segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Onipotência



“O Universo é uma esfera infinita, cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum. Enfim, que a nossa imaginação se perca nesse pensamento é o maior sinal sensível da onipotência de Deus.”
- Blaise Pascal,
Pensieri

“What if God was one of us?”
Amanda Marshall

Para Letícia


Até onde a memória alcança é especulação o que se tem. Nunca houve consenso sobre a época e as circunstâncias exatas de seu surgimento. (É provável mesmo que seja anterior ou alheio ao tempo, ao nosso conceito de tempo.) Em menino, ouvi falar de um vilarejo da Suécia cujos habitantes não envelheciam. A alta longevidade — convertida em imortalidade pela hiperbólica mente infantil — dos moradores de Överkalix aliou-se a uma série de eventos misteriosos (navios que, partindo da costa sueca, desapareciam no mar báltico; proliferação de espécies dadas por extintas e aparecimento de outras jamais documentadas) para cravar, segundo um grupo de antropólogos noruegueses, o vicinal país europeu como o berço daquele a cuja vontade tudo o mais se submetia. Esses estudiosos apoiavam-se numa suposta relação entre os fenômenos suecos e as quatro ações descritas por RØald Undset no século XVIII para testar as habilidades de um ser hipotético que se descobre onipotente: intervir, criar, destruir, refazer. Outras nações apresentaram registros de acontecimentos análogos, na esperança de trazer para seus livros de história a origem do maior evento conhecido. Enquanto o feto era belo, não faltou quem lhe quisesse assumir a paternidade.
            Quando as manipulações em larga escala se tornaram comuns (e a inevitável transcendência da moralidade, evidente), convencionou-se que rastrear sua origem, física ou geográfica, era um esforço vão e dispendioso. Sentenciados à coexistência com um Deus, cabe resignar-se ou apegar-se a frágeis esperanças, como as que buscarei resumir a seguir.
Antes, porém, uma observação.
                Sempre intrigou-me notar certa gradação na maturidade de suas intervenções. Não é lícito supor que um ser onipotente prescinda de qualquer espécie de evolução? O frágil Deus bíblico, como as temperamentais divindades gregas, não eram imperfeitos — frutos inegáveis da imaginação humana —, não tinham sua liberdade tolhida justamente por carregarem em si o reflexo da instabilidade a que estavam sujeitos seus criadores?
            Houve, contudo, evolução. Ou assim ele nos fez pensar. Da lua que uma noite encimou o Hemisfério Norte iluminada por uma freqüência de cor até então inexistente (que hoje denominam infra-sofia) às incursões simultâneas à mente de todos os homens; da animação de conceitos abstratos à superposição de realidades, passava-se da curiosa euforia infantil à rebeldia adolescente, da estabilidade adulta à necessidade de reinvenção da velhice.
            Limitar-me-ei a analisar um evento representativo de cada fase, porque agradam aos muitos seguidores de Undset tais experimentos reducionistas.

Infância

Também conhecida por Tábula Rasa de Deus. Ignora o inatismo da onipotência. Caracterizou-se principalmente pela invenção do que não existia. Os pintores e escultores, quando desejam representar seres cuja existência é negada pela realidade cognoscível, jamais conseguem atingir a originalidade em sua plenitude, posto que apenas misturem formas de criaturas preexistentes. A transcendência de tal limitação operou-se em vários níveis: animal (novas espécies), perceptivo (ampliação do espectro de cores visíveis a olho nu), químico (elementos estranhos à tabela periódica) etc. Foi acompanhada de perto por um séqüito que buscava dotá-la de significação subjetiva. Prenúncio do apocalipse para cristãos, advento do Messias para judeus, símbolo do descontentamento de Alá com o Ocidente para muçulmanos. A ciência, cujo empirismo só consiste noutra forma de fé, ou crença sem evidências, também tentou adaptar a desordem dos fatos à ordem de suas leis. A física quântica, que então apenas engatinhava, seria bastante apreciada, quiçá pela prestativa anarquia de sua estrutura basilar. Mas me adianto. O primeiro embate entre Deus e a racionalidade operou-se, com farta notoriedade, algum tempo antes. Eis um resumo do caso.
            Um senhor idoso apareceu morto numa travessa deserta de Buenos Aires. Portava, além de um documento de identidade presumivelmente falso (pois alegava que o homem, de nome “Hugo Dornelles”, não passava dos 22 anos de idade), o recorte de um artigo do Clarín com data 43 anos ulterior. Seu conteúdo era confuso. Não seria necessária perícia para constatar que o óbito se dera menos por estrangulamento que pelos dois tiros na altura do peito. As circunstâncias do crime indicavam ausência de premeditação, possível latrocínio. No entanto, apressadas pela curiosidade que os pormenores incomuns da ocorrência suscitaram, as investigações com base nas evidências coletadas (impressões digitais, pele sob as unhas da vítima etc.) apontaram, absurdamente, um único assassino possível: o próprio Hugo Dornelles.
            Por óbvia razão, o suicídio foi prontamente descartado. O caso evidenciou-se em meio à estranheza de outros que se haviam tornado comuns. A ciência forense tratou de repudiar a aura fantástica que o envolvia. Postulou que gêmeos univitelinos (e, portanto, com o mesmo DNA) excêntricos e enfastiados com a velhice podiam ter arquitetado um pacto de suicídio incomum, ao qual uma das partes declinara em cima da hora. Confrontada com os sinais de violência e as impressões digitais — que diferem mesmo entre gêmeos idênticos —, mencionaram uma briga entre os suicidas e moldes de silicone sobre os dedos. Essa débil e algo forçada reformulação do crime perfeito foi muito menos atraente que a espantosa realidade.
            Transcorridos cinco meses, um homem apresentou-se numa delegacia da província de Entre Ríos, confessando-se o autor daquele crime. Sua idade: 22 anos. Seu nome: Hugo Dornelles.
Segundo o relato (em tudo corroborado pelas evidências), Hugo voltava da casa de sua namorada — que acabara de pedir em casamento — numa mormacenta noite de abril, quando foi abordado por um senhor naquela travessa. O estranho — que, pela incoerência do discurso e propensão ao choro repentino, pareceu-lhe embriagado — afirmou conhecer tão intimamente a essência do jovem que não esperava ser perdoado por este, pelo que viera fazer. Disse que o mais devastador dos atrasos era o da maturidade, que só nos chegava em intensidade suficiente para enfrentar determinada fase da vida quando esta fase já havia terminado. Por tal lógica, o idoso esperava que também a morte representasse a conquista tardia de todas as ferramentas que haviam sido negadas ao outro em vida, incluindo um sentido para ela. Só então Hugo percebeu a arma apontada para seu peito. Confuso, apavorado, tentou explicar que o estranho certamente o confundira com outra pessoa, que nunca antes o vira. “Você me viu”, contrapôs o velho, “todas as vezes que se olhou no espelho”. E, indicando a si mesmo, declarou que aquele arremedo era o que a vida faria com o jovem, se ele, o velho, não tivesse voltado para libertá-lo. Para salvá-lo, poupando-o do desgaste lento e doloroso de uma existência que não passaria de decepções duradouras entrecortadas por fugazes períodos de felicidade, como a débil nesga de sol infiltrando-se intermitentemente entre nuvens carregadas, eternas. 
Hugo compreendeu que aquele louco pretendia passar por uma versão ulterior de si mesmo. Seus argumentos seguintes condescendiam com a lógica da fantasia. Invocou a injustiça do ato, alegando que condená-lo por escolhas que ainda não havia tomado seria o mesmo que matar um inocente. Afirmou que precisava provar do sofrimento, para ter certeza de que a opção apresentada era melhor. Por último, quis repudiar o fatalismo, pois o mero surgimento do velho sem dúvida bastaria para alterar as ramificações que o conduziriam àquela idade, tornando sua existência mais completa, menos infeliz. Foi ouvido com a piedosa paciência dos irredutíveis. O desfecho da luta que travaram a seguir era conhecido.
Até as perturbadoras conclusões da polícia técnica, Hugo não depositara o menor crédito nas palavras do velho, que matara em legítima defesa. Histérico, avisou à noiva e fugiu. Depois raciocinou que a ordem dos acontecimentos recentes — pessoas que não envelheciam, monstros mitológicos — podia muito bem conduzir a um futuro em que viagens no tempo fossem possíveis, ou a interpolação de pessoas em épocas diferentes das delas. Sentiu-se deprimido. Havia sido, a um só tempo, assassino e vítima de um crime hediondo, e continuava vivo. Aniquilara o homem que viria a ser, mas cujos átomos de algum modo ainda não tinham se combinado. Alguém que só intentava poupá-lo de uma sucessão de fracassos. A ação por instinto diluiu um pouco sua culpa. Se tencionasse realmente matá-lo, por que o velho não atirara em silêncio, talvez pelas costas? Não podia esperar que o jovem Hugo consentisse com o fim que insanamente lhe apresentava. Por que, então, não retornar a um período anterior, quando Hugo era apenas um bebê e, portanto, não ofereceria resistência? Em semanas de reflexão, entendeu que a idéia consistia em encerrar sua biografia na melhor parte. Como se, segundo o idoso (segundo ele próprio), aquele fosse o último dia feliz de sua vida — flutuando de enlevo ao cruzar a travessa, porque a mulher que amava acabara de aceitar seu pedido de casamento. Corroído pelo remorso, o jovem resolvera se entregar. Indicou o lugar onde enterrara a arma (um modelo que ainda não constava da linha de produção do fabricante) e cedeu amostras de DNA para a comparação com o do corpo exumado. Tratavam-se, sim, da mesma pessoa, a quatro décadas de distância.
Muitos incautos alegaram que Hugo deveria ser condenado unicamente pelo “ineditismo” de se poder sentenciar um suicida por seu crime. Outros, que o direito ao auto-extermínio não prescindia do distanciamento físico e temporal. Outros, ainda, que a condenação deveria ser a mesma imputada a quem comete um homicídio comum, posto que as células do corpo humano se renovem inteiramente a cada sete anos e, portanto, estruturalmente os dois Hugos eram pessoas distintas.
A absolvição fundamentou-se em grande parte na atenuante da legítima defesa. Foi a primeira intersecção entre o poder Supermo e um dos três poderes instituídos pelo homem.

Adolescência

A experimentação deslumbrada deu lugar à anarquia de feições terroristas. Foi nesta fase que as últimas seitas que o veneravam ou se opunham à sua existência desapareceram. Gradativamente, a humanidade se dava conta de que o menos pernicioso era viver a despeito daquela onipresença, aceitá-la como quem aceita uma versão moribunda do sol, que pode continuar permitindo a vida em sua órbita ou explodir repentinamente e eliminá-la.
            A alteração da memória coletiva tornou-se constante. Os livros de história anoiteciam como o registro mais ou menos fiel dos acontecimentos que haviam trazido a civilização ao ponto em que estava e amanheciam como ficções estapafúrdias das quais ninguém se lembrava, e era impossível saber se a alteração se dera nas páginas dos livros ou na memória dos homens. Não havia quem consentisse, sem o menor vestígio de dúvida, sobre haver lutado na Segunda Guerra, não havia quem consentisse sobre ter havido uma Segunda Guerra. Ou o Holocausto. Ou o eclipse da semana anterior.
            Países inteiros desapareciam, e voltavam a aparecer reconfigurados (um estado em cada ponto cardeal do globo, com seus habitantes falando idiomas desconhecidos, ou transformados em estátuas). Vez por outra ressurgiam desertos, ou no fundo do oceano mais remoto... Um decreto inaudito, com duração de cinco anos, estipulou que toda pessoa que falecesse a partir daquela data teria as menções gráficas a ela apagadas na terra. Não se soube a finalidade desse experimento — como o de inúmeros outros —, que significou meia década sem obituários, laudos post-mortem e inscrições sepulcrais (o “qüinqüênio das lápides lisas”, como definiu um escritor). Lembro-me de pegar o metrô certa manhã. Uma mulher sentou-se no banco à minha frente. Ao prender os cabelos num coque, deixou à mostra a nuca muito branca, onde pude ler os seguintes dizeres, tatuados em belíssima fonte recurva, sombreada: “Augusto e Mateus, meus dois amores”. Passei um terço da viagem encantado com aquela demonstração pública de afeto, e presenciei (horrorizado, estupefato) o instante preciso em que duas palavras sumiram, deixando a sentença terrivelmente incompleta:
        e       , meus dois amores”
 Compreendi, devastado, triste, que em algum lugar acima de nós o marido e o filho daquela desconhecida haviam acabado de morrer, e que eu não tinha o direito de ter consciência desse fato antes dela, uma vez que, para mim, ele pouco ou nada significava. Jamais odiei tanto a nossa versão do sol moribundo.
*
Muitos enxergaram a criação dos Pontos Cegos como uma resposta ou desafio às crescentes manifestações de crença num Deus além dele — num ser cuja onipotência contivesse e anulasse a sua, e cujas ações se guiassem unilateralmente pelo bem. Esses lugares estratégicos, de tamanho variável, identificáveis como regiões de sombra sem obstrução da luz do sol, durante o dia, e iluminadas sem qualquer fonte visível, à noite, eram, nas palavras do comunicado transmitido em sonhos e simultaneamente a toda humanidade, “o limite da jurisdição de seu Deus. Ides ali, pois, para fugirdes à onisciência que tanto temestes. Nada que fizerdes ou pensardes em seu interior poderá ser visto, intuído ou julgado por Deus, o Demônio ou quaisquer entidades idealizadas entre os dois extremos. Ali, sois totalmente imunes à vigilância. Quando sairdes, tudo o que houveres feito lá dentro ter-se-á apagado de tua memória e da de teus semelhantes, para que Deus não possa perscrutá-las e conhecer os segredos de teu coração.”
Ao absurdo da proposição adveio, naturalmente, o esvaziamento das cidades, a migração massiva para os Pontos Cegos. Os poucos que declinaram acreditavam-se únicos merecedores do Paraíso, pois o mero dirigir-se a um local supostamente oculto aos olhos de Deus pressupunha intenção de desobedecê-Lo. Calavam-se, contudo, quanto aos que já residiam naquelas terras antes da ocultação, ou que tencionavam, na verdade, escapar à onisciência do próprio idealizador do bloqueio. De minha parte, senti profunda compaixão pelas pessoas crentes num Deus justo que haviam sido transportadas contra a vontade aos pontos cegos. Imaginei-as diante do Criador, no fim de tudo, sem poder ser condenadas ou absolvidas, pois uma parte da vida jazia fora do alcance tanto de réus quanto do Juiz, e esta parte poderia conter imperdoável desobediência. A dúvida eterna impediria a aplicação da única justiça tida por infalível.
Estive num Ponto Cego ao norte de Interlaken. Decerto não me orgulharia de meus atos em seu interior, se deles tivesse a mais remota lembrança. Mas gosto de pensar que tais espaços eram menos Gomorras invulneráveis que refúgios para a reflexão livre de policiamento mental, embora nunca se tenha dito que todas as onisciências, sem exceção, fossem barradas dentro de seus limites.
Muitos entraram, menos de um terço saiu, e várias décadas depois não se podia encontrar uma única região de sombra sem obstrução do sol ou iluminada sem fonte observável.

Amadurecimento/Velhice

Não é possível se acostumar à convivência com um Deus, a menos que ele assim deseje. Está-se sempre na iminência de ter a mente vasculhada do primeiro ao último pensamento. De ser inundado pela ignominiosa compreensão de tudo. De agir contra a vontade, ou de acordo com uma vontade que você jamais saberá se germinou em sua alma ou foi nela implantada. A onipotência alheia torna impraticáveis os medíocres poderes humanos, seus direitos e deveres. Todas as leis subentendem uma exceção que as anula — “salvo se obedecendo a ordem Superior”. Assiste-se a notícias sobre um criminoso que eviscerou duzentas crianças e já não se tende ao julgamento imediato. Porque o assassino pode ter sido obrigado àquilo, ainda que diga o contrário — pois pode ter sido levado a dizer o contrário, a julgar ter agido sem influência. Porque o crime está longe de ser irreversível, como já o comprovaram as infindáveis ressurreições, inserções de uma época em outra, supressões de fatos e suas memórias. Nenhum ato potencial está isento de influência. Você teme que o ser humano por quem acaba de se apaixonar — e com o qual descobriu inúmeras afinidades — não passe da personificação de suas idealizações românticas, tornado real por uma ordem secreta, programado para corresponder às suas expectativas (para dar-lhe a ilusão de completude, de felicidade) e que só existe nos momentos em que você o vê. O livre-arbítrio sucumbe à impossibilidade de saber se se agiu por livre-arbítrio. Nada resiste incólume.
Dada a fragilização da humanidade, é compreensível o apego desmedido a patéticas esperanças retóricas. Para justificar a falibilidade e inevitável ruína daquele poder, falou-se muito no paradoxo da onipotência. Em Cowan, em Bergson. Nas coisas além das possibilidades de Deus. Exumaram a feitura de uma rocha tão pesada que nem Ele conseguiria mover. Inferiram da criação dos Pontos Cegos que somente uma onipotência era capaz de restringir o campo de ação da outra, mas que, coexistindo ambas, nenhuma seria ilimitada em seu poder. Concluíram, pois, que, das coisas que aquele Deus amoral era impotente, nenhuma devia humilhá-lo mais que a impossibilidade de criar outro Deus idêntico ou cujo poder o superasse. Uma manifestação a nível mundial foi organizada. Usavam máscaras de Feuerbach, refutavam de antemão falácias lingüísticas, alegações de que a lógica dos homens era limitada, incapaz de abarcar a complexidade do pensamento divino.  Sob a desoladora bandeia do desafio às fronteiras da vontade Superior, pretendiam esconder o grito de que era fácil reinar sem uma oposição à altura. Desejavam ardentemente a criação de uma nêmesis.
            A resposta não tardou, segundo nossa concepção do tempo. Pediram-lhe outro Deus, ele deu-lhes bilhões.

            Faz sentido que, durante o sono, o descanso da mente, a parte de nosso cérebro que mais trabalhe na vigília esteja desligada. O córtex pré-frontal está diretamente relacionado ao pensamento racional. Devido à sua quase total inatividade quando dormimos, é extremamente difícil pensar racionalmente durante um sonho, estranhar a abolição das leis físicas ou a mudança constante de rostos e de cenários. Por isso é tão trabalhoso desconfiar que estamos sonhando enquanto o sonho dura.
            Dias após a manifestação mundial, notou-se uma mudança comum nos relatos oníricos durante as refeições matinais. Um contingente expressivo da humanidade alegava ter conseguido alcançar, com relativa facilidade, a rara experiência do sonho lúcido. Estudos posteriores comprovariam a alteração no funcionamento do cérebro humano: a atividade das áreas desligadas era, agora, retomada tão logo começava o estágio R.E.M. do sono (onde se dá a maioria dos sonhos) sem que a pessoa despertasse. Entender que se estava vivendo uma experiência onírica não era, então, mais dificultoso que intuir o quadrado do número dois. Uma casa flutuante, por exemplo, fornecia uma pista (porque, desde o advento do onipotente, tal disparate era perfeitamente verossímil na vida real), e a tentativa bem-sucedida de trazê-la ao solo com uma simples ordem mental comprovava a irrealidade daquele mundo. Que, a partir de então, o sonhador podia manipular como bem lhe aprouvesse, à semelhança exata de seu correspondente no mundo real.
            A noite passou a ser, de longe, o trecho mais esperado das vinte e quatro horas que compunham o dia. A indústria de sedativos lucrou como nunca, mas a produtividade mundial decaiu. Convencionou-se acrescer duas horas do tempo diário de trabalho e duas do de lazer às oito que integravam o intervalo dedicado ao sono, ficando o dia, portanto, dividido em 12 horas de sono e outras tantas de vigília. Era inevitável que essa repartição exata estreitasse a dúvida metafísica sobre o que tornava o sonho menos real que a realidade, além de avalizar a inversão dos termos e seus significados.
            Ali, cada sonhador era o Deus de seu próprio universo, cada ser humano conhecia na prática o que era ser onipotente. Construíam cidades, fundavam países, povoavam continentes, exploravam mares, queimavam florestas, inundavam desertos, criavam amantes, amigos, irmãos, reviam pessoas já mortas, implodiam estrelas, escapavam ao sumidouro resultante dessa implosão, nasciam, viviam, morriam, acordavam. E era como se a realidade não passasse então de uma pausa da qual o corpo físico necessitava entre dois sonhos.
            Duas conjecturas nascidas nessa época ainda me encantam. A primeira relaciona-se à antiga dificuldade em descobrir a natureza irreal do sonho, enquanto este durasse. Sabe-se que isto só acontecia porque nossa maior ferramenta investigativa se encontrava, então, inacessível: a racionalidade. Uma vez alcançada, assumiu-se o controle total. Por analogia, não haveria também uma parte inacessível da mente desperta que concederia, a quem pudesse ativá-la, poder ilimitado? O ser que alterara o funcionamento de nosso cérebro não teria obtido suas faculdades supremas assim?
            Também se dizia que aquele que morresse durante um sonho lúcido reinaria supremo em seu universo particular para sempre. E se a realidade fosse isso, as formas oníricas eternizadas de alguém que morreu enquanto sonhava — e sabia que sonhava? E se não passarmos de simulacros, de idéias na mente da onipotência que nos projeta e, de algum modo, tiraniza?
           
Morte?

Dos que tiveram a vida prolongada por algum capricho de Deus, poucos são os que, como eu, não duvidam que ele tenha existido. Oitocentos anos de ausência são capazes de suprimir até a maior evidência de suas intervenções da memória das gerações — que, mesmo quando as admitem, concedem-lhe origens distintas. Novos postulados ópticos explicam a cor da lua. O neodarwinismo se encarrega das espécies que
encantaram biólogos de outrora. Fragmentos de asteróides justificam os metais alheios à mineralogia conhecida. Nossa longevidade deve ser-lhes mais complicada, mas não me interessei em saber como a explicam — se recorrendo à miscigenação de Överkalix ou a ligações com a linhagem de Matusalém. Ceder-nos imortalidade antes de retirar-se soa como uma promessa de retorno, porque há a necessidade de testemunhas de sua primeira passagem por este universo, do qual nunca nutri esperanças de que ele jamais se enfadasse. Ou talvez — e penso muito nisso — seja uma forma de assegurar que, ao cabo da eternidade, nos irmanemos na onipotência, pois não há hipótese que não se converta em fato quando se dispõe de todos os instantes do tempo.

            Que eu me lembre, Hugo Dornelles faleceu vítima de uma septicemia, 15 anos depois de entregar-se por ter matado a si mesmo. Descontada uma possível intervenção Superior, isto parece provar a falácia do fatalismo, pois alterar um fato pretérito cria um segundo futuro, sem que o primeiro perca lugar no espaço. Há, portanto, várias realidades potenciais, como a vibração das cordas de um instrumento prestes a ser tocado. Numa delas sou imortal, noutra nasci morto. Creio que Ele seja o denominador comum a todas, o oceano insondável no qual todos os rios se originam e para o qual inexoravelmente voltarão, no fim.

Conquanto os séculos não tenham embotado na mente os temores da convivência com esse Deus além da moral, meu espírito anseia por tal reencontro. 

Post-scriptum

            Na era dos sonhos lúcidos, muitos se cansavam do poder absoluto. A dilatação do tempo onírico tornava o expediente de administrar o próprio universo demasiado enfadonho — e ordenar “que o enfado se acabe” não menos entediante. Influenciados pelo experimento de Rawls, alguns sonhadores adotavam, então, uma estratégia sub-rogatória: construíam minuciosamente um mundo no qual se inseriam, programados para esquecer tudo, abdicando inclusive da própria onipotência — que seria recuperada num dado instante ou sob determinada condição. Ao abrirem os olhos, não faziam idéia de que ainda se encontravam no universo que eles mesmos haviam criado, e permaneciam ignorantes sobre sua capacidade de mudar tudo (muitas vezes submetendo-se a humilhações infligidas por seus próprios simulacros), até deparar com o “sinal” combinado — e finalmente recuperá-la. A essa breve pausa do poder chamavam “realidade”. 
           
            Pensando nisso, fundei uma seita (que não prosperou) que postulava um destino similar à nossa desaparecida divindade. A supressão da cor verde do espectro visível ao olho humano foi um de seus últimos atos cognoscíveis (embora os estudiosos de hoje afirmem que nunca fomos capazes de enxergá-la, que essa freqüência de cor nem existe, que as folhas das árvores sempre foram amareladas). Viu-se em tal atitude uma correspondência com um de seus primeiros atos cognoscíveis, a apresentação do infra-sofia como a nova cor da lua. Uma simples troca: dava-nos uma tonalidade com a mão direita e tirava-nos outra com a esquerda. Eu, porém, imaginei que aquilo devia ser o Sinal. Inconsciente, Deus agora se distraía como um de nós, mas recuperaria sua divindade em breve ou muito tempo. Um dia ele daria com a cor verde eivando alguma superfície remota e se lembraria de tudo. De sua condição não-humana. Da própria onipotência.      
            Por décadas refleti sobre que superfície seria essa, e como torná-la visível para o maior número de pessoas que pudesse. O aparente fracasso não me demoveu da empreitada.
            Pois se há uma coisa que nem mais mil anos extinguirão de minha memória, é que o verde era a cor da esperança.

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