terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Suicídio



A decisão nunca é fácil, ela sabia disso. Não via em seu ato qualquer espécie de distinção narcisista, nem nutria esperanças de vigiar, do outro lado, quem ficasse para sofrer mais alguns anos de abuso — porque ser sobrevivente nesta selva é exatamente isso: acumular experiências de assédio moral para reclamar em algum RH vindouro. Não era o “quero partir para ver quem chora” de Huck Finn. Pendia mais para o “estou cansada” da Clarice.

Cansada.

Palavrinha ampla. Encapsulava tudo quanto vinha passando nos últimos anos e ainda sobrava espaço para o que restara do ego, essa criança idiota que teima em absorver apenas o que lhe fere. É sabido que um corte provocado por uma mísera crítica na epiderme do ego requer no mínimo dezessete elogios para ser totalmente suturado, e nunca se está livre da cicatriz. “A porção mais vulnerável do ser humano”, é como seu avô o definia, até ser castrado por uma esposa desconfiada de traição e restringir sua máxima apenas ao gênero feminino.

Não era hora de recordações cômicas, censurou a si mesma. Estava prestes a cometer o derradeiro ato, seu dedo indicador suava intuindo o espasmo que o faria pôr fim àquela agonia. Traindo, porém, a promessa de não olhar em volta, sua mente a conduzia, gentil, aos amigos que fizera. Ao namorado que conhecera. Às doces promessas. Aos elogios que recebera por seus textos, um dos quais impedira que uma garota no Rio Grande do Sul se suicidasse. (A emoção fora tamanha que, na época, ela nem se importou com o fato de ter sido um “efeito colateral” literário, pois a intenção lírica do conto era ser depressivo.)

No entanto, a miscelânea de afagos nunca vem sozinha, porque logo aparece sua irmã siamesa, a coletânea de cascudos. Terríveis memórias. Os inimigos. Traição. Debates que perdera. Críticas pesadas. Recusa de editores. Humilhações, você nunca chegará aos pés dele... Triste.

O que Camus acharia disto? Abriria um parêntesis em sua célebre declaração, como o avô?

Devaneios sem importância.


Tudo estava invertido, agora. Gostaria que alguém fizesse por ela o que ela fizera pela amiga gaúcha?

Não. Decididamente, não valia a pena.

Aproveitando enquanto a onda de pessimismo não era sucedida por outra de irracional esperança, encheu-se de coragem e clicou em “Excluir minha conta do Orkut”.

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