quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Algo assim


Tinham se conhecido no enterro da bisavó. A família era dessas tão numerosas que um membro pode ir do berço ao túmulo sem nem desconfiar que certa celebridade seja parente, não sendo justo, portanto, falar em árvore genealógica, mas em bosque. Mas um bosque de árvores espaçadas, que ultimamente só se reuniam nos lutos. E que também vinha sendo podado desde a implementação, há vários anos, de um acordo não-verbal que limitava o número de filhos que se podia ter sem sofrer o desprezo dos outros galhos a 1,7. 
— Que nem a China. 
— O quê?
Ele ficou surpreso de que a observação não tivesse ficado só na sua mente, enquanto percorria os rostos da multidão vestida de preto, a maioria dos quais encimada por cabelos brancos ou por cabelo nenhum.
— Tava reparando que nossa família tem muito mais gente idosa do que antes. Por causa do acordo, sabe. Que nem a China.
Ela também havia reparado naquilo, e disse achar absurdo que se quisesse controlar numericamente a prole alheia quando “ela mesma” (e indicara o caixão da bisa com o queixo) tivera 17.
— É. Se fosse hoje ela podia dizer que não tinha enxergado a vírgula. Mas sei lá, naquele tempo era tão difícil um filho vingar que o pessoal tinha eles logo às dúzias, pra garantir…
— Não, sem falar na idade com que engravidavam. A bisa mesmo deve ter passado das próprias fraldas pras fraldas dos filhos sem nenhum treinamento intermediário com barbies. Mas acho que tinha a ver com a expectativa de vida, né. Sem saneamento básico, as pessoas viviam no máximo até os 28, e precisavam fazer tudo mais cedo. Crescer, casar, procriar…
— Imagina a trabalheira, readaptar todas as fases? Ter puberdade aos 7, exame de próstata aos 14…
— Menopausa aos 22…
— E com 28, a morte. Segundo o IBGE.
— Horrível. O que seria uma balzaquiana, numa sociedade dessas? Uma lenda urbana?
— Por aí. E o Balzac, ficção fantástica.
O riso nasal foi unanimemente desaprovado pelos parentes que o ouviram, e os dois aproveitaram a deixa para se afastar dali. Não tinham sido próximos o bastante para sofrer com a perda da bisa, nem conseguiam simular esse sentimento com a eficiência do tio Plínio, por exemplo, que, apesar de ter passado todo o velório pronunciando errado o nome da falecida, fazia quinze minutos estava ameaçando se atirar na cova dela, de puro desgosto. 
Conversaram sobre a vida sem se importar com a inadequação do ambiente. Ela morava em outro estado, tinha vindo só pra cerimônia e embarcava de volta naquela mesma noite. Ele estava acompanhando a mãe e o padrasto, com quem dividia uma casa no interior, mas ia ficar mais uns dias na cidade. Ela não disse se era casada, embora ele o tenha deduzido pelo anel e por um certo receio inicial de se afastar demais da vigilância dos parentes. Volta e meia apontavam um ornamento curioso, uma santa sem cabeça, um erro de ortografia num epitáfio. Quando passavam ao lado de um túmulo encimado por uma coluna partida, ele perguntou quanto tempo faltaria para alguém da família deles ter uma daquelas sobre a própria sepultura.
— O quê, um enfeite vandalizado?
— Não, não, essas colunas vêm quebradas de fábrica. É um simbolismo, significa que a pessoa enterrada aí é a última de uma família tradicional.
— Ah. Nossa, que triste… É tipo o memorial de uma extinção. 
— Pois é… 
Ele falou mais sobre arquitetura tumular (“querubim apontando pra cima significa certeza de que o morto foi pro Céu; querubim pensativo significa ‘sei não…’”), ela hesitou em acender seu cigarro com uma caixa de fósforos que ele encontrara no chão, ao lado de um trabalho de macumba (“vai que eu pego câncer?!”). Uma hora escutaram o barulho abafado do tio Plínio caindo finalmente na cova, e o burburinho desesperado dos parentes para tirá-lo de lá. Elegeram o pior epitáfio (“Saudades de seus paes…”, donde concluíram que ali estava enterrado um padeiro com uma família muito insensível) e o melhor (“Alguma coisa entre dois nadas.”). A certa altura quiseram pegar um par de reluzentes goiabas que despontava por cima do muro da ala norte, mas foram obrigados a desistir porque: 1 – ele não conseguiu alcançá-las (“é que sou o filho vírgula-sete da minha mãe…”); 2 – não era possível saber se o cemitério havia contaminado o lençol freático de onde a goiabeira se nutria. Quando se deram conta, era fim de tarde e um zelador mal humorado mandava, de longe, que fossem embora, que ele precisava fechar os portões. Só restavam os dois na necrópole. 
Despediram-se formalmente, e quando ela virou as costas para ir embora, ele a interpelou. 
— Que foi?
— A gente é primo distante, ou algo assim?
Ela pensou, o cigarro aceso com outro fósforo de macumba entre os dedos finos.
— Gosto mais do algo assim. 

***

Encontraram-se no ano seguinte, no enterro da tia Magali (trombose), com quem também não tinham laços muito fortes. O cemitério agora ficava em estado neutro. Ela havia trazido a filha, de uns seis ou sete anos (ele não soube se como passeio, castigo ou pedagogia), e só puderam conversar com alguma tranquilidade no finzinho da cerimônia, quando uma tia da menina a levara, sob protestos, de volta ao hotel. 
— Pensei que você não vinha – ela disse, cutucando-o carinhosamente nas costelas.
— Me perdi do cortejo quando o sinal fechou. Como não sabia onde era o cemitério, acabei acompanhando o cortejo errado, um que ia pra um comício, eu acho. Devia ter desconfiado pela marchinha… 
— Ah, a gente veio de táxi. O motorista também tava ouvindo rádio e cantarolando, e a minha irmã pediu pra ele parar com as duas coisas. Não é curioso, isso?
— O quê?
— Assim: ninguém canta no trajeto até o cemitério, ou quando anda para a forca. Mas todo mundo faz isso sem problemas no caminho entre a maternidade e a sepultura, que é só um pouco mais longo.
E naquele momento, como que para contradizer a tese dela, o padre puxara um coro de “Segura na mão de Deus”.
A configuração do cemitério era mais fechada, o que, se por um lado ajudava a ocultá-los do resto da família, por outro deixava espaços exíguos para quem quisesse caminhar por entre os túmulos. Mas ele logo percebeu que mesmo essa desvantagem tinha um lado bom. Como quando, julgando-se magros o bastante para passar entre dois mausoléus quase contíguos, se viram presos meio que de brincadeira um ao lado do outro, e ela gargalhou do ridículo da situação com a cabeça apoiada no mármore da frente. 
— Parece aqueles pesadelos, né?
E ele concordou, rindo também, embora achasse bem o contrário.

***

— Já reparou que as frutas dentro e em volta de todos os cemitérios sempre parecem ótimas?
— Também, com esse adubo…
Primo Fernando, acidente de moto. Uma orquestra fúnebre convocada pelo tio começava os primeiros acordes da Gymnopédie Nº 3, de Satie.
— Sei lá — ela continuou. — Acho bonita a ideia de ter meus nutrientes absorvidos por uma planta, em vez de por vermes. 
— Como no mito dos índios?
— Sim, daquele jeito. O pé de guaraná que cresce onde foram plantados os olhos do indiozinho morto. É poético, não acha?
— Acho mais mórbido. Principalmente porque a fruta se parece mesmo com um olho. Lógico, foi isso que deu origem ao mito… Mas que semente você acha que seu corpo daria?
— Me diga você. Lembrando que tem que levar em conta o aspecto físico.
Ele estreitou os olhos, fingindo avaliá-la minuciosamente.
— Uma pera, eu acho. Mas com personalidade.
Ela riu, o chamou de bobo e disse que achava mais provável que desse uma goiaba, porque sempre associara o formato do miolo da fruta a uma versão miniaturizada de um cérebro humano.
— Quando era pequena, eu ia comendo a casca aos poucos, até ficar só o miolo. Depois comia, de uma vez, apenas o hemisfério esquerdo, por causa daquela relação dele com a racionalidade e porque queria ficar mais inteligente, mas não mais sentimental, caso comesse o lado direito, que eu jogava fora.
— Eu, hein.
— Isso faz de mim uma zumbi?
— Amadora. E que não ia durar muito, com esse desperdício aí. 
— Ha-ha-ha… Ah, eu adoro essa parte…
Então ela o puxou pela mão para cima de um jazigo amplo, pôs os braços dele em sua cintura e colocou os seus em volta do pescoço dele.
— Você é alto demais pra ser o filho vírgula-sete.
E, para corrigir o desnível, subiu nos sapatos dele. Pesava quase nada, ou talvez a leveza dele a contaminasse. Não se incomodou com o cheiro sutil de cigarro (que ela fumava com maior frequência que das outras vezes), nem com as duas senhoras que benzeram o corpo ante o que julgaram uma profanação terrível do túmulo alheio. 
Ele só pensou vagamente em como era curioso que um mesmo lugar e uma mesma música pudessem comportar o pior momento da vida de uns e o melhor da de outros.

***

Ela não fora ao enterro da mãe dele, nove anos depois. E quando se encontraram pela última vez, num dia de finados, se desculpou explicando que ficara internada na época, devido a um enfisema pulmonar. Estava muito magra, respirava com dificuldade e era auxiliada por uma amiga que a seguia como um guarda-costas, e que não pareceu muito convencida de que a outra ficaria bem sob os cuidados “do primo”, como ela alegara ao dispensá-la. 
— Não falei que você era meu “algo assim” porque ela não ia entender.
Havia frutas, como sempre. Inclusive goiabas, que ela pegou. A diferença era a multidão espalhada pelo cemitério, que tornava difícil conversar. Também por isso ele nem tentou comentar que, embora a princípio a ausência o tivesse magoado, no final acabara achando melhor que ela não tivesse aparecido naquele dia. Eram os únicos na família que viam cemitérios como algo positivo, quase doce, sendo, para os dois, o que certas praças e salas de cinema eram para outras pessoas, e não teria sido bom perder para sempre, num mesmo dia, a mãe e aquela conotação terna, diluída no contexto maior da dor. Nenhum deles confessou que no fim de todos os encontros anteriores havia se culpado por torcer que a próxima morte na família não demorasse muito, mal conseguindo reprimir a esperança sempre que o telefone tocava de madrugada (o horário oficial para se receber notícias trágicas). Ninguém propôs que fugissem, ignorando tudo o que os havia impedido das outras vezes, a família conservadora, o grau nebuloso de parentesco e a relação conjugal dela. Ele tampouco observou que, com a irredutibilidade do acordo e o afunilamento do bosque, não demoraria muito para alguém da família carregar mesmo a tal coluna partida sobre a sepultura, a menos que os dois agissem, evitando a extinção. Quando soltou um “a gente só tem isso aqui, no fim”, indicando o espaço à volta, ela não soube se falava da efemeridade da existência ou do que haviam construído de enterro em enterro, uma tragédia íntima composta pela soma de várias outras, públicas. 
Na saída do cemitério, ela só disse “acho que quero ser cremada”, como se adivinhasse a preocupação dele sobre a identidade da próxima pessoa a cujo enterro iria. E ele só conseguiu desculpar-se, num suspiro, pelo fósforo de macumba. 
Ele ainda guarda a goiaba comida pela metade que ela lhe deu antes de ir embora, naquele dia. 
Acha que por causa do hemisfério direito.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Você tem direito a uma ligação



Uma situação que volta e meia aparecia nos filmes era a do sujeito preso durante a madrugada e a quem a polícia dava a oportunidade de fazer uma única ligação. Até hoje sou fascinado por ela. Não existe ocasião hipotética que melhor defina quem está no topo da hierarquia de consideração de cada um do que a prisão repentina às três da manhã e a oportunidade (anunciada pelo delegado com adequado tom solene, de Escolha de Sofia) de realizar um único telefonema. É por isso que, mesmo grogue de sono, sempre tentei encarar as ligações tardias e com número desconhecido que recebi ao longo da vida menos como trotes potenciais (ou enganos potenciais) do que como prováveis demonstrações superlativas de consideração. Uma consideração que se sobrepusera, inclusive, ao fato de eu não ser rico nem formado em Direito, comprovando que o interesse do interlocutor ia muito além da crença em meus recursos diretos para tirá-lo de lá.

Até aqui, infelizmente, foram madrugadas de total decepção, com o meu emocionado "Alô?" sendo invariavelmente respondido com um patético "tem um Fusca cor de gelo..." que eu nem termino de escutar. Mas ainda conservo a esperança, claro, que pelo menos é maior que a dos estudantes de Direito, cuja autoestima sequer pode contar com o reforço de uma situação dessas para medir o nível da sincera afeição alheia.

-- Pronto.

-- Oi, Fernando? É o Mário, tudo bem, cara? Seguinte, eu fui pego no bafômetro por causa do licor de uns bombonzinhos aí, será que não tem como tu dar um pulinho aqui na delegacia e resolver isso pra gente?

 -- Caramba! Quantos bombons tu comeu?

-- Não, não, os bombons ainda não tinham sido feitos, eu tava levando o licor pra fábrica. E aí, você vem? Eles não estão acreditando que sou réu primário, mesmo eu mostrando que não sei ler. Acham que é porque estou bêbado, não acreditam que tive que abandonar a escola na segunda série...

-- Espera um pouco, vou pesquisar aqui na internet pra ver o que pode...

-- Como assim? Tu não é formado em Direito?!

-- Não, pô, as aulas só começam mês que vem. Agora, o que a polícia te disse quando te autuou? Mário? Mário?


Ricos são outra classe que sofre com a impossibilidade de distinguir o afeto interesseiro do genuíno, num caso assim. Ou sofreria, se seu dinheiro não comprasse, inclusive, a solução pra mais esse risível problema menor. Daí o fato de que quanto mais rica é a pessoa, maior é a hesitação com que atende a uma ligação no meio da madrugada. Até porque em geral ela sabe que só pode significar uma de duas coisas: prisão na família ou morte na família. E sempre teme o pior.

-- A-alô?

-- Oi, Clóvis. A tia Cecília... acabou de falecer...

-- Nossa, que susto! Pensei que os homi tinham derrubado a boca do primo Etc...

Perguntar-se para quem ligaríamos se fôssemos presos às 2:47hs num remoto condado do Texas é um exercício de autoconhecimento tão poderoso que é um absurdo que não constasse dos cadernos de perguntas que circulavam pela classe, na sétima série, ou mesmo hoje, dos cadastros das redes sociais. Felizes os que demoram mais de dez segundos para responder a uma questão dessa natureza, porque significa que possuem uma gama maior de opções. Ou infelizes, porque significa que precisam pensar muito para achar um único desgraçado que vá fazer valer a escolha. Se bem que a demora também possa estar relacionada aos fatores numerosos e complexos a serem considerados, e que vão da conduta do escolhido quando sob efeito do sono até sua própria propensão a sacaneá-lo em ocasiões anteriores.

-- Alô?

-- Edu, é o Guilherme, presta atenção, me pegaram bêbado e sem as calças, comendo uma égua aqui da estância do professor Valdemir, você tem que me ajud...

-- Rá, rá, rá, genial, cara, genial.

-- Não, porra, eu tô falando sério, isso não é treinamento...

-- Tá, tá, olhaí, deixei o estoque de risadas no sonho, vou voltar lá pra pegar e amanhã eu rio mais na faculdade, valeu? 

Há imprevistos terríveis.

-- Alô, Estella? É o Cláudio. Desculpa te perturbar a essa hora. É que eu acabei de ser preso roubando um pote de danone no mercado, e como ‘tão dizendo aqui que vou pegar perpétua, tô pensando em me matar hoje mesmo, na cela. Aí quis te ligar e dizer que... eu sempre amei você. O quê? Como assim, “o número chamado não existe”, amor?

Fico feliz em me incluir entre os que não têm a menor dúvida sobre para quem telefonariam após uma prisão repentina a altas horas. Em ter uma pessoa extraordinária que jamais sossegou enquanto eu não estivesse em casa, em paz e com saúde. Que está sempre cuidando do meu bem-estar, às vezes até sem eu saber. Que, mesmo não sendo formada em Direito, saberia exatamente o que dizer para me manter calmo e o que fazer para devolver-me à liberdade. Alguém cujo número nem precisaria estar na agenda do meu celular, porque o sei de cor.

-- Alô?

-- Alô, Batman? Graças a Deus que tu tá em casa, velho, seguinte...