segunda-feira, 11 de abril de 2011

Salvos Pela Ignorância

O Ricardinho só impunha uma condição para continuar comparecendo aos encontros periódicos da velha turma: que não tirassem fotos dele. Desde que chegara à escola, no longínquo 1º ano do ensino médio, misteriosamente expulso do colégio anterior, era a mesma coisa. Começou com avisos tímidos durante as festinhas de classe, não sou fotogênico, sabe como é. Mas dera o azar de nascer justo na época em que até walkie-talkies feitos com latinha e barbante têm câmera embutida, de sorte que foi preciso esmagar três celulares e dois narizes para seus apelos serem levados a sério. Percebendo que a desculpa inicial parecia pouco para justificar tamanha reserva, sem contar a violência, ele assumira uma postura teórica mais elaborada: se não detivesse nem os direitos sobre a própria imagem, sobre o que deteria, pombas?

Aos poucos, com aquela tolerância à excentricidade que só encontra solo fértil neles e nos parentes próximos, os amigos foram se acostumando. Afinal, apesar de intelectual, o Ricardinho era um cara divertido, companheiro leal e, desde que mantido longe dos flashes, pacífico até. Se o preço para tê-lo no grupo era precisar abrir o empoeirado álbum de formatura — dali a, sei lá, 40 anos — e lembrar-se vagamente que estava faltando alguém entre os rapazes, embora ninguém soubesse direito quem, eles se dispunham a pagá-lo. As alusões à sua obsessão sequer eram vetadas durante as reuniões.

— Duas coisas nesta vida ninguém haverá de ver: do bacalhau, a cabeça, e do Ricardinho, o RG — recitava Rafael, o poeta menor (em relevância e estatura) da turma. Ricardinho só fazia aplaudir, mas sempre como quem completa o poema: “tentem só, para ver”.

Ultimamente, porém, vinha ressuscitando no grupo uma desconfiança sobre a velha fobia do Ricardinho. Começou quando, à mesma mesa, no mesmo bar, a Mônica tocou numa questão jamais esclarecida.

— Não acham estranho ele nunca ter contado por que foi expulso daquele primeiro colégio?

— Bem, a tese mais forte ainda é a de brigas por fotos tiradas sem licença — lembrou o Alex.

— É, mas a diretora do nosso colégio disse que não poderia expulsá-lo pelos narizes quebrados, já que todos sabiam que ele tinha pavor de fotografias, e seus pais só foram obrigados a pagar os celulares — contrapôs o Rodolfo.

— Ainda se fosse feio, vá lá... — observou a Camila. Houve divergência.

— Vai dizer agora que ele é bonito, pô?

— Pode até não ser, mas não tem uma ruga!

Era verdade. Se havia alguém na turma que não fora reduzido — seja por festas, bebidas, parceiros errados ou tudo isso junto — a um arremedo patético do que já fora na adolescência, era o Ricardinho. Dava inveja constatar como o desgraçado conservara todos os cabelos, a barriga reta e o viço da pele. Suspeitíssimo.

— E aquele maldito livro que ele carrega para todo lado? — atalhou a Camila, querendo poupar a auto-estima do grupo.



— Pois é — disse o Rafael, pensativo. — Toda vez que alguém pergunta sobre a real origem do medo, ele dá uns tapinhas no livro e diz que sofre de uma versão modernizada da mesma maldição que aparece na obra. 

— Pô, Rafael, tu que é poeta não sabe que livro é?

Rafael deu de ombros:
— O título está apagado demais e, pela cor da capa, não faz o meu gênero.

 — O livro não é importante — cortou a Mônica. — Deve ser só um blefe do Ricardinho para desviar a atenção do verdadeiro problema. O que a gente precisa é bolar um jeito de descobrir o que ele esconde sob esse papo de “direitos de imagem.”


Combinaram a ação para o fim de semana seguinte. Chamariam o Ricardinho para um churrasco casual na casa da Mônica, onde a turma toda posaria para um retrato caricatural feito por um conhecido cartunista, amigo do pai da moça.

Ouviu, Ricardinho? — disse Camila ao convidá-lo, fazendo gestos exagerados, como a explicar a tabuada do 7 a uma criança. — Um retrato caricatural, desenho, grafite sobre tela. Nada de câmeras digitais, celulares nem polaróides.

Primeiro Ricardinho ficou teso, depois pensativo e por fim concordou.

— Mas tem uma condição — ressaltou.

— O quê?

— O desenho vai ficar comigo.

— Por quê?

— Preciso me certificar de uma coisa...

Durante o churrasco, tudo correra bem. A dificuldade veio na hora da foto, quando precisaram acomodar os convidados mais alterados no banco do coreto que havia nos fundos da casa da Mônica, de modo a tornar a farsa convincente para Ricardinho, muito tenso em seu lugar de destaque. O tal famoso cartunista (na verdade, Rodolfo disfarçado) só precisou de alguns segundos para acionar várias vezes a câmera profissional embutida em sua tela, enquanto fingia ajustar o tripé. Sem barulho nem flash, o plano sairia perfeito, não fosse por um tio embriagado da anfitriã que, desejoso de ver “como estava ficando o rabisco”, acabou atrapalhando o fotógrafo e revelando tanto sua identidade quanto a armadilha. Ricardinho ficou furioso.

— Rodolfo, me dá essa câmera! — vociferou, a ameaça transbordando de cada sílaba. Mas Rodolfo saíra correndo, metade do bigode fajuto ainda pregado ao rosto, montara na moto e desaparecera cantando pneus. E não à toa os amigos o haviam incumbido da tarefa: o rapaz era piloto de motocross nas horas vagas. Mesmo se quisesse, Ricardinho jamais o alcançaria.

Mas ele não quis. Todos ficaram bastante apreensivos com sua próxima reação — somada à consciência da traição, a velha violência podia voltar ainda mais forte. Cada um correu a se agarrar ao cabo de enxada mais próximo. Ricardinho, porém, apenas exclamara vagamente:

— Vocês não compreendem...

E deixara a casa da Mônica aos prantos.


Ainda estava chorando quando chegou à própria residência. Só então lembrou-se de outro erro fatal: deixara o livro sobre o banco do coreto. Se, apesar das fotos, houvesse qualquer esperança de os outros continuarem ignorando sua real condição, o esquecimento da obra arruinava tudo — só precisariam saber o título para somar dois e dois. Droga! Não fosse pela maldita curiosidade em descobrir se sua praga estendia-se também a desenhos caricaturais, devia ter desconfiado da encenação. Por tudo na vida, não queria punir os amigos, embora soubesse não haver outro jeito. Ficou inconsolável durante horas.

Então o telefone tocou. Uma, duas, três vezes. Não deu atenção. Quando a chamada finalmente caiu na caixa de mensagens, a voz angustiada de Mônica encheu a sala:

Ricardinho?! Alô, Ricardinho?! Se estiver aí, atenda, por favor! Nós cometemos uma tremenda injustiça com você! O Rodolfo acaba de mandar as fotos por e-mail. (Não se preocupe, ninguém mais ficou sabendo.) Poxa, a coisa estava na nossa cara o tempo todo! Você tem um tipo avançado de fotofobia, não é? É hiper sensível à luz, ou a alguma outra coisa que as câmeras emitem, já que a do Rodolfo nem tinha flash... As feridas que aparecem no seu corpo e rosto quando tira fotos, meu Deus... Estávamos tão ocupados achando que você fosse querer bater em todo mundo que nem notamos as chagas durante a confusão, embora o meu tio afirme ter visto mesmo uns machucados feios aí... Olha, a turma está fazendo uma busca pelos hospitais da região para te achar, se ouvir esta mensagem, nos procure, por favor! E seu livro ficou aqui, guardamos pra você... Ah, amigo, eu armei tudo isso, estou tão arrependida...

Ricardinho não podia acreditar. Fotofobia? Então eles haviam chegado àquela conclusão? Nem mesmo Rafael, o poeta menor do grupo, conseguira juntar os pontos? Seria possível que ninguém ali sequer ouvira falar na história do livro que carregava consigo por toda a parte, como um talismã, durante os últimos 19 anos? Os amigos haviam mesmo sido salvos pela própria ignorância?

Estava certo. A turma nem desconfiava da verdade e, exceto pelo fato de as alusões à “doença” terem cessado, e que agora todos o viam com uma pontinha de pena, voltaram às boas. Pouco a pouco, o incidente no coreto foi desvanecendo-se no passado, como uma mancha de vinho que reluta, mas acaba saindo.

O Ricardinho só reza para que nenhum dos amigos jamais leia O Retrato de Dorian Gray (que, aliás, nunca mais levou às reuniões). Porque, se isto acontecer e a turma finalmente desvendar seu segredo, ele terá de matar todo mundo.

E esse negócio de procurar novos amigos já está ficando chato.