quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Saudosos S/A

Eu envelheço, eu envelheço.

O saudosismo me enreda em seus braços de mármore. Acabo de descobrir que o substantivo “consolo” ganhou conotação de sacanagem. Com o advento das Sex Shops, “Passei a noite consolando minha cunhada...” é uma frase que não se consegue mais pronunciar numa roda de amigos sem que se perceba um ligeiro ar de constrangimento por parte dos presentes, como se a gente houvesse acabado de revelar certa inclinação à necrofilia. E, caso a namorada esteja junto, ainda corremos o risco de levar um chute por baixo da mesa, para aprendermos a acompanhar a evolução etimológica das coisas. Foi o mesmo com o verbo meter, que antigamente, segundo o Aurélio, era apenas o “ato de colocar, pôr, introduzir” e derivados. Hoje, a última significação possível já dá uma idéia do quão mudados estão os tempos: “você-sabe-o-quê”.


O que deu errado, no meu caso, foi o excesso de metafísica. Na escola, enquanto as outras crianças brincavam de milícia e ladrão, meninos-pegam-meninas (numa época em que “pegar” também era um verbo virgem) e ET - Cétera, eu enchia as professoras com perguntas do tipo “Se a cenoura é mais laranja que a laranja, por que a cor não se chama ‘cenoura’ em vez de ‘laranja’?” e “A Dialética de Kant me parece precipitada enquanto objeto de análise da Teoria das Lentes e... A senhora tem namorado?”. Fui o último da classe a descobrir o verdadeiro motivo da freqüência com que alguns alunos chamavam a professora de Estudos Sociais (lembra, Estudos Sociais?) até sua carteira. Na verdade eram dois motivos, cheios de silicone.


O que aconteceu com os cachorros-quentes de 1 real? Que fim levou a turma da Caverna do Dragão? O Mestre dos Magos era mesmo o Satanás travestido de anão? Atualmente refrigerante custando menos de 3 reais é soda cáustica. Biotônico Fontoura. Pelo menos Toddynho segue sendo bebida de rico e o azeite , tempero de milionário.


Saudades do dia em que encontrei um daqueles lápis verdes poligonais sob a bancada da cantina, na entrada em fila para a sala e gritei:


— Olha, mãe! Achei um lápis novinho!

— Tudo bem, guarda e entra pra sala.

— É daqueles maleáveis, olha só!

— Cuidado, guri, vai quebrar isso aí...

— Nada! Ele é bem resistente, quer ver...

E o “CRECK!” só não foi sucedido por um cascudo porque o lápis não era meu mesmo. Hoje as coisas estão tão modernas que as canetas já vêm quebradas de fábrica, tirando-nos a oportunidade de impressionar a genitora com nossa força descomunal.


E as modinhas? Ah, as modinhas... Tazos, álbuns do campeonato brasileiro 97 (“Roubaram o meu Jardel, diretora!”), moedas raras, bate-bate (“que braço inchado é esse, garoto?”), bolas de gude. Uma vez, olhando contra a luz, eu cismei que havia uma aranha radioativa dentro de uma bola de gude enorme do meu irmão. Escondido dele, peguei o martelo do meu pai e quebrei a esfera, o veneno já na outra mão, pronto para eliminar aquela ameaça à saúde da vizinhança. Quando me perguntaram, cheios de sarcasmo, segurando o Thiago para não me bater, o que acontecera com a aranha, eu disse:


— Ela fugiu! Ela fugiu!


E os ioiôs de marcas de refrigerante?! A gente começava pelas classes mais baixas: Simba, Tupi, Gut-Gut, Guaraná Jesus ou RC Cola. Os torneios de ioiô tinham de tudo, até meninas. Ganhava quem conseguisse imitar com maior precisão as manobras daquele episódio do Chaves, em que o Seu Madruga contrata uma dupla de profissionais do brinquedo. O ápice do jogo era tentar tirar os cigarros da orelha de alguém, geralmente o nosso irmão caçula. Às vezes dava muito trabalho, mas tudo era recompensado pelos aplausos da torcida quando o cigarro ia finalmente ao chão, e o nosso irmãozinho também.


A série B era parcialmente composta pelas marcas mais diretamente subordinadas da A: Fanta, Sprite e até Pepsi, que, corria um boato entre nós, era muito mais poderosa que a Coca, só não gostava de ostentação. De vez em quando me pergunto como seria um ioiô da Kuat ou do Guaraná Antártica. Não importa. Eu tinha um da Fanta Uva bem velhinho, e ambicionava chegar ao topo da pirâmide, que pertencia, claro, à Coca. Soube de gente que matou por um ioiô da Coca. Enforcou o caboclo com o próprio cordão do brinquedo, juro.


Hoje não se mata mais por um ioiô da Coca... Mas se vir um, eu não respondo por mim.

Outra coisa que mudou foi a influência dos desenhos animados nas atitudes de crianças e adolescentes. Para o bem e para o mal, creio. Por exemplo, você não encontrará uma só criança que ainda concorde em que, se ela enfiar seus dois dedinhos nos canos de uma espingarda segundos antes de o bandido puxar o gatilho, a arma estourará na cara do malfeitor. Ou que é fisicamente possível cortar um poste com um machado, correr 500 quilômetros para o norte e ainda assim ser atingido na cabeça pelo mesmo poste. Por outro lado, ninguém mais se engana com a conversa mole do Poppeye sobre a assustadora massa muscular advinda do consumo de espinafre. A emancipação infanto-juvenil se sobrepõe a essa bobagem naturalista e recorre a métodos mais rápidos e eficazes, como anabolizantes para cavalos. E eu, que nunca comi espinafre, tampouco aderi ao halterofilismo amador, sigo ostentando esta magreza etiópica, todo orgulhoso.

Se você tiver outros exemplos de coisas que eram melhores no passado do que agora, por favor, guarde-os para você.

Vou para o túmulo com os meus.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Vozes

Os irmãos Victor e Eduardo tinham as vozes tão parecidas que era comum que as pessoas os confundissem ao telefone.

— Alô?

— Oi, a minha mãe saiu e eu estou sozinha em casa, sem calcinha, em cima da nossa cama...

— Um minuto que eu vou chamá-lo.

Ou:

— Pronto.

— Ô, seu porra, a gente tá esperando a bola aqui na quadra!

— Seu porra, não senhor! Aqui é o irmão dele.

— Então, seu porrinha...

E por aí afora. O Edu, grande pegador da mulherada no bairro, logo descobriu que poderia usar o Victor, grande erudito e estudioso da sensibilidade feminina, para terminar seus namoros por telefone, sempre que não tivesse coragem suficiente para fazê-lo cara a cara. Depois de muita discussão sobre a moral, a ética e, estranhamente, 500 reais que tinham sumido da conta do papai no mês anterior, o Victor concordou. Além do mais, havia sempre o bônus de poder entender como funcionava o mecanismo do relacionamento amoroso em seus últimos momentos de existência, já que nunca namorara na vida.

A primeira experiência foi um sucesso retumbante. Com uma retórica impecável, eivada de sofismas, e sob as instruções pantomímicas do irmão, Victor deu a entender que um relacionamento de oito meses com a Mônica não tinha mais futuro, mas que isto não se devia a um distúrbio de personalidade da moça, tampouco dele próprio, e sim a uma coisa que Jung chamava “ausência de sincronicidade”, passando pela impossibilidade do amor verdadeiro em tempos de ditadura, a relativização dos sentimentos, e você sabia que o experimento de Stanford provou serem as relações sociais ditadas segundo a hierarquia imposta pelo Estado?

A partir daí a coisa ganhou status de hobby. Já que mulher nunca fora problema para ele, ao menor sinal de dificuldades amorosas, o Edu sentenciava, como quem recomenda o exército para resolver o problema nos morros cariocas e pronto:

— Victor, liga pra ela!

E lá ia o irmão, todo sádico, testar uma nova forma de encerrar relacionamentos sem deixar a guria muito magoada. Com o tempo, até mesmo as instruções manuais do Edu foram dispensadas. Só havia uma frase que o Victor estava terminantemente proibido de dizer ao telefone: “Ainda podemos ser amigos...” e similares.

— Mas Edu, a gente ficou ontem, foi tão bom...

— Não, Cloraci — o apelido dela durante o namoro era “Clô”, mas tratar as meninas pelo nome de batismo era muito importante, pois sugeria o esmaecimento do carinho e, em caso de nomes feios, até uma espécie de reprimenda à falta de criatividade dos genitores. —, nós quisemos pensar que foi bom, quando na verdade nosso cérebro só fez mascarar uma crise que já vinha se agravando desde aquela briga no cinema, lembra? Você deu risada quando eu disse para a menina da bilheteria que nós já havíamos estudado juntos, ela respondeu que não lembrava e perguntou de qual matéria eu dava aulas. Você riu! Foi suficiente, Cloraci. As coisas começam assim... Agora não adianta chorar.



Uma vez o Victor resolveu fazer diferente. Não era justo que o irmão tivesse tantas mulheres e ele precisasse se contentar com um pôster da Jennifer Connelly. Decidiu que, na próxima ligação, sem o Edu perceber, marcaria um encontro de reconciliação com a garota. Se ela aparecesse e quisesse ficar com ele, ótimo, se não, que mal poderia lhe acontecer? No máximo um tapa na cara, e se fosse rápido o suficiente para se abaixar, nem isso.

Não precisou telefonar. A moça fora mais rápida.

— Alô.

— Oi, Eduardo Santanna Gusmão?

A voz era atraente e, se não fosse só o cérebro tarado do Victor, cheia de contida lascívia

— Ele mesmo.

— Chegou a hora. Precisamos nos encontrar de imediato. Eu não posso ir à sua casa pra te buscar, tive um problema com o estepe. Pode estar no Bar Gato Preto em quinze minutos?

— Dez. Estarei em dez.

— Ótimo, espero você.

Tomou dois banhos, um com água e outro com perfume, escovou os dentes três vezes, vestiu-se cheio de pompa e saiu. Mal podia imaginar a dona daquela voz tão linda. Certificou-se de que daria um substituto mais ou menos à altura do irmão.

O bar estava quase vazio, as ruas paradas. Achou estranho uma carroça estacionada ao longo do acostamento, a roda esquerda danificada, dois cavalos pretos enormes resfolegando. Sentou-se num desses bancos altos de bar e pediu uma coca. Logo ela apareceria.

A moça foi precedida por um horrível vento gelado. Por trás, tapou os olhos dele e perguntou, a voz inconfundível:

— Adivinha quem é?

Ele virou-se todo sorridente, mas logo percebeu que havia alguma coisa errada. A mulher tinha uma palidez cadavérica, usava túnica preta e trazia uma enorme foice nas mãos.

— Quem é você?

— A Morte, é óbvio. Aliás, obrigada por ter entendido meu contratempo com essa carroça maldita, a maioria das pessoas faz um escândalo danado quando a hora delas chega. — Suspirou, como se dissesse “Ê, vida...” — Mas bem, vamos logo com isso, Seu Eduardo, que estou com muito serviço acumulado...

— Espere, eu não sou o Eduardo!

— Ora, homem, deixe disso. Você conseguiu vir até aqui e agora vai dar pra trás?

— Não, é verdade, eu sou só o irmão dele e...

Saiu correndo, derrubando cadeiras e mesas por onde passava. A Morte foi atrás, resignada.



Testemunhas disseram que suas últimas palavras foram “Ainda podemos ser amigos...”

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Apocalypso, não!



Uma estranha formação de nuvens foi filmada pairando nos céus de Moscou. Como uma aliança de luz colossal, ou um vigilante olho sem pálpebra, dependendo do romantismo do observador. Corta para a minha placa de “Eu já sabia.”

Não é de hoje que sustento seja o apocalipse uma parceria entre duas entidades poderosíssimas: a saber, Deus e os Extraterrestres. Há muito que o Criador anda desgostoso com os humanos. Descumpriram o pacto de não-agressão firmado depois do dilúvio (tratando posteriormente a aliança representativa do acordo como um mero fenômeno óptico chamado arco-íris, e tendo coragem de chamar o episódio de “plágio” da Epopéia de Gilgamesh), consumiram demais, produziram de menos e até no petróleo que escondera com tanto esmero tinham dado para mexer. Sem falar no que haviam feito com o guri, que nunca mais fora o mesmo.

Foi difícil a decisão do despejo. Tanto que Deus ainda reluta em levá-la a cabo. Seus assessores concordaram que seria mais adequado conceder a Terra aos aliens, que, entre outros inúmeros benefícios, pagariam em dia, não renegariam o valor de algumas invenções humanas realmente úteis (como a escada rolante e a privada), não destruiriam os recursos naturais e produziriam patrimônios históricos muito melhores que “aquelas horríveis cabeças em Páscoa”.

— Sei não... — disse Deus, com eloqüência.

A prova de que o Todo-Poderoso quer nos dar uma segunda chance para mostrarmos que ainda podemos ser bons inquilinos são os sinais, como esse da Rússia. Cada círculo em plantação de milho, cada imagem de santo que chora e cada bezerro bicéfalo que nasce são avisos contratuais divinos, como se Deus estivesse nos dizendo, mãozinha estendida:

— Paguem os 21 séculos de aluguel!

E olha que Ele ainda tomou nossa convenção ocidental do tempo para contar os atrasados. Mateus, aliás, é tido como o mais famoso cobrador de impostos da Bíblia, quando esse título na verdade pertence a Jesus. Mandar o próprio filho inspecionar a administração do legado paterno foi certamente uma experiência traumática, e imagino que Deus já deva pensar com aflição em quem dará a ordem do despejo, caso chegue a executá-la. Poderia terceirizar a empreitada, e quando os humanos dessem por si, haveria tratores gigantescos aplainando o Pão de Açúcar.

— Mas o que é isso?!

— Desculpem. Ele disse que os avisou.

— Como? Na Bíblia falava que haveria toda uma Guerra ideológica antes!

— Ele também disse que enviou uma errata da Bíblia numa plantação de milho no Ceará, mas parece que a encomenda de pamonha era grande e vocês não tiveram tempo para ler.

Não podemos negar que foi uma desconcertante ironia, a de botar uma auréola sobre a Rússia. Logo a Rússia, o berço de um sistema que, em nome de ideais igualitários, erigiu um regime ainda mais opressor. O Comunismo Soviético é o segundo maior argumento dos assessores de Deus para o apocalipse, que não será uma aniquilação, afinal, e sim uma transferência de terras. O primeiro todo mundo sabe qual é. A banda Calypso, é claro.

Até imagino como Douglas Adams chamaria uma organização humana rebelde, caso Deus nos pusesse realmente no olho do Universo, junto com toda a nossa tralha.

“Movimento dos sem Terra”.

E nós, como o Seu Madruga, continuamos saltando pela janela.