sábado, 23 de janeiro de 2010

Humor Branco

Passados sete anos, encontraram-se novamente dentro do coletivo. Depois das quase-gafes saudosistas de praxe (“Tem alguma coisa diferente em você.” Comentou ele, a certa altura, olhando-a de viés. “Digo, além do bigode... que sumiu, é claro.”), começaram as grandes revelações.

— Sabe que eu era apaixonada por você na sexta série?

— Não brinca!

— Juro! Rabiscava seu nome na contracapa do meu caderno, ficava planejando a decoração da igreja no dia do nosso casamento... Vidrada, sabe?

— Caramba... Eu sempre achei estranho que seu caderno fosse o único com cadeado da sala.

— Bem, eu sabia que alguns meninos tinham mania mexer nas coisas dos outros na hora do recreio, achei melhor não arriscar. Também escrevia seu nome nas árvores nos fundos do ginásio.

— Ah, então era você? Sabia que me apelidaram de “maníaco da mangueira”, por causa daquilo?

— Sério?!

— Sim. De qualquer jeito, foi muito bem-feito para as árvores.

Os dois riram. Ela:

— Desculpe.

— Não tem problema. Mas, puxa...

— O quê?

— Sei lá, pô. Você nem podia sofrer de ciúmes. Nenhuma menina me dava moral...

— Eu sei. Diziam que você era “muito bobinho” — ela acrescentou as aspas manualmente.

— Eu teria preferido um eufemismo. Ingênuo, talvez. Mas então, por que você ficou interessada logo em mim?

— Ah, sei lá... Alguma coisa nessa “ingenuidade” — dessa vez as aspas foram imaginação do autor — desprezada pelas outras meninas me encantava. Eu achava fofo o jeito como você dizia as coisas, sem se preocupar que estivesse sutilmente magoando alguém ou a si próprio. Conversar com você era um pouco como ouvir uma piada sobre um infanticídio: a gente não sabia se deveria ou não rir daquilo.

— Anh... Foi um elogio?

— Só se você não conhecer o significado de infanticídio. Brincadeira, basicamente, eu disse que gostava de você pelo seu humor involuntário e pela sua maneira de não se acostumar com o mundo, de sempre enxergá-lo pelos olhos de um forasteiro.

— Humor branco.

— Hein?

— Se humor negro é o humor intencional, humor branco é o oposto, involuntário, não?

— Viu, é disso que estou falando. Você tem cada uma...

— Mas você bem que gostava, né? Diz aí, por que nunca me contou nada? O medo de levar um fora era assim tão grande?

Ela ficou pensativa. Ele estimulou.

— Ah, que é que há, somos adultos, podemos falar de nossos motivos adolescentes com distanciamento emocional.

— A verdade é que eu não lembro. Devo ter ensaiado milhares de vezes na frente do espelho como me declararia para você, mas acabei desistindo por algum motivo... Não foi medo, eu era uma garota corajosa até demais, você sabe.

— Isso era. Escrever trinta linhas de “Creck! Ploft! e Cabum!” numa redação da professora Nety sobre onomatopéias é realmente muito corajoso.

— Não é? Pelo menos estava dentro do tema... Mas, cara, eu realmente não sei por que não te falei a verdade. Você pisou na bola comigo alguma vez?

— E como eu vou saber? Era insensível, lembra?

Ela riu, dando-se por vencida. Mudaram de assunto. O trabalho, a faculdade, etc. Apesar de ter começado o terceiro semestre de Engenharia Sanitária na UFMT, ele contou que ainda sofria bastante perseguição por parte dos colegas e veteranos do curso.

— Por quê? Você por acaso é virgem? — questionou ela, brincando.

— Pior que não! Sou capricórnio. Aliás, é a segunda pessoa que me pergunta isso, a astrologia interfere nesses mecanismos de subordinação acadêmica?

Ela esperou que a afirmativa fosse seguida de uma risada. Em vão. Então, embora estivesse a oito pontos de seu destino, levantou-se e puxou a cordinha. Precisava ir, sabe como é. De qualquer forma, fora bom revê-lo. Manteria contato. “Se cuida.”



Sua primeira atitude ao descer do ônibus foi excluir o número dele do celular. Acabara de lembrar por que interrompera os ensaios na frente do espelho. Pelo menos a quebra do encanto viera antes de firmar qualquer compromisso.

Porque até consentia que ele fosse um rapaz ingênuo.

Mas assim já era demais.


2 comentários:

  1. Vá entender as pessoas! Muito bom seu conto, Holloway, mostra como existem pequenas contradições insuperáveis nos seres humanos. Muito bom saber que você disponibiliza este espaço. Passarei aqui mais vezes.
    Abraços.

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  2. Valeu, Thomaz!

    Lisonjeado pelo comentário e leitura, cara.

    Abraços.

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