segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Você tem direito a uma ligação



Uma situação que volta e meia aparecia nos filmes era a do sujeito preso durante a madrugada e a quem a polícia dava a oportunidade de fazer uma única ligação. Até hoje sou fascinado por ela. Não existe ocasião hipotética que melhor defina quem está no topo da hierarquia de consideração de cada um do que a prisão repentina às três da manhã e a oportunidade (anunciada pelo delegado com adequado tom solene, de Escolha de Sofia) de realizar um único telefonema. É por isso que, mesmo grogue de sono, sempre tentei encarar as ligações tardias e com número desconhecido que recebi ao longo da vida menos como trotes potenciais (ou enganos potenciais) do que como prováveis demonstrações superlativas de consideração. Uma consideração que se sobrepusera, inclusive, ao fato de eu não ser rico nem formado em Direito, comprovando que o interesse do interlocutor ia muito além da crença em meus recursos diretos para tirá-lo de lá.

Até aqui, infelizmente, foram madrugadas de total decepção, com o meu emocionado "Alô?" sendo invariavelmente respondido com um patético "tem um Fusca cor de gelo..." que eu nem termino de escutar. Mas ainda conservo a esperança, claro, que pelo menos é maior que a dos estudantes de Direito, cuja autoestima sequer pode contar com o reforço de uma situação dessas para medir o nível da sincera afeição alheia.

-- Pronto.

-- Oi, Fernando? É o Mário, tudo bem, cara? Seguinte, eu fui pego no bafômetro por causa do licor de uns bombonzinhos aí, será que não tem como tu dar um pulinho aqui na delegacia e resolver isso pra gente?

 -- Caramba! Quantos bombons tu comeu?

-- Não, não, os bombons ainda não tinham sido feitos, eu tava levando o licor pra fábrica. E aí, você vem? Eles não estão acreditando que sou réu primário, mesmo eu mostrando que não sei ler. Acham que é porque estou bêbado, não acreditam que tive que abandonar a escola na segunda série...

-- Espera um pouco, vou pesquisar aqui na internet pra ver o que pode...

-- Como assim? Tu não é formado em Direito?!

-- Não, pô, as aulas só começam mês que vem. Agora, o que a polícia te disse quando te autuou? Mário? Mário?


Ricos são outra classe que sofre com a impossibilidade de distinguir o afeto interesseiro do genuíno, num caso assim. Ou sofreria, se seu dinheiro não comprasse, inclusive, a solução pra mais esse risível problema menor. Daí o fato de que quanto mais rica é a pessoa, maior é a hesitação com que atende a uma ligação no meio da madrugada. Até porque em geral ela sabe que só pode significar uma de duas coisas: prisão na família ou morte na família. E sempre teme o pior.

-- A-alô?

-- Oi, Clóvis. A tia Cecília... acabou de falecer...

-- Nossa, que susto! Pensei que os homi tinham derrubado a boca do primo Etc...

Perguntar-se para quem ligaríamos se fôssemos presos às 2:47hs num remoto condado do Texas é um exercício de autoconhecimento tão poderoso que é um absurdo que não constasse dos cadernos de perguntas que circulavam pela classe, na sétima série, ou mesmo hoje, dos cadastros das redes sociais. Felizes os que demoram mais de dez segundos para responder a uma questão dessa natureza, porque significa que possuem uma gama maior de opções. Ou infelizes, porque significa que precisam pensar muito para achar um único desgraçado que vá fazer valer a escolha. Se bem que a demora também possa estar relacionada aos fatores numerosos e complexos a serem considerados, e que vão da conduta do escolhido quando sob efeito do sono até sua própria propensão a sacaneá-lo em ocasiões anteriores.

-- Alô?

-- Edu, é o Guilherme, presta atenção, me pegaram bêbado e sem as calças, comendo uma égua aqui da estância do professor Valdemir, você tem que me ajud...

-- Rá, rá, rá, genial, cara, genial.

-- Não, porra, eu tô falando sério, isso não é treinamento...

-- Tá, tá, olhaí, deixei o estoque de risadas no sonho, vou voltar lá pra pegar e amanhã eu rio mais na faculdade, valeu? 

Há imprevistos terríveis.

-- Alô, Estella? É o Cláudio. Desculpa te perturbar a essa hora. É que eu acabei de ser preso roubando um pote de danone no mercado, e como ‘tão dizendo aqui que vou pegar perpétua, tô pensando em me matar hoje mesmo, na cela. Aí quis te ligar e dizer que... eu sempre amei você. O quê? Como assim, “o número chamado não existe”, amor?

Fico feliz em me incluir entre os que não têm a menor dúvida sobre para quem telefonariam após uma prisão repentina a altas horas. Em ter uma pessoa extraordinária que jamais sossegou enquanto eu não estivesse em casa, em paz e com saúde. Que está sempre cuidando do meu bem-estar, às vezes até sem eu saber. Que, mesmo não sendo formada em Direito, saberia exatamente o que dizer para me manter calmo e o que fazer para devolver-me à liberdade. Alguém cujo número nem precisaria estar na agenda do meu celular, porque o sei de cor.

-- Alô?

-- Alô, Batman? Graças a Deus que tu tá em casa, velho, seguinte...

Um comentário:

  1. Cara eu li isso rsrsrsrs :-) gostei e fiquei pensando aqui pra quem eu ligaria? o.0

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