terça-feira, 19 de maio de 2009

Amor em tempos de orkut

— Me add aí!

— Onde me encontrou?

— Vc também enxerga mensagens ocultas nas caixas de maizena, vi em suas comunidades.

— É vc mesmo na foto?

— Não liga praquele cara, é só um fake metido a pseudo-intelectual!

— Vamos marcar?

— Me diga a hora.

— Te achei bem mais bonito pelo MSN.

— O Photoshop ajudou...

— Não era pra vc aceitar aquele depoimento!

— Por que me mandou um vídeo pornô só com lésbicas? Vc curte brigas de aracnídeos?

— Minha amiga disse que vc me deixou um recado escandaloso, mas apagou depois. Por quê?

— Eu não! Deve ter sido vírus...

— Não recebi scrap seu ontem...

— Então pra quem foi que mandei?

— Nossa conversa na terça foi longa, hein?

— Sorte sua o Messenger não ter corretor ortográfico. Ele não ia deixar vc sequer chegar perto do teclado...

— Não entendi...

— Não me surpreende. Qual a cor natural do seu cabelo?

— Meu bem, não fique assim. Em fóruns de orkut, muitas vezes vc pode estar discutindo com um imbecil — e ele também.

— Como assim “o Photoshop pode ter inflado ligeiramente minhas glândulas mamárias”?

— Pensei que não ligasse para aparências.

— Tudo bem. Pronta para dar o passo seguinte na nossa relação?

— Não sei... Mudar minha definição de relacionamento para “casada” me parece meio precipitado...

— Como, “precipitado”? Se eu já tenho 12 anos e vc tem 11!

***

— Papai disse que contribuirá com dois salários mínimos para a festa do casamento.

— Se não gostou do buffet que contratei, devia ter me dito pessoalmente, não ido desabafar criando um tópico intitulado “Caviar del Paraguay”, numa comunidade chamada “Noivas frustradas do Brasil”!

— Me passou a senha incorreta, seu cachorro! Tem depô não-aceitável lá, né? Eu sei que tem!

— O Juninho não sai da frente daquele PC...

— Pelo menos as comunidades dele são instrutivas. Vi uma chamada "Nietzsche For Speed".

— Amor, a luz do quarto da Mariana ainda tá acesa. Vai ver o que ela tá fazendo.

— Conversando com um amiguinho do orkut.

— E parece confiável?

— Sim. A primeira mensagem dele foi bem inocente: “me add aí!”.

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