quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Abstração

Idéia para um quadro impressionista, embora muitos não se impressionem: uma velhinha prepara a salada embaixo de chuva.

O observador da vernissage há de se perguntar: por que uma idosa sairia para a chuva para fazer a salada? Se a tempestade começou durante o corte das cebolas, ela deveria ter voltado para casa. Caso contrário pegaria um resfriado e não poderia figurar no quadro seguinte com o nariz escorrendo. Além do que, some-se a tristeza em seu semblante à idade avançada e está eliminada a hipótese de algum fetiche sexual envolvendo trovões e vegetais.

Irritado com o olhar cheio de empáfia do curador (que deve ter entendido a obra antes mesmo de ela ter sido pintada), o visitante obriga-se a encontrar lógica naquilo. O título do quadro não ajuda muito: “O líquido oculto”, argh! Vinagre, talvez? Não há garrafa na mesa, e vinagrete sem vinagre é um pouco como feijoada sem aquelas partes nada nobres do porco.

Um momento, ele está sendo precipitado. Melhor ir com calma. Dois conceitos de cada vez, pronto. Abstrações primeiro. Velhice e tristeza. Segundo alguns, concepções equivalentes. Ou quase, já que, em muitos casos, uma coisa pressupõe a outra, mas o contrário não é necessariamente verdade. “Velho, logo triste” soaria até verdadeiro na boca de um Descartes (a iminência do fim, moleques que não cedem mais o assento no ônibus, filas do INSS, essas coisas minam a alegria de viver do cidadão), mas não é preciso ser velho para estar triste. Neste caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Inferir um sinal de igual entre os conceitos, então, nem pensar. Ele, inferir um sinal de igual? Aqui, ó, curador.

Em seguida vêm a salada e a chuva, as partes concretas, por assim dizer, da obra. No momento a senhora corta cebolas, certo? Confere. Qual a relação, neste caso? As cebolas dependem da chuva para crescer, mas enveredar por esse caminho é forçar a barra, como quando o analista interpreta o sonho erótico de uma paciente recém-abstinente do cigarro como “uma clara alusão ao charuto”. Chuva e cebola, cebola e chuva. Havia semelhança? Se fosse melancia e chuva, não seria difícil encontrar o denominador comum. Numa metrópole, a chuva é 70% água e 30% sujeira, assim como as melancias de certas feiras-livres, descontando-se a fatia do imposto. Mas a cebola não se encaixa muito bem na metáfora aquosa. Úmidos, mesmo, ficam os nossos olhos, quando as cort...

Espere aí... Era isso! Choramos quando cortamos cebolas (ou pelo menos as mulheres choravam, ele só sentia uma ardência). Do mesmo jeito, na chuva não dá para saber quem está em prantos. Então se alguém (uma idosa, por exemplo) estivesse triste (devido a uma vida sofrida, por exemplo) e quisesse esconder muito bem esse fato de parentes insensíveis, que melhor coisa a fazer senão cortar cebolas embaixo de chuva? Teria um álibi duplo para suas lágrimas! Passaria por louca, ok, mas e daí? Antes uma louca feliz que uma vovó triste — “você tem de dar o exemplo a seus netos!”. E isso explicava o título do quadro: o líquido oculto sob camadas de gotas artificiais eram elas, as lágrimas genuínas, de tristeza! Ao contrário das outras, não provinham de agentes externos, mas irrompiam do interior, de alguma coisa que se partira na alma daquela senhora. Lírico, até.

O curador faz um gesto de assentimento orgulhoso na direção dele, como um maître cujo cliente pronunciou corretamente o nome do vinho. Ele sabe que o outro matou a charada, e já o convida com um meneio a aproximar-se da obra seguinte.

Mas, temendo decepcioná-lo na próxima interpretação pictórica, o visitante vale-se da mais educada das recusas: sai correndo.


Ele, hein?

Um comentário:

  1. Nunca vi uma interpretação tão criativa e engraçada acerca da obra de arte. Meu caro, você é que nem as cebolas: cheio de camadas.

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