Para Thaby, o presente de aniversário mais atrasado da história.
Faltavam 32 minutos para o fim de seu plantão quando
o telefone tocou, interrompendo os ruídos que vinham da cozinha. Em sete meses de
voluntariado, aquilo só acontecera uma vez, e a lembrança da conversa que se
prolongara para muito além do horário da troca de turnos veio-lhe à mente como
um mau presságio. Mas aquele não era seu turno: estava substituindo um
plantonista que ficara doente. Talvez, como o homem de voz rouca que ligara
mais cedo, a pessoa do outro lado da linha tivesse criado uma relação de
dependência e simpatia pelo voluntário faltoso (embora isso fosse condenado
pelas regras do Grupo), e, ao ser informada da ausência dele, desse um jeito de
desligar depressa. Não pretendia insistir no contrário.
— GRAV,
boa-noite.
Silêncio.
A respiração profunda de alguém que toma coragem baqueou suas esperanças: quem
já ligou outras vezes raramente tem esse tipo de hesitação. Pelo jeito,
tratava-se de uma “virgem”. Repetiu o cumprimento protocolar, embora soubesse
que “respeitar os silêncios” estava entre as virtudes que se esperavam de um
voluntário.
—
Ahn... Hmmm... Boa-noite — respondeu por fim a voz, pouco mais que de menina e
pouco menos que de mulher. “A fase”, como chamavam os colegas plantonistas,
imitando, com a mão, o abrir e fechar do bico de um pato junto ao ouvido, numa
atitude de impaciência que os coordenadores do posto repudiariam, se dela
tomassem conhecimento. — Com quem eu tô falando, por favor?
Disse-lhe
seu nome.
— Oi.
Ahn, desculpe, eu nunca liguei praí antes... Na verdade, eu nem sei direito o
que vocês fazem...
Se a
interlocutora fosse treinada para perceber as emoções implícitas na fala, teria
desconfiado do tom monocórdio e professoral que ele usou para descrever o Grupo
de Renovação do Amor à Vida como uma entidade humanitária, sem vínculos
políticos ou religiosos, criada na década de 60 como um programa de apoio emocional
e prevenção ao suicídio, e cuja utilidade pública fora reconhecida pelo
Ministério da Saúde ainda no sétimo ano de funcionamento. Também teria
atribuído significado especial à ênfase que o atendente desprendeu à palavra
“suicídio”, como se a prevenisse de que era este o foco principal do grupo, não
sendo, portanto, sensato ocupar a linha com histórias fúteis sobre paqueras da
escola, talvez tomando o lugar de alguém debruçado sobre o limiar do desespero,
o cano encostado na têmpora, o indicador no gatilho. Então ele riu de uma
situação hipotética a que sua mente dispersa o levou: um homem introspectivo,
que nunca conseguiu exprimir o que sentia porque as pessoas estavam sempre
ocupadas demais para prestar-lhe atenção decide se matar. Antes disso, porém,
resolve dar uma última chance ao mundo e telefona para o GRAV. A linha está
ocupada.
— Do
que você tá rindo?
Olhou
por sobre a cabine para checar se ninguém flagrara o deslize. Felizmente, um
estouro esquisito encobrira seu princípio de gargalhada. Por instinto adquirido
com o hábito, esvaziou a mente de qualquer pensamento que não fosse a tríade-mestra
de que se ocupava o manual do voluntário: escutar, compreender, aceitar.
—
Não, não é nada. Me desculpe. Você dizia?
— Na
verdade era você que tava dizendo... — mas ela não deixou que prosseguisse. — Enfim...
Muito bonito, o trabalho de vocês. Eu não quero dizer onde descobri o número
daí porque... É complicado...
— Não
precisa dizer, se não quiser — atalhou.
—
Ah. Que bom. Então, eu tenho até um pouco de vergonha de falar por que eu
liguei... Quer dizer, não é nada tão sério quanto suicídio... Sei lá, pra mim parece sério, entende? Tá me
machucando, isso...
(Escutar,
compreender, aceitar...)
Não, ela não havia notado a ênfase em
“suicídio”.
— Sim.
— Então...
Você vai achar bem estranho... É que hoje foi meu aniversário... E...
Voltou
a endireitar a coluna, como se sua empatia pela desconhecida estivesse prestes
a ser despertada. Esta expectativa demoveu-o do que talvez fosse a praxe
(dar-lhe os parabéns) e impeliu-o a um erro bastante comum em voluntários
novatos — completar a fala do outro:
— E
ninguém se lembrou dele?
—
Não! — a resposta veio rápida, seguida de um riso trêmulo. Ele percebeu o
próprio fora e voltou imediatamente à função passiva.
—
Aí, tá vendo, por isso eu disse que ia parecer estranho. É que eu liguei aí
justamente porque ninguém esqueceu do
meu aniversário.
(Escutar,
compreender, aceitar...)
—
Então você ficou decepcionada porque ninguém esqueceu do seu aniversário.
—
Não é bem “decepcionada”. Ou é... Sei lá, até pra mim parece loucura... Acho
que no fundo eu tinha esperança de que algumas pessoas não lembrassem, entende?
No fundo, não: no raso, mesmo, porque até troquei a data de nascimento no meu
perfil das redes sociais há um mês, mais ou menos, pra confundir as pessoas que
eu achava que só se lembrariam assim: sendo lembradas. Também evitei tocar no assunto
com meus amigos, cobrando presentes antecipadamente, esse tipo de coisa. — ela
riu. — Acredita que até deixei de parabenizar pessoas queridas pelo aniversário
delas, esperando que elas “esquecessem” o meu, por vingança?
(Escutar,
compreender, aceitar...)
Outro
estouro na cozinha. O ruído, similar a um miado fraco, de passos no piso
emborrachado.
— E
nada disso deu certo?
— Nada.
Não que eu esperasse que todos fossem esquecer. Pelo menos uma minoria
distraída, para quem a data não significasse nada além de outra folha do
calendário a ir pro lixo no fim do dia. Mas não. Ninguém deixou passar batido.
Recebi ligações carinhosas até de desafetos. Presentes, flores, abraços,
beijos, cartões, e-mails...
(Escutar,
aceitar...)
Havia
decididamente mais gente do que o habitual no posto, àquela hora. Pensou que,
se tivesse dado os parabéns à garota no momento em que ela revelou ser seu
aniversário, a teria feito se sentir tão desamparada quanto o suicida de sua
anedota.
— Pensando bem, foi burrice ter achado
que seria diferente. Nos outros anos aconteceu a mesma coisa, não tinha motivo
pra pensar que ia mudar agora... Mas o caso é que neste ano eu tomei as providências que te falei. Queria muito
acreditar que essa coisa ruim que eu tô sentindo é como a decepção que a gente tem
quando um projeto ao qual nos dedicamos muito não sai de acordo com os
planos... Mas não consigo! Sabe, parece que toda a minha vida eu estive no
centro do palco, rodeada de gente se preocupando com a minha felicidade, com o
meu conforto, se não havia alguma pedrinha no meu sapato, me machucando...
(Escutar, aceitar...)
— E isso foi me deixando com uma inveja danada
dos figurantes. Sabe, aquelas pessoas que estão sempre ali, à margem dos
holofotes, que aprenderam a não esperar nenhum sentimento dos outros mas que,
em compensação, não têm nenhum sentimento a
ser esperado pelos outros. Tipo gratidão. Mas não é bem isso, também... Sei
lá. É como se essa gente desfrutasse de uma liberdade que eu nunca tive. Outro
dia tava lendo sobre um detento que se suicidou porque ninguém o visitava na
cadeia. Tive a impressão de que até esse cara era mais livre do que eu...
(Escutar...)
Seu punho foi ficando cerrado sem uma
ordem consciente do cérebro. Ela não lhe dava mais tempo do que o necessário para
assegurar monossilabicamente que continuava a escutá-la.
— Por isso quis ser esquecida. Por isso
senti essa necessidade de ser deixada em segundo, terceiro, último plano. Mas
não num momento qualquer: eu queria que esse esquecimento se desse num instante
de suposta grande importância emocional, para mim. Num momento de tamanha
importância que as pessoas fossem se sentir extremamente culpadas por não ter
lembrado dele, mais tarde. Queria desse
jeito porque, quanto maior o nível de amor que eu deveria estar recebendo,
tanto maior seria minha sensação de liberdade, por ter escapado a ele. Ou
talvez eu só desejasse saber, pelo menos uma vez na vida, o que é me lamentar
por falta de carinho...
Nalgum sulco automatizado da mente, os
três verbos do manual continuavam sendo repetidos, mas só o primeiro deles era
de fato executado — e ainda assim de modo parcial, posto que sua atenção não se
concentrasse nas palavras atuais da desconhecida, mas no reflexo que as
anteriores haviam produzido em seu íntimo. Não, não compreendia como alguém
podia queixar-se por ser amado. Não conseguia se colocar no lugar de uma pessoa
que invejava o sofrimento alheio, que aspirava à infelicidade ou nela via qualquer
vestígio de libertação. Não aceitava que o excesso de afeto pudesse constituir
um problema. Não conseguia deixar de enxergar na atitude uma desprezível
evidência de que certos seres humanos sempre desejarão o que não têm, ainda que
esse “não ter” seja um vazio. A empatia, que outrora estivera prestes a se
manifestar, dera lugar a seu oposto, e ele odiou que aquela não fosse uma
conversa normal. Porque então poderia interromper o monólogo da desconhecida e
despejar-lhe a sua visão das coisas. Poderia contar que amanhã (ou hoje, passava
da meia-noite) era seu aniversário e ninguém de suas relações — aliás, nada
numerosas — dera o mínimo sinal de haver lembrado do significado que a data lhe
tinha. E não daria mesmo se ele usasse uma camisa com os dizeres “amanhã é meu
aniversário” estampados. Que sua vida era de tal modo infeliz que havia se
tornado voluntário do GRAV com o único intuito de relativizar a própria
desgraça, comparando-a ao desespero supremo dos que buscavam a ajuda do grupo,
como alguém que visita periodicamente o cemitério para sentir-se superior aos
que o cercam, só por estar respirando. Que não encontraria o sentimento no qual
a interlocutora afirmava viver imersa mesmo se cavasse por toda a extensão de
sua vida. E que, se ela houvesse terminado seu tocante relato, lhe desse
licença para desligar e ir para casa chorar sozinho na cama, lamentando-se pela
falta de carinho no dia de seu aniversário, bem como em todos os outros 364 do
ano.
Mas aquele não era um diálogo comum, era
uma relação de ajuda com nenhum protocolo a ser seguido por quem ligava e
vários a serem observados por quem atendia, e ele teve de continuar encurvado
em sua cabine, ouvindo sem escutar, entendendo sem compreender e assentindo sem
aceitar, pelo que lhe pareceram infindáveis minutos, o monólogo da desconhecida.
Até que várias partes de um enigma
emergiram e ele viu, por cima do ombro, as costas do voluntário que estava
substituindo desaparecer por uma porta, ouviu outro estouro, seguido de um
enérgico “Sssshhhh!”, a frase “ele já vai desligar”, proferida com paciente
esperança, o ruído de escape do gás de uma garrafa de refrigerante sendo
aberta, e compreendeu tudo. Entendeu o
que foram aqueles estouros durante todo o seu plantão, o entra-e-sai na cozinha,
a quantidade incomum de pessoas na casa; entendeu que os colegas voluntários e administradores
do posto do GRAV passaram o dia comprando bexigas, refrigerantes, fazendo
salgados, brigadeiros e um bolo, enchendo (e, eventualmente, estourando) balões
com o ar de seus próprios pulmões; por que ligaram urgente pedindo para ele substituir
o voluntário durante o plantão que se iniciava às 21hs e terminava à meia-noite
daquele dia; compreendeu que ocuparam a semana preparando tudo, e que no
momento em que desligasse o telefone, pegasse sua mochila e acendesse a luz da
sala para ir embora seria surpreendido por um grito de "surpresa!", e
abraçado e beijado e felicitado por todos os colegas (que por fim se sentiriam
no direito de ascender ao posto de verdadeiros amigos). Então, ali sentado com
a orelha colada ao aparelho, ele finalmente conseguiu cumprir a parte mais
difícil de sua missão como voluntário, porque pela primeira vez desde que
entrou no grupo escutou, compreendeu e aceitou tudo o que o outro lhe disse; pela
primeira vez em sete meses se colocou integralmente no lugar do interlocutor,
porque no fundo, como a garota, também adorava se sentir esquecido; que há algo
de inominável na perda súbita de uma solidão longeva, como se em todo náufrago
reintegrado à civilização existisse, latente, a esperança de voltar à ilha; que
o peso de ser lembrado, ser amado, ser considerado importante pelos outros lhe
será mais dilacerante que qualquer indiferença do mundo, e no momento em que a desconhecida
irrompeu em lágrimas, em silêncio, ele também o fez.
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"...nunca me
lamentava de terem esquecido a data de meu aniversário; as pessoas chegavam a
se surpreender, com uma ligeira dose de admiração, de minha discrição no caso.
Mas a razão de meu desinteresse era ainda mais discreta: eu desejava ser
esquecido para poder lamentar-me disso a mim mesmo. Vários dias antes da data,
entre todas gloriosa, que eu conhecia bem, ficava à espreita, atento para nada
deixar escapar que pudesse despertar a atenção e a memória daqueles com cuja
falha eu contava (não tive um dia a intenção de alterar um calendário?). Uma
vez bem demonstrada minha solidão, podia então entregar-me aos encantos de uma
tristeza viril."
- Albert Camus, A Queda
Certos textos deixam-me desconcertados de tão bons. Só posso dizer uma palavra: tocante.
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