sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Vozes

Os irmãos Victor e Eduardo tinham as vozes tão parecidas que era comum que as pessoas os confundissem ao telefone.

— Alô?

— Oi, a minha mãe saiu e eu estou sozinha em casa, sem calcinha, em cima da nossa cama...

— Um minuto que eu vou chamá-lo.

Ou:

— Pronto.

— Ô, seu porra, a gente tá esperando a bola aqui na quadra!

— Seu porra, não senhor! Aqui é o irmão dele.

— Então, seu porrinha...

E por aí afora. O Edu, grande pegador da mulherada no bairro, logo descobriu que poderia usar o Victor, grande erudito e estudioso da sensibilidade feminina, para terminar seus namoros por telefone, sempre que não tivesse coragem suficiente para fazê-lo cara a cara. Depois de muita discussão sobre a moral, a ética e, estranhamente, 500 reais que tinham sumido da conta do papai no mês anterior, o Victor concordou. Além do mais, havia sempre o bônus de poder entender como funcionava o mecanismo do relacionamento amoroso em seus últimos momentos de existência, já que nunca namorara na vida.

A primeira experiência foi um sucesso retumbante. Com uma retórica impecável, eivada de sofismas, e sob as instruções pantomímicas do irmão, Victor deu a entender que um relacionamento de oito meses com a Mônica não tinha mais futuro, mas que isto não se devia a um distúrbio de personalidade da moça, tampouco dele próprio, e sim a uma coisa que Jung chamava “ausência de sincronicidade”, passando pela impossibilidade do amor verdadeiro em tempos de ditadura, a relativização dos sentimentos, e você sabia que o experimento de Stanford provou serem as relações sociais ditadas segundo a hierarquia imposta pelo Estado?

A partir daí a coisa ganhou status de hobby. Já que mulher nunca fora problema para ele, ao menor sinal de dificuldades amorosas, o Edu sentenciava, como quem recomenda o exército para resolver o problema nos morros cariocas e pronto:

— Victor, liga pra ela!

E lá ia o irmão, todo sádico, testar uma nova forma de encerrar relacionamentos sem deixar a guria muito magoada. Com o tempo, até mesmo as instruções manuais do Edu foram dispensadas. Só havia uma frase que o Victor estava terminantemente proibido de dizer ao telefone: “Ainda podemos ser amigos...” e similares.

— Mas Edu, a gente ficou ontem, foi tão bom...

— Não, Cloraci — o apelido dela durante o namoro era “Clô”, mas tratar as meninas pelo nome de batismo era muito importante, pois sugeria o esmaecimento do carinho e, em caso de nomes feios, até uma espécie de reprimenda à falta de criatividade dos genitores. —, nós quisemos pensar que foi bom, quando na verdade nosso cérebro só fez mascarar uma crise que já vinha se agravando desde aquela briga no cinema, lembra? Você deu risada quando eu disse para a menina da bilheteria que nós já havíamos estudado juntos, ela respondeu que não lembrava e perguntou de qual matéria eu dava aulas. Você riu! Foi suficiente, Cloraci. As coisas começam assim... Agora não adianta chorar.



Uma vez o Victor resolveu fazer diferente. Não era justo que o irmão tivesse tantas mulheres e ele precisasse se contentar com um pôster da Jennifer Connelly. Decidiu que, na próxima ligação, sem o Edu perceber, marcaria um encontro de reconciliação com a garota. Se ela aparecesse e quisesse ficar com ele, ótimo, se não, que mal poderia lhe acontecer? No máximo um tapa na cara, e se fosse rápido o suficiente para se abaixar, nem isso.

Não precisou telefonar. A moça fora mais rápida.

— Alô.

— Oi, Eduardo Santanna Gusmão?

A voz era atraente e, se não fosse só o cérebro tarado do Victor, cheia de contida lascívia

— Ele mesmo.

— Chegou a hora. Precisamos nos encontrar de imediato. Eu não posso ir à sua casa pra te buscar, tive um problema com o estepe. Pode estar no Bar Gato Preto em quinze minutos?

— Dez. Estarei em dez.

— Ótimo, espero você.

Tomou dois banhos, um com água e outro com perfume, escovou os dentes três vezes, vestiu-se cheio de pompa e saiu. Mal podia imaginar a dona daquela voz tão linda. Certificou-se de que daria um substituto mais ou menos à altura do irmão.

O bar estava quase vazio, as ruas paradas. Achou estranho uma carroça estacionada ao longo do acostamento, a roda esquerda danificada, dois cavalos pretos enormes resfolegando. Sentou-se num desses bancos altos de bar e pediu uma coca. Logo ela apareceria.

A moça foi precedida por um horrível vento gelado. Por trás, tapou os olhos dele e perguntou, a voz inconfundível:

— Adivinha quem é?

Ele virou-se todo sorridente, mas logo percebeu que havia alguma coisa errada. A mulher tinha uma palidez cadavérica, usava túnica preta e trazia uma enorme foice nas mãos.

— Quem é você?

— A Morte, é óbvio. Aliás, obrigada por ter entendido meu contratempo com essa carroça maldita, a maioria das pessoas faz um escândalo danado quando a hora delas chega. — Suspirou, como se dissesse “Ê, vida...” — Mas bem, vamos logo com isso, Seu Eduardo, que estou com muito serviço acumulado...

— Espere, eu não sou o Eduardo!

— Ora, homem, deixe disso. Você conseguiu vir até aqui e agora vai dar pra trás?

— Não, é verdade, eu sou só o irmão dele e...

Saiu correndo, derrubando cadeiras e mesas por onde passava. A Morte foi atrás, resignada.



Testemunhas disseram que suas últimas palavras foram “Ainda podemos ser amigos...”

4 comentários:

  1. Legal o texto, o final é inesperado, valeu.

    E eu fui o 1000º!!!

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  2. Hahahaha!

    Pois é, Agnaldo, parabéns!

    Agora você sabe como Romário e Pelé se sentiram.


    Obrigado pela visita.

    Abraços.

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  3. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Muito bom, irmão!
    Ri pra caramba, e com o final me lembrei daquele episódio do Simpsons onde a morte corre atrás do Abe pra devolver a dentadura, rsrs

    Abraços!

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  4. ri feito uma gralha desgrenhada, como não poderia deixar de ser. E o causo até que me lembrou um conhecido.. Mas enfim, subjetividades à parte, texto incrível. ;*

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