terça-feira, 19 de maio de 2009

Merthiolight

A discussão no bar já chegara naquela fase em que, para a mãe alheia ser mencionada de forma pouco lisonjeira, faltava isso aqui, ó. O assunto era a decadência do ocidente e o André, como sempre, tinha uma teoria:


— Essa geração só deu no que deu por causa do novo Merthiolate.


Calou-se por instantes, contemplando o impacto da própria declaração. Os amigos pediram que ele desenvolvesse, e, com a empáfia de um acadêmico etílico, cujas teses mais brilhantes vão subindo à medida que o álcool desce, explicou:

— Vocês precisam entender que essa é a primeira geração em séculos a não conhecer o Merthiolate que arde. Cresceu sem a consciência da punição. Quer dizer, a via sacra “roubar manga do vizinho - o galho da árvore quebrar – o moleque se estrepar na cerca de arame-farpado – mamãe passar Merthiolate” continua a mesma, mas eliminou-se justamente o elemento purgativo da última fase: o ardor dos diabos desse remédio milagroso. Não era a bronca dos pais que impedia (quando impedia) de nos metermos em brincadeiras com potencial de expor nossas vísceras, mas a simples lembrança do sofrimento provocado por aquele líquido laranja ao adentrar nossas feridas. Para não enfrentar o Merthiolate, fazíamos tudo, inclusive virar pessoas civilizadas. Quando o Zé Wilker apareceu na TV para anunciar a nova fórmula do medicamento (que, em minha opinião, deveria ser rebatizado para “Merthiolight”), condenou toda a posteridade à danação eterna. Perdeu até a cor original! Se mamãe não precisa mais ficar soprando enquanto pincela a pereba, o guri se convence de que, no fim das contas, a aventura valeu a pena. Se convencendo, torna-se auto-suficiente cedo demais. Tornando-se auto-suficiente, passa a aprontar sozinho. Aprontando sozinho, vira traficante. E daí pro senado é um pulo. 

Houve divergência no grupo. O maior argumento contra a tese do André era que ainda não havia dado tempo suficiente para que se formasse uma geração inteira desde a chegada do novo Merthiolate. 

— As coisas começaram a declinar mesmo quando o Gabeira apareceu de sunguinha — arriscou o Caio, cauteloso. — O resto foi conseqüência.

— Besteira! — disse o Leandro. — O que deu errado de verdade foi colocar a Efígie da República nas cédulas de Real. Eles tentavam disfarçar o vazio cruel dos olhos dela imprimindo bichinhos no verso das notas, mas não adiantava. O povo não precisava de uma alegoria sem íris da burguesia mercantilista eivando seu suado capital, mas de uma figura que representasse verdadeiramente sua luta para reverter o quadro de miséria em que vivia desde, sei lá, Rambo II. Alguém como o Seu Madruga, por exemplo.

Mas o André não estava mais nem escutando. Era um homem da ciência, trataria de provar que sua teoria era de longe a mais acertada. Queriam ver?

— Ô Móacir! — chamou, errando a sílaba tônica, como sempre. O barman se aproximou, aquele ar de maître que tomou bomba em “nunca trate um bebedor de cerveja como se fosse gente” impregnando do sorriso ratinheiro à mão com que segurava a bandeja sustentando dois copos vazios. 

— Sim?
— O teu guri é o chefão do tráfico aqui da quebrada, não?
— Ora, o que é isso... — desconversou o Moacir, modesto.
— Me diga uma coisa, quando ele era molecote e chegava em casa chorando porque havia se cortado brincando de milícia-ladrão, com o perdão da redundância, o que você e sua senhora passavam na ferida?

O André olhava os amigos enquanto formulava a pergunta. Depois, ficou indicando o pensativo Moacir, antevendo o respaldo definitivo à sua tese.

— Acho que era álcool — sentenciou o barman.
— Rá! — fizeram os amigos.
O André ficou lívido.

— Como assim, álcool?! — berrou, inclinando-se na cátedra desmontável para dar um soco tão forte no tampo da mesa que o Moacir se assustou com o barulho e acabou derrubando os copos no chão. Calhou de um dos ínfimos cacos de vidro voar direto para a batata esquerda do professor contrariado, fazendo-lhe um corte que a raiva pelo empregado tratou de ampliar enormemente. 

— Tá vendo o que você fez? Não fique aí parado, me traga algo para a perna antes que vire uma hemorragia!

Desconcertado, Moacir correu para o interior do bar e voltou segundos depois, um vidrinho de Merthiolate nas mãos, desculpando-se ininterruptamente. Antes de pincelar o ferimento, porém, um dos amigos levantou uma questão crucial:

— Esse Merthiolate aí é pré-Wilker ou pós-Wilker?
— Já vamos saber — cortou o André, apertando os olhos e os dentes. Moacir deu a primeira pincelada.

— Filho da p...!

Não faltava mais nada. 

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