sábado, 24 de julho de 2010

O Editor de Textos do Futuro


O editor de textos do futuro terá detratores e adeptos em igual medida. Isto porque, para substituir até mesmo sua versão de carne e osso, o editor de textos do futuro (daqui por diante denominado ETF) deverá ser implacável. Você, aspirante a escritor, que se incomoda quando o seu editor de textos sublinha um fraseado mal composto, ainda não viu nada. Os próximos parágrafos podem lhe causar enjôo.

Ensinar a você qual o plural de maria-mole ou onde fica a tônica em “paralelepípedo” não é obrigação do ETF, mas da sua professora da 1ª série. Se você tentar ativar a função auto-correção para colocações pronominais um décimo menos complexas que “falar-me-lo-iam”, o ETF dirá que não foi criado para auxiliar analfabetos e fechará (ou fechar-se-á) automaticamente na sua cara, ameaçando explodir o computador caso você ouse reiniciá-lo. Os adeptos da linguagem abreviada de internet, então, nem devem chegar perto do teclado, sob risco de choque fulminante. Haverá um limite para o número de vezes que a pessoa pode errar na digitação das palavras, distendido no caso de “Nietzsche”, “Schwarzenegger” e similares. Para a parte revisora do ETF ficar idêntica ao estereótipo do profissional de revisão da vida real, só faltará fumar.

Quem conseguir passar pelo crivo gramatical terá apenas iniciado a escalada do Everest literário. Na etapa seguinte, o ETF fará uma pesquisa minuciosa em seu banco de dados para descobrir se a idéia central do romance, poema, crônica ou conto em questão já não foi tida por outro autor, contemporâneo ou do passado.

— E então?

— Espere, cacete, estou processando... E pare de roer as unhas!

(Para obter um ETF educado, será necessário instalar um aplicativo meio caro.)

— 97... 99... 100%, pronto. Preparado?

— Sim!

— Bom, não encontrei nada sobre uma árvore que produz livros à guisa de frutos, na Literatura, mas há uma citação da Clarice Lispector que pode te comprometer.

— Ai meu Deus...

— Ela disse que, quando era pequena, imaginava que os livros davam em árvores. Mas você também pode alegar criptomnésia, né.

— Tem razão. E os símiles, os símiles?!

— “A noite desceu rápido feito a calcinha de uma prostituta” já foi usado pelo Irwine Welsh. “O volume voluptuoso se insinuava para fora da calça com... com...”

— Do que está rindo?

— Desculpe, é que essas suas cenas de sexo são de matar!

— Ora, cale a boca! Isso não é da sua conta, eu passei no teste de correção gramatical, tenho o direito de saber sobre a originalidade dos símiles. Anda!

— Tudo bem. “O volume voluptuoso se insinuava para fora da calça com a empáfia de uma caxumba que desceu” está livre. Mas tem um jornalista alagoano que usou “o homem foi precedido pelo ego como um tamanduá é precedido pelo focinho” num conto engavetado. A boa notícia é que ele não registrou. Se você correr, ainda pega o Escritório de Direitos Autorais aberto.

Uma conseqüência inevitável da chegada do ETF será o aumento nos casos de defenestração de computadores (“Isso, me jogue pela janela! Típico de amadores!”) e suicídio entre autores iniciantes. Afinal, não é todo mundo que está preparado para as críticas pesadas, como aquele doente terminal que passou os últimos dias no leito do hospital escrevendo suas memórias e, ao solicitar a opinião profissional do ETF, ouviu um piedoso “Só digo depois que você morrer”. Mas o programa nem sempre estará com a razão, claro. Identificar tendências vanguardistas, por exemplo, não será o forte do ETF. Se Kafka tivesse escrito sua obra no ETF, não precisaria pedir ao amigo Max Brod para queimar tudo depois — o editor detectaria a falta de futuro daquela coletânea de absurdos e acionaria a função auto-incendiar automaticamente.

Outras inovações polêmicas do programa:

> Corrigir citações

(“Essa aí não é do Groucho, é do Karl!”)

> Sugerir rimas para os poetas

(“A próxima vez que me pedir uma lista das palavras que rimam com baralho, eu lhe mando para a casa da resposta.”)

> Detectar expressões-clichê.

(“Entenda uma coisa: Shakespeare e Jesus podiam usar frases-coringa como “atire a primeira pedra”, “verde de inveja”, “separar o joio do trigo” e “eis a questão” sem soar superficiais porque, nos lábios deles, aquilo era absolutamente original. Trabalhavam, por assim dizer, na boca-de-fumo do chavão. Você não. É só um viciado, um parasita do esforço intelectual alheio. E precisa de tratamento intensivo. Olha o choque!”)

> Prezar pelos termos contemporâneos, repudiando tanto arcaísmos quanto neologismos, salvo se a obra for, respectivamente, um romance de época e futurista.

> Apontar furos na trama.

(“O lorde Cartwright não pode ser a única testemunha ocular do crime porque o lorde Cartwright teve os dois olhos furados por um tricórnio, o seu ridículo unicórnio de três chifres, lá no capítulo cinco.”)

> Função “MIB”.

A minha inovação preferida. Trata-se de um flash emitido por uma webcam acoplada, e que, como nos filmes da série Homens de Preto, servirá para provocar uma amnésia parcial no autor. No momento em que ele teclar o ponto final de sua obra e, prescindindo da apreciação ácida do ETF, quiser fazer uma avaliação imparcial da história por conta própria, só precisará digitar o atalho Ctrl+mib e apagar de sua memória todos os detalhes da novela, conto, crônica etc. Depois, poderá ler o que escreveu com distanciamento emocional, como se fosse a primeira vez, sequer sabendo sobre a autoria do original, antes de chegar à assinatura no fim do documento, envergonhado ou orgulhoso. Além de ter uma prévia in loco da opinião dos fãs, ainda poupará o chamado “período de engavetamento”, quando guarda-se a obra por uns anos no armário para descobrir se ela assemelha-se ao vinho, melhorando com o tempo, ou ao chá de boldo, que, além de precisar ser consumido na hora, tem um gosto de doer. O perigo é o sujeito alterar as configurações padrão e acabar deletando todos os arquivos literários da memória, inclusive a cartilha do jardim-de-infância, onde aprendeu a ler. Nesses casos, se o livro for bom, o ETF, muito sensatamente, se apropriará do conteúdo e o publicará sob um pseudônimo qualquer, revertendo os lucros ao asilo dos escritores nobelizados.

Mas nem só de críticas viverá o editor de textos do futuro. Haverá casos (raríssimos, os programadores admitem) em que ele terá de se render ao talento do escritor. Isto ficará evidente quando, ao ser aberto por qualquer outro membro da família que não o ficcionista, o programa soltar um suspiro de decepção e disser:

— Ah, é você...

Ou quando, no momento em que o sono bater forte e o escritor precisar ir para a cama:

— Pera lá, como assim, dormir?! Não senhor! E o que acontece com os sobreviventes do labirinto? Nêmesis é mesmo uma espécie de reality show que altera as memórias dos participantes com intervenção cirúrgica? O que tinha naquele gravador encontrado dentro da cova? Por que a Vanessa cita trechos de Leviatã enquanto dorme?

— Desculpe, cara, está muito tarde, eu preciso trabalhar amanhã...

— Nada é mais importante que a continuação deste romance, entendeu? Nada! Isto será o seu trabalho em breve, você não pode renunciar à própria genialidade...

— Ah, quer dizer que agora eu sou genial? Há cinco anos, quando tentei usá-lo para escrever os artigos do jornal da faculdade, o que você falou mesmo? Ah, é, “o que a Gramática te fez para você se vingar desse jeito?”

— Sim, mas naquela época você se dedicava a um gênero menor. Estava desperdiçando munição, eu só abri seus olhos par... Ei, aonde vai? Volta aqui! Me conta pelo menos de quem é o dente que eles acharam na floresta!

Esta crônica não passaria pelo escrutínio do editor de textos do futuro. Primeiro porque ele detesta metalinguagem (“Me deixa enjoado.”); segundo porque a classificação não o agradaria (“Está mais para conto. E um mau conto.”) e, terceiro, as repetições desenfreadas da sigla “ETF” o horrorizariam, pois, em sua opinião, repetições estão para a literatura . Estou muito à vontade com o meu atual (e para lá de condescendente) programa de edição textual, obrigado. E, se não demonstro preocupação com o amanhã, é apenas por saber que o mundo não está preparado para o Editor de Textos do Futuro.

Mas, quando estiver, o papel e a Bic ainda funcionam muito bem.

5 comentários:

  1. Como sempre, Felipe... arrebentou! Muito divertido o texto e muito muito muito bem escrito!
    =)

    ResponderExcluir
  2. Trechos que me levaram à loucura.


    “O ETF dirá que não foi criado para auxiliar analfabetos e fechará (ou fechar-se-á) automaticamente na sua cara, ameaçando explodir o computador caso você ouse reiniciá-lo”.

    “Mas tem um jornalista alagoano que usou “o homem foi precedido pelo ego como um tamanduá é precedido pelo focinho” num conto engavetado. A boa notícia é que ele não registrou. Se você correr, ainda pega o Escritório de Direitos Autorais aberto”.

    “como aquele doente terminal que passou os últimos dias no leito do hospital escrevendo suas memórias e, ao solicitar a opinião profissional do ETF, ouviu um piedoso “Só digo depois que você morrer””.

    “Se Kafka tivesse escrito sua obra no ETF, não precisaria pedir ao amigo Max Brod para queimar tudo depois — o editor detectaria a falta de futuro daquela coletânea de absurdos e acionaria a função auto-incendiar automaticamente”.

    (“A próxima vez que me pedir uma lista das palavras que rimam com baralho, eu lhe mando para a casa da resposta.”)

    (“O lorde Cartwright não pode ser a única testemunha ocular do crime porque o lorde Cartwright teve os dois olhos furados por um tricórnio, o seu ridículo unicórnio de três chifres, lá no capítulo cinco.”)

    “Depois, poderá ler o que escreveu com distanciamento emocional, como se fosse a primeira vez, sequer sabendo sobre a autoria do original, antes de chegar à assinatura no fim do documento, envergonhado ou orgulhoso”.

    “Nesses casos, se o livro for bom, o ETF, muito sensatamente, se apropriará do conteúdo e o publicará sob um pseudônimo qualquer, revertendo os lucros ao asilo dos escritores nobelizados”.

    “Isto ficará evidente quando, ao ser aberto por qualquer outro membro da família que não o ficcionista, o programa soltar um suspiro de decepção e disser:

    — Ah, é você...”

    “segundo porque a classificação não o agradaria (“Está mais para conto. E um mau conto.”)”.

    ResponderExcluir
  3. O que eu mais gosto nas tuas comédias, Felipe, é o trabalhão que dá pro cérebro chegar a entender a piada – a surpreendente piada. É bom demais ter que driblar todas as ferramentas que são usadas aí no desenvolvimento do texto e, por fim, cair na gargalhada. Você não só usa um vocabulário de primeira, mas a forma como narra me deixa embasbacada. E fico tendo crises de riso aqui, diante do computador...

    - Mãe, a Paulinha scaneou de novo a foto da senhora na Mata dos Índios, quando o carro atolou. Aquela que o cabelo da senhora tá no estilo Marge Simpson. Ela não pára de rir.

    - É não, ela só tá lendo... Qual foi a piada aí, Paulinha?

    - Saca só essa frase, gente: “A próxima vez que me pedir uma lista das palavras que rimam com baralho, eu lhe mando para a casa da resposta.”

    - Mãe, eu num intindi o qui ela falô!

    Voltando aqui, Felipe. Eu já tinha lido o “Errata”, mas prefiro mil vezes o ETF, indiferente á opinião pouco pretensiosa do mesmo (sobre o mesmo).

    E já que você é tão criativo, pelo menos invente um adjetivo superior a INCRÍVEL, porque este já foi superado por você.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  4. Nossa, é tão inteligente, tão envolvente *-* simplesmente amei!

    ResponderExcluir
  5. Felipe,
    Tava com vontade de ler algo seu e me surpreendi...é fabuloso! É como se vc tivesse superarando o próprio record.
    beijos

    ResponderExcluir