quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Vingança

Deu-se que dona Helena estava a conversar sobre os desejos da época de gestante com a vizinha, em frente à casa que ocupava provisoriamente. Nos seus braços, a filha Ângela, sete meses, brincava distraída com um Mickey Mouse de pelúcia cujo orelhão direito fora acidentalmente amputado na véspera.

— Eu tinha muita vontade de comer pão com feijão — ia confessando a vizinha, que também era mãe. — Acordava no meio da madrugada e fazia o Murilo esquentar o feijão da geladeira, achar uma padaria aberta e comprar pão mandi. Francês não servia.

— Ai, que nojo! — exclamou Helena. — Acho que meu desejo mais esdrúxulo foi mesmo comer goiaba verde com sal. Isso ainda com a Juliana, nossa primeira filha. A sorte é que, se eu bem me lembrava, o nosso vizinho, na época, tinha uma goiabeira enorme bem dentro do quintal. Mas demos azar com o horário em que a vontade bateu, ali pelas duas. Quer dizer, o Beto não podia bater palmas na frente da casa do seu Expedito e dizer: “boa-noite, o senhor poderia, por favor, prender o seu cachorro enquanto eu cato algumas goiabas verdes do seu pé, que minha esposa está com desejo?” Acho que nem a ameaça de terçol impediria o homem de ficar furioso.

— E como vocês fizeram?

— Bem, depois de muita luta, ameaças de morte e separação, ele concordou em pular o muro e passar para o terreno vizinho pelos galhos de uma mangueira que crescia colada à parede, e dali chegar à goiabeira, sem precisar descer ao chão. Mas os cupins tinham chegado primeiro, o galho quebrou, uma desgraça. Tadinho do Beto, até hoje tem as marcas.

— Da queda?

— Da queda, das mordidas do Spike e do tiro do Seu Expedito, que pegou de raspão. Pior que nem goiabeira era, eu tinha confundido uma serigüela. Grávidas têm dessas coisas, você entende.

— Entendo, sim... Mas você fica aí falando que meu desejo era nojento, ainda não viu nada. Assisti uma reportagem bem antiga que falava numa moça húngara que tivera desejos canibais, juro! Estava de três meses, se não me engano... O pobre do marido ficou “mas amor, onde é que eu vou achar um crioulo entre 17 e 22 anos, de olhos castanho-amendoados e que tenha lutado na Guerra do Paraguai para você comer, uma hora dessas?!” Parece que ela teve de se contentar com uma nádega da criada, algo assim.

— Que coisa. E o caso da mulher que era sinesteta, você viu? Queria porque queria provar um naco do refrão da Canção do Exílio...

Mais tarde, naquele mesmo dia, Helena encontrava-se no quarto, arrumando o minguado acervo de roupas do casal e das filhas no armário exagerado de mogno, presente dos pais do Beto, que aliás ainda não chegara do serviço. Juliana fora dormir na casa de uma amiga do colégio. Ângela martelava um chocalho nas barras de proteção do berço, às suas costas.

O casarão da Rua Boa Esperança fora cedido ao casal pelo proprietário e tio de Helena, enquanto ele não encontrava um comprador definitivo. Em troca, os dois só precisariam garantir que nenhum vândalo invadisse a propriedade para roubar a fiação elétrica, como ocorrera nos períodos ermos do imóvel. Corriam boatos no bairro de que a casa era assombrada, mas costuma-se fechar os olhos para essas bobagens quando o que está em jogo é um teto sob o qual hospedar nossa família. Foi o que Helena fizera, fingindo acreditar na conversa do tio de que as silhuetas periciais praticamente irremovíveis no assoalho do terceiro banheiro não passavam de uma evolução do jogo da amarelinha, inventada pelos filhos dos antigos moradores (“molecada arteira, sabe como é...”), e que consistia em tentar adivinhar quem era a pessoa deitada apenas pela marca circunscrita com spray. Contudo, a circunstância seguinte estava prestes a lhe fazer mudar de idéia.

— Mamãe, quero goiaba.

Helena estacou na dobradura de uma meia-calça. Virou-se em câmera lenta e de forma instintiva na direção das duas enormes janelas, abertas para aproveitar melhor a brisa noturna. Não havia ninguém espiando por elas. Tampouco pelas portas.

— Mamãe, quero goiaba.

A mulher sentiu cada pêlo de seu corpo se eriçando, numa espécie de efeito dominó ao contrário. A voz era fina, porém perturbadoramente decidida. Horrorizada, voltou-se então para a única opção plausível no recinto — e Ângela a olhava fixo, em pé dentro do berço, as mãozinhas nas grades.

— Mamãe, quero goiaba.

Saiu correndo para o meio da rua, e só retornou quando Beto, o tio e o próprio bispo da paróquia local se dispuseram a acompanhá-la. Embora Ângela tenha voltado a emudecer — salvo grunhidos habituais —, é claro que o relacionamento com a filha não seria mais o mesmo por umas boas semanas, durante as quais o Beto, incréu que só ele, ria de se acabar com a história toda, encerrando seus acessos com a mesma nota sádica:

— Para você ver o quanto é bom correr atrás de goiaba pros outros, à noite.

E apontava a marca de bala no ombro, querendo dizer que agora sim estavam quites, para depois abraçar a filha, que o vingara com uma geração de atraso. Mas vingara.

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