terça-feira, 2 de junho de 2009

O Verbo Jazer




Morava ao lado do cemitério. Querendo ou não, acostumara-se à idéia da morte. Dos outros. Vez por outra, debruçava-se na janela da sala, admirando com certo fascínio o cortejo espalhafatoso que precedia o cadáver embalado de algum coronel, vereador ou qualquer dessas subcelebridades provincianas. Enterros simples não eram com ele. De caixotes feitos com madeira parcialmente corroída por cupins, dizia, bastava o seu guarda-roupa.

Um dia, acontecimento raro, resolveu passear sozinho pelas dependências da necrópole — dar um rolé, como diziam os mais jovens. Comparou túmulos, leu epitáfios, chutou vodus, examinou retratos. Depois, quando começava a se convencer de que Huck Finn tinha razão ao dizer que os mortos não são criaturas com as quais se deva perder tempo, ocorreu-lhe (talvez inspirado mesmo nas molecagens do personagem de Mark Twain) fazer uma brincadeira meio boba com os caracteres removíveis na lápide de determinado sargento: trocando a ordem numérica, alterou o ano de falecimento do oficial, de 1982 para 2198. E quase morreu de susto, porque no instante seguinte um homem de cabelos grisalhos, porte físico avantajado e rota indumentária militar surgiu do nada, tocando-lhe no ombro:

— Obrigado, soldado — disse o sargento, a voz embargada. — Acaba de me conceder mais 216 anos para torturar liberais.

Eu?!


— Claro. E lhe sou eternamente grato por isso. Agora preciso ir, a ditadura não pára!

E saiu assoviando marchinhas de caserna pelos portões abertos do cemitério. Em sua lápide, outra mudança sutil se operara — o verbo jazer passara sozinho para o futuro:


“Aqui jazerá...”

Transformou aquilo num hobby. Divertia-se selecionando as pessoas certas para ressuscitar (temendo incorrer no mesmo erro do sargento torturador) e recomendando-lhes que gastassem o tempo sobressalente com sabedoria. Alguns, dado o patamar a que as coisas haviam chegado no mundo dos vivos, não apreciavam muito o retorno:

— O quê?! Mulheres disputando cargos públicos? Que mais falta acontecer, um negro presidir os Estados Unidos? Só pode ser o apocalipse, me mande de volta, sim?

Outros, ao contrário, decepcionavam-se profundamente com a lentidão do progresso científico:

— E então, cadê os carros voadores?
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— Ahn... — engrolava ele, pensando se deveria desiludir completamente o colega ao revelar que ainda fabricavam fuscas. — Talvez demore um pouco...

Mas a maioria, de um modo geral, mostrava-se grata pela sobrevida. E aos poucos ele sentiu como era ser Deus.

Eventualmente, pensava em testar seus “poderes” por outras bandas (cemitérios da capital, Abadia de Westminster, nada muito sofisticado), para desistir logo em seguida da empreitada. Afinal, ainda havia muitos verbos “jazer” passíveis de alteração, naquele lote.
.
A essa altura nosso amigo já atentara para o potencial financeiro de sua descoberta. O único problema foi a procrastinação demasiada. Perdia-se na brincadeira divina de cuspir na cara da morte, enferrujar o gume de sua sagrada foice e pisar na aba da capa preta, adiando o comunicado bombástico à mídia de todo o mundo, mês após mês. Esperou demais.

Em dezembro de 1999, caiu doente. Algo entre o resfriado e a peste negra. Já muito debilitado, pediu que lhe trouxessem o único amigo em quem confiava. Egoísta como só os humanos no leito de morte, não contou-lhe tudo: apenas o fez prometer que mudaria a ordem dos algarismos que iriam formar o ano de sua partida, na cabeceira da cova, de modo a conseguir o número mais alto possível. Embora extremamente confuso, o rapaz entendera tudo certinho. As circunstâncias é que não colaboraram, pois o outro só veio a óbito em 2000.

Quando o amigo parou em frente ao túmulo dele, duas semanas depois, não havia muito o que fazer. Só para cumprir a parte do juramento que conferia ao engajamento pessoal, trocou displicentemente o “2” de lugar com o primeiro zero.

O sobrenatural pode às vezes ser apavorante, mas é bom saber que até ele precisa se submeter aos protocolos da Física Clássica. Tendo agora falecido no ano “0200” da era Cristã, o homem que um dia residira ao lado do cemitério não tinha como ter ressuscitado sequer uma lagartixa naquele local. Só posso dizer que seu amigo ficou petrificado ao ver a horda de coronéis, médicos, políticos, adolescentes e até padres irrompendo irritadíssimos pelos portões de ferro da necrópole, xingando-o dos palavrões mais cabeludos por ter tirado o doce de suas bocas (“logo agora, quando a coisa tava ficando boa...”), até voltarem a desaparecer completamente, deitados sobre suas antigas sepulturas.

E a Morte, na ânsia por tirar um sarro vingativo do homem que a fizera de boba durante tanto tempo, acabou cometendo terrível incorreção gramatical ao evidenciar o caráter quase pré-histórico da única lápide em que o verbo jazer não estava conjugado no presente, nos limites daquele cemitério:


“Aqui jazaste (e bota jazaste nisso)...”

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