sexta-feira, 29 de maio de 2009

Da série "Escrevi e saí correndo"

Cinema Novo

Mostrei minha carteirinha da biblioteca e fiquei na expectativa, como alguém que aguarda a alfândega de um país paranóico liberar sua bagagem, aliviada por constatar que o pó branco dentro dela era apenas heroína, não antrax. A moça além do vidro a examinou por bom tempo, até se convencer de que eu era realmente digno da meia-entrada.

            — Pensei que a biblioteca da UFMT houvesse renovado o modelo das carteirinhas — comentou, um desconfiado brinde verbal, me entregando o bilhete. Não havia tempo para explicar o intrincado mecanismo social que leva um cidadão a prestar vestibular para Engenharia Sanitária, ser aprovado em 4º lugar, fazer a carteira da biblioteca e nunca mais botar os pés na faculdade. A sessão já ia começar.

            Comprei toda a parafernália gastronômica de que ia precisar para enfrentar os... Quantos minutos de filme eram mesmo? Tirei o informativo do bolso e levei um pequeno susto ao fitar as informações técnicas relativas a “Anjos & Demônios”. Em “duração”, estava especificado: 16 anos; na censura, por sua vez, um grande “140 minutos” saltava aos olhos.

            O erro de impressão era óbvio demais, mas não menos incrível foi o turbilhão de sensações que aquelas informações desencontradas provocaram neste atormentado aspirante a escritor, caso fossem de fato verdadeiras. 

            Em primeiro lugar eu estaria caminhando para um recorde mundial: um filme com 16 anos de duração configuraria certamente a maior sessão de todos os tempos. Entraria com 20 anos, um Doritos e uma coca, e sairia com 36, uma artrite e quase cego devido à escuridão prolongada. Teriam de adiar o início da película para que os espectadores desavisados (eu entre eles) voltassem a suas casas para se despedir das famílias, namorada e, o que era melhor, pedir baixa do serviço militar.

            — 16 anos, Felipe!

            — Sim, mãe. Marketing hollywoodiano, sabe cumé... Mas eu prometo que volto em tempo para as bodas de diamante da senhora e do papai!

            — Meu filho, e se o mundo acabar mesmo em 2012, como disseram os maias?

            — Ora, mãe, não seja boba! A sala é à prova de ataques nucleares.

           

            Já que a censura corresponde a pouco mais de duas horas de vida, é razoável supor que muitas mães levassem seus bebês para assistir o longa-quilometragem. Difícil mesmo seria posicionar as lentes de contato bicolores sobre as íris dos recém-nascidos — uma vez que o uso dos óculos tornara-se inviável devido ao incômodo provocado em quem já os possuía, na versão transparente.

            De seis em seis meses haveria reabastecimento de coca-cola, pipocas e (por exigência minha) Doritos de queijo nacho. Festas de aniversário, Natal, dia das mães — tudo seria discretamente comemorado na sala, para não atrapalhar quem preferia não perder um dia da estória. Nos intervalos do filme — que durariam aí umas duas semanas, ocorrendo de três em três anos —, os dirigentes do shopping fariam um boletim sobre os principais acontecimentos no mundo exterior:

            — E em Abril deste ano Osama Bin Laden foi finalmente encontrado, passando-se por ministro da defesa no Brasil. Infelizmente, os crimes a ele imputados prescreveram uma hora antes de sua prisão, o que lhe garantiu total limpeza de histórico. Os assessores do ex-terrorista contaram que ele pretende começar uma vida nova nos EUA, naturalizando-se americano. Ah, e perdemos a copa de novo.

            Outro ponto interessante seria a fortíssima relação construída entre a platéia e os personagens do filme. Choraríamos com eles, sentiríamos as emoções do primeiro beijo a seu lado, aprenderíamos a rir até das piores patacoadas de que o humor inglês é capaz por causa deles. É claro que sempre haveria os críticos amadores:

            — Não sei... O Tom Hanks me pareceu mais elétrico no verão retrasado...

           

Que roteiro teria um filme com tal extensão? Poderia ser a adaptação fiel (e nesse caso os cortes definitivamente não existiriam) de um épico da nossa literatura. Guerra e Paz, por exemplo. Aí, quando um pseudo-intelectual lhe perguntasse cheio de pompa se você já lera a grande obra de Tolstoi, não haveria vergonha nenhuma em encher a boca e dizer:

            — Não, mas assisti ao filme.

 

            O final da sessão seria um clímax à parte. Os mistérios semeados durante quase 6.000 dias encontrando-se num ápice apoteótico. O herói tendo sucessivas epifanias em forma de flashes, antes de cair nos braços frios da morte. A Vilminha revelando sua verdadeira faceta, oculta desde 1997. Um figurante pelo qual ninguém dava nada, aparecido lá na primeira década do filme, mostrando-se a verdadeira mente ardilosa por trás de tudo. As pontas soltas se prendem. Tudo faz sentido! A Lei de Murphy, os massacres em Abu Ghraib, o Ato Patriótico — nada fica sem justificativa.

           

            Como os créditos finais demorariam outros dezesseis anos para terminar, levantaríamos finalmente de nossas poltronas, a sensação do dever cumprido nos rostos enrugados. Um ruído de espinhas estralando e colunas entrevando varreria a sala de projeção. Muitos não estariam preparados para retornar à civilização. Outros talvez nem quisessem. Passariam o resto de suas vidas na sala deserta, refletindo sobre o filme. Nós entenderíamos.

            Deixaríamos o cinema e teríamos uma surpresa: o mundo exterior não passava então de um imenso deserto, com nuvens radioativas impregnando o horizonte.

 

            — Não é que os maias tinham razão? — alguém comentaria, e eu me lembraria de que acabei perdendo as bodas da mamãe. — Que se há de fazer? Bora voltar pra sala, dizem que o próximo filme chama-se “A Lagoa Azul”...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Fósseis do ofício

Ela não pára de te olhar, e você pensa: “ôsh”. Depois reflete melhor, certificando-se de que a carteira continua no bolso. A moça até que não é feia, mas a fixidez sugere algo mais sério que amor ou assalto. Ela se levanta e vem em sua direção. Desesperado, você tenta limpar a farofa do canto da boc...
            — Como disse?
            — As vendas do Lord Nerd, como vão?
            Você não entende a pergunta. Está prestes a dizer “não sei onde fica essa loja” quando se lembra. O Lord Nerd, claro, seu primeiro romance!
            — Ah, você leu, é?
            — 28 vezes. Fundei um fã-clube dedicado exclusivamente à personagem Miss Mônica. Olha, eu sou, sei lá, fanática pela tua escrita, viu?
            Você coloca disfarçadamente a camisa por dentro das calças. A líder de um fã-clube da Miss Mônica ali e você com farofa no canto da boca!
            — Sério?
            — Sim! — e os olhos dela brilham — A gente costumava dizer lá na escola que, quando crescesse, queria ter uma família igual à dela! A erudição emanando das paredes, discussões domésticas com verniz filosófico, pais cujo maior temor era o dia em que os filhos pequenos lhes perguntassem “de onde vem o metano de Marte?”. Ficamos até melhores em certas matérias, depois que lemos o livro. Vivíamos dizendo que era questão de tempo até você desbancar Barbara Cartland do topo dos best-sellers.
            — Ah é?
            — Agora, uma coisa sempre nos intrigou na estória...
            — Sim, o que era?
            — Aquela parte no 18º capítulo, onde a Sra. Chandler passeia à beira da praia e encontra a metade de um rosto humano desenhado na areia, e diz: “só quem sentirá falta do homem quando o dia do grande expurgo passar serão as sete maravilhas do mundo, pois nenhum outro animal inflará seus egos de mármore” — você nota três coisas enquanto ela recita a tal passagem: a ânsia da moça em deixá-lo admirado pelo grau de seu fanatismo e dois erros de concordância que a revisão terceirizada não podia ter deixado passar — Era uma alusão a Foucault, não?
            — Bem...
            — Porque havia uma vertente do grupo que achava que estava mais para Albert Camus, e outra que chutava ter a ver com o Eco... Ah, e o final do livro foi o melhor que já li em toda a minha vida, juro! Só de lembrar a cena em que o Cronus atira os cordões umbilicais dos 7 Superiores ao fogo, gritando “às cinzas, às cinzas!”, nossa... Olha só, até arrepio!
            — Puxa...
            É o máximo que você pode fazer? Uma fanática se declarando e você só diz “puxa”?
            — Olha, até encenamos algumas passagens no teatro do grêmio. Eu interpretei Miss Mônica!
            — Puxa...
            — Mas e você, o que está fazendo por aqui?
            Você não pode dizer que ainda não terminou de ressarcir à editora o prejuízo da tiragem megalomaníaca daquela obra, e que hoje em dia o mais próximo de Literatura que contempla são os suplementos culturais que eventualmente lhe entregam nas ruas. Não vai decepcioná-la revelando que virou funcionário público e só tem mais 7 minutos para terminar o almoço. Ah, mas não mesmo!
            — Atualmente, estudando uma proposta da Rocco.
            — Da Rocco! Puxa, eu sabia que você ia arrasar a Barbara Cartland! Espera só a turma saber!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Amor em tempos de orkut

— Me add aí!

— Onde me encontrou?

— Vc também enxerga mensagens ocultas nas caixas de maizena, vi em suas comunidades.

— É vc mesmo na foto?

— Não liga praquele cara, é só um fake metido a pseudo-intelectual!

— Vamos marcar?

— Me diga a hora.

— Te achei bem mais bonito pelo MSN.

— O Photoshop ajudou...

— Não era pra vc aceitar aquele depoimento!

— Por que me mandou um vídeo pornô só com lésbicas? Vc curte brigas de aracnídeos?

— Minha amiga disse que vc me deixou um recado escandaloso, mas apagou depois. Por quê?

— Eu não! Deve ter sido vírus...

— Não recebi scrap seu ontem...

— Então pra quem foi que mandei?

— Nossa conversa na terça foi longa, hein?

— Sorte sua o Messenger não ter corretor ortográfico. Ele não ia deixar vc sequer chegar perto do teclado...

— Não entendi...

— Não me surpreende. Qual a cor natural do seu cabelo?

— Meu bem, não fique assim. Em fóruns de orkut, muitas vezes vc pode estar discutindo com um imbecil — e ele também.

— Como assim “o Photoshop pode ter inflado ligeiramente minhas glândulas mamárias”?

— Pensei que não ligasse para aparências.

— Tudo bem. Pronta para dar o passo seguinte na nossa relação?

— Não sei... Mudar minha definição de relacionamento para “casada” me parece meio precipitado...

— Como, “precipitado”? Se eu já tenho 12 anos e vc tem 11!

***

— Papai disse que contribuirá com dois salários mínimos para a festa do casamento.

— Se não gostou do buffet que contratei, devia ter me dito pessoalmente, não ido desabafar criando um tópico intitulado “Caviar del Paraguay”, numa comunidade chamada “Noivas frustradas do Brasil”!

— Me passou a senha incorreta, seu cachorro! Tem depô não-aceitável lá, né? Eu sei que tem!

— O Juninho não sai da frente daquele PC...

— Pelo menos as comunidades dele são instrutivas. Vi uma chamada "Nietzsche For Speed".

— Amor, a luz do quarto da Mariana ainda tá acesa. Vai ver o que ela tá fazendo.

— Conversando com um amiguinho do orkut.

— E parece confiável?

— Sim. A primeira mensagem dele foi bem inocente: “me add aí!”.

Merthiolight

A discussão no bar já chegara naquela fase em que, para a mãe alheia ser mencionada de forma pouco lisonjeira, faltava isso aqui, ó. O assunto era a decadência do ocidente e o André, como sempre, tinha uma teoria:


— Essa geração só deu no que deu por causa do novo Merthiolate.


Calou-se por instantes, contemplando o impacto da própria declaração. Os amigos pediram que ele desenvolvesse, e, com a empáfia de um acadêmico etílico, cujas teses mais brilhantes vão subindo à medida que o álcool desce, explicou:

— Vocês precisam entender que essa é a primeira geração em séculos a não conhecer o Merthiolate que arde. Cresceu sem a consciência da punição. Quer dizer, a via sacra “roubar manga do vizinho - o galho da árvore quebrar – o moleque se estrepar na cerca de arame-farpado – mamãe passar Merthiolate” continua a mesma, mas eliminou-se justamente o elemento purgativo da última fase: o ardor dos diabos desse remédio milagroso. Não era a bronca dos pais que impedia (quando impedia) de nos metermos em brincadeiras com potencial de expor nossas vísceras, mas a simples lembrança do sofrimento provocado por aquele líquido laranja ao adentrar nossas feridas. Para não enfrentar o Merthiolate, fazíamos tudo, inclusive virar pessoas civilizadas. Quando o Zé Wilker apareceu na TV para anunciar a nova fórmula do medicamento (que, em minha opinião, deveria ser rebatizado para “Merthiolight”), condenou toda a posteridade à danação eterna. Perdeu até a cor original! Se mamãe não precisa mais ficar soprando enquanto pincela a pereba, o guri se convence de que, no fim das contas, a aventura valeu a pena. Se convencendo, torna-se auto-suficiente cedo demais. Tornando-se auto-suficiente, passa a aprontar sozinho. Aprontando sozinho, vira traficante. E daí pro senado é um pulo. 

Houve divergência no grupo. O maior argumento contra a tese do André era que ainda não havia dado tempo suficiente para que se formasse uma geração inteira desde a chegada do novo Merthiolate. 

— As coisas começaram a declinar mesmo quando o Gabeira apareceu de sunguinha — arriscou o Caio, cauteloso. — O resto foi conseqüência.

— Besteira! — disse o Leandro. — O que deu errado de verdade foi colocar a Efígie da República nas cédulas de Real. Eles tentavam disfarçar o vazio cruel dos olhos dela imprimindo bichinhos no verso das notas, mas não adiantava. O povo não precisava de uma alegoria sem íris da burguesia mercantilista eivando seu suado capital, mas de uma figura que representasse verdadeiramente sua luta para reverter o quadro de miséria em que vivia desde, sei lá, Rambo II. Alguém como o Seu Madruga, por exemplo.

Mas o André não estava mais nem escutando. Era um homem da ciência, trataria de provar que sua teoria era de longe a mais acertada. Queriam ver?

— Ô Móacir! — chamou, errando a sílaba tônica, como sempre. O barman se aproximou, aquele ar de maître que tomou bomba em “nunca trate um bebedor de cerveja como se fosse gente” impregnando do sorriso ratinheiro à mão com que segurava a bandeja sustentando dois copos vazios. 

— Sim?
— O teu guri é o chefão do tráfico aqui da quebrada, não?
— Ora, o que é isso... — desconversou o Moacir, modesto.
— Me diga uma coisa, quando ele era molecote e chegava em casa chorando porque havia se cortado brincando de milícia-ladrão, com o perdão da redundância, o que você e sua senhora passavam na ferida?

O André olhava os amigos enquanto formulava a pergunta. Depois, ficou indicando o pensativo Moacir, antevendo o respaldo definitivo à sua tese.

— Acho que era álcool — sentenciou o barman.
— Rá! — fizeram os amigos.
O André ficou lívido.

— Como assim, álcool?! — berrou, inclinando-se na cátedra desmontável para dar um soco tão forte no tampo da mesa que o Moacir se assustou com o barulho e acabou derrubando os copos no chão. Calhou de um dos ínfimos cacos de vidro voar direto para a batata esquerda do professor contrariado, fazendo-lhe um corte que a raiva pelo empregado tratou de ampliar enormemente. 

— Tá vendo o que você fez? Não fique aí parado, me traga algo para a perna antes que vire uma hemorragia!

Desconcertado, Moacir correu para o interior do bar e voltou segundos depois, um vidrinho de Merthiolate nas mãos, desculpando-se ininterruptamente. Antes de pincelar o ferimento, porém, um dos amigos levantou uma questão crucial:

— Esse Merthiolate aí é pré-Wilker ou pós-Wilker?
— Já vamos saber — cortou o André, apertando os olhos e os dentes. Moacir deu a primeira pincelada.

— Filho da p...!

Não faltava mais nada. 

domingo, 3 de maio de 2009

Ensaio sobre a antropofagia

— Papai, o pica-pau é antropófago?

“Estatísticas recentes comprovam que respostas insatisfatórias dadas por adultos a perguntas formuladas durante a infância constituem a raiz dos conflitos armados no Oriente Médio. Quando o filho do primeiro homem-bomba (cujo motivo para se auto-explodir é ainda hoje um mistério) foi alertado sobre o verdadeiro porquê de o pai não ter passado sequer uma semana no novo emprego — tampouco voltado para casa a fim de relatar, dramaticamente, como fora dispensado, entre outras manias masoquistas dos recém-despedidos —, disparou o seguinte enigma na direção da meia dúzia de esposas do falecido, durante o empurra-empurra que são os cortejos fúnebres por aquelas bandas:

          — Se são os homens que mais morrem, por que tenho várias mães e só um pai, e não o contrário?


          — Desígnios de Alá — se evadiu uma delas, entre axilas à mostra.

É razoável supor que o garoto cresceu profundamente revoltado com a sociedade e suas explicações pouco didáticas, acabando por seguir o exemplo suicida do genitor e dando início, assim, a um ciclo interminável de dinamites sob as vestes. No entanto, ao contrário do que se vê na superfície, a maioria dos sacrifícios humanos posteriores ao daquele pioneiro misterioso nada teve a ver com amor a Alá. No fundo, só o que os rapazes queriam (e querem) era tirar satisfação pessoal com o Criador sobre essa história de poligamia machista — saber se fora apenas um erro de digitação nas entrelinhas do Corão —, responsável por tê-los privado da figura paterna tão precocemente”.

  

Sentado à mesa de fórmica da cozinha, Edgar acabara de ler a tal “notícia” no matinal de terça-feira. Antes que pudesse chegar à parte do jornal que informava ser aquela a nova coluna diária de um certo cronista apolítico, porém, fora interrompido pela pequena Gabriele, munida da pergunta da discórdia. Enquanto tentava desesperadamente se lembrar que diabos significava, mesmo, a palavra “antropófago”, amaldiçoava em silêncio o tio que dera um dicionário de presente à garota e ponderava se não seria melhor simular um ataque cardíaco por causa do café, forte demais, a filha insistia, sem piedade:

          — Hein, pai, o pica-pau é antropófago?

          — Eu ouvi, minha filha. Mas você está falando da espécie no geral ou de algum pica-pau em particular? — retrucou, para ganhar tempo.

          — O do desenho — explicou a menina, indicando a TV — Ele tava tentando comer o Zeca Urubu agorinha, e ainda ontem ficou babando na frente de um frango assado. Daí eu pensei...

          — Oh, sim, você quer saber como ele pode querer mastigar comida mais pesada, se não tem dentes, certo? — concluiu Edgar, eufórico. Antropófago, claro, como pudera esquecer? “Vontade de ingerir alimentos que, pelas leis da natureza, não deveriam fazer parte da nossa dieta”. Ele mesmo era um antropófago declarado! — Olha, Gabriele, o que acontece...

Mas parou, pois a menina o olhava com a única expressão com que nenhum pai quer ser fitado pelos filhos: pena.

 

         — O senhor não sabe o que é antropófago, né?

         — Bem... — o prefixo “antro” sugeria algo envolvendo a espécie humana, mas de que adiantava mentir? — Não... — e acrescentou logo em seguida, num atropelo: — Me promete que não vai se explodir por causa disso?

         — O quê?!

         — Nada, nada! O que significa?

         — Se eu entendi direito a definição no dicionário do tio André — prosseguiu ela, já indiferente à humilhação do genitor. —, quer dizer “gente que come gente”, mas tinha outra palavra mais curta pro caso dos animais que fazem isso com outros iguais a eles...

         — Canibal!

         — Isso! Canibal!

         O jeito desprovido de malícia com que a garota dissera “gente que come gente” o enterneceu, a ponto de o homem desejar por tudo no mundo que ela continuasse naquela fase da vida para sempre, no que concernia à inocência. Mas, diabo, por que as crianças não podiam decorar só os sinônimos, em vez da definição científica? Quanto constrangimento poupado! A curiosidade ainda vai matar muitos outros mamíferos inocentes, além do gato...

          — E então, o pica-pau é isso, um canibal?

          — Não, filha — explicou ele, já pisando o terreno firme da subordinação intelectual das crianças por parte dos adultos. — Ele seria canibal se comesse outros pica-paus, ou seja, pássaros da mesma espécie dele. O próprio sobrenome do Zeca deixa claro que as intenções do pica-pau ao querer jantá-lo não são canibais: ele é um urubu! E o frango pelo qual o pica-pau babou também é outra ave, certo?

         — Que nem esses que a mamãe compra no supermercado, e vive reclamando que são metade gelo, né?

        — Exatamente!

Ela sorriu, abraçando-o ligeiro.

       — Obrigada pai. Você continua sendo o homem mais inteligente do mundo, pra mim.

         E voltou para a sala, terminar de assistir pica-pau. Depois disso, ele poderia ter concluído a leitura de seu jornal sossegado, mas achou melhor inspecionar o quarto da filha. Ver se não havia dinamite embaixo da cama.

Mães

À entrada da escola, uma pequena multidão formara-se para ver a bronca.

            — Tá me ouvindo, moleque?! Se eu souber que você andou ameaçando meu filho outra vez...

            — Mãe...

            — Espera, Gustavo, agora ele vai escutar... Hein, guri? Sua mãe não te ensinou a ser civilizado, não? Por que fica aí, de cabeça baixa, depois que aprontou?

            — Mãe...

            — Já estou terminando... Que aconteceu, valentão? Olhe na minha cara quando falo com você!

            — MÃE!

            — O que foi, Gustavo!

            — Ele é autista!

            A mulher olhou de um garoto para o outro, a expressão confusa.

            — Bem, e o que tem a ver a religião?

 

***