o livro a distrai do mundo. Aquele ônibus é palco do embate entre duas rotinas que, de algum modo, se anulam e se completam.

De meu lugar, antevejo a tarde em que a passageira não mais cumprirá o ritual. A ponte começará, continuará e terminará e seus olhos não se fixarão na paisagem sob ela. Será um dia muito alegre ou muito triste. Há de se admirar a história que a fez declinar ou esquecer do velho hábito. Tanto mais caso o fragmento lido no instante exato da travessia for a descrição de um rio avistado de sobre uma ponte. Nesse dia, quando a contemplação do afluente imaginário tornar dispensável visualizar o real, o escritor terá enfim ombreado com Deus.

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*Não aquele Afluente Imaginário, Martha.