quinta-feira, 30 de abril de 2009

No Ponto


Conheceram-se no ponto de ônibus. Ele esperava o 609, ela o 712, o 715 ou (“quando estou muuuuito atrasada”) o Moto-Táxi menos decrépito que aparecesse. As primeiras conversas tinham o agradável tom de trivialidade urbana. O clima, etc. Logo superaram essa fase. Passaram, então, às confidências supérfluas. Ele confessou que o carro estava no conserto havia três meses, e ela revelou que “o caramujo no pé daquela arvorezinha ali” daria duas voltas completas ao redor da Terra, antes que seu salário permitisse a aquisição de um automóvel.

            A primeira afinidade descoberta foi o estado civil: casados. E nem tinha sido necessário perguntar — as alianças nos anulares se haviam encarregado de desfazer qualquer devaneio romântico. Depois, descobriram-se amantes do Kundera, detratores do ovomaltine (“parece areia!”) e em cima do muro com relação à pena de morte. “Talvez a castração resolvesse”, ponderara ela, insegura, e ele concordara apenas em parte. Naquela parte dos estupradores, por exemplo.

          Conversaram sobre o trabalho. Ele era fiscal num supermercado do centro, ela vendedora numa loja de surf do shopping. Contaram casos engraçados, compartilharam o ódio inominável tanto pelos patrões quanto pelos clientes pedantes, aprenderam a identificar o dia de pagamento um do outro apenas pela disposição com que chegavam no ponto, às 6:25, religiosamente. Eram sempre os primeiros a aparecer. Algumas pessoas talvez achassem mesmo que fossem um casal, no sentido mais ortodoxo da palavra.

            Um dia ela estranhou quando o 609 passou e ele não deu o menor sinal para que a condução parasse, continuando absorto na conversa dos dois.

            — Você não pega mais o 609?

            — Hein? Ah, não, eu hoje estou de folga.

            — Ué, então por que veio ao ponto?

            Ele fez uma cara espantada, de quem não havia pensado naquilo. Por fim, deu de ombros:

           — Costume.

            Ficaram em silêncio, olhando-se fixo, até o 712 levá-la embora.

            Outro dia ele comentou, com indisfarçável pesar, sobre ter finalmente conseguido o dinheiro para pagar o pessoal da oficina e reaver o seu carro.

            Não houve a menor confissão de que aqueles poucos minutos sentados sob a cobertura de metal enferrujado era o que mantinha suas existências providas de sentido, ultimamente. Nenhuma das partes foi capaz de revelar que só agüentava a chateação do serviço com estoicismo gradativamente maior por saber que, na manhã seguinte, poderia contar com a terna empatia da outra para lhe escutar, sem julgamentos. Ninguém sugeriu que continuassem a se encontrar, embaixo de um ponto imaginário, esperando conduções que nunca viriam, e papeando enquanto isso. O pacto de suicídio tampouco fora mencionado. Ele apenas comentou que nunca pensara um dia sentir falta de pegar ônibus todos os dias. Ela só fez suspirar.

 

            Naquela mesma tarde, porém, ele tomara uma decisão. Botou um anúncio nos classificados e, para sua grande surpresa, teve o velho Corsa vermelho vendido na semana seguinte.

            Correu para o ponto às 6:17 do outro dia, radiante, ansioso por contar a ela sobre a novidade. Achou esquisito, contudo, o modo como a moça recebera a notícia. Parecia engasgada com alguma coisa.

            — Está tudo bem? Que aconteceu?

            Ela nada disse. Em vez disso, indicou um corsa escarlate que se aproximava, vindo estacionar ao lado deles, no ponto.

            — Amor, desculpe a demora, o Rafa tava meio bêbado — disse o sujeito ao volante, e, dirigindo-se ao outro homem: — Aí, tu não é o cara que me vendeu esse carango? Rapaz, tá andando de busão agora, é?!

            — Ah... Bem...

            — Deixa pra lá. Olha só, ficou uma foto tua pregada dentro do porta luvas... — ele remexeu até encontrar o objeto — Amor, entrega pra ele, aí... — estendeu a fotografia para a esposa, que obedeceu. — Agora vamo logo, que eu tenho futiba mais tarde.

            Partiram, a moça fitando-o do carro, penalizada.

 

            Ele sabe que aquela foto (onde está de rosto colado ao da mulher e o dos dois filhos, sob a água corrente de uma cachoeira artificial, 10 meses antes) nunca o deixará em paz. É uma câmera a vigiá-lo, a lembrá-lo da magnitude da bobagem que estivera prestes a fazer. “Atente para suas verdadeiras responsabilidades”, diz a legenda imaginária.

 

            No outro dia uma desconhecida deu-lhe bom-dia no ponto de ônibus e não entendeu nada quando o homem a mandou ao diabo.

3 comentários:

  1. Eu adorei!

    Coitado... Mas ficou muito bom, muito bom mesmo.
    Não tenho palavras, adorei absolutamente tudo nessa cronica.

    Ótimo!

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  2. Sinceramente,ñ tem emoção,um romance serve para trazer os sentimentos que deixamos de lado;e em cada pessoa surge um diferente,como raiva,amor,esperança,ou desejo....
    Vc é bom para escrever contos instingativos;
    (ñ estou traçando uma linha;apenas seja mais voce)

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