quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ghost Ghost-Writer


Eu sempre ouvi dizer que hotéis de beira de estrada são os lugares mais inspiradores para quem escreve histórias de terror (qualquer coisa na misteriosa vida pregressa de certos hóspedes, acho, e que só permanece misteriosa graças ao costume suspeito de não exigir identificação), mas só então resolvera experimentar. Meu editor telefonara semanas antes cobrando originais e “amigável” não estava entre os adjetivos que poderiam descrever a conversa.
— Essa onda de thrillers ditados por espíritos está nos levando à falência! — dissera ele, em tom de quem cogita abandonar o barco. — E o pior é que, nas sessões de mesa branca organizadas lá na sede, nenhum deles aceita publicar conosco!
— Entendo — respondi, solidário. — Mas vocês já pensaram em tirar a cláusula sobre o contrato ser vitalício? Talvez isso os esteja afugentan...
— Mortalício.
— O quê?
— O contrato, no caso dos espíritos, é mortalício. E não podemos mudar, é a nossa única garantia de que o gado não procurará outro pasto quando engordar um pouco.
Por “gado”, “outro pasto” e “engordar um pouco” ele se referia, respectivamente, à “classe escritora no geral”, “uma editora maior” e “virar best-seller”. Essa posição meio hitchcockiana em relação aos profissionais da minha área me irritava, e acabamos discutindo outra vez. Entre ameaças mútuas de defenestração, ele encerrara a ligação prometendo que se os documentos não estivessem em sua mesa dali a no máximo oito dias, a próxima coisa que eu redigiria na vida seria meu próprio epitáfio. E ia ter de pagar a revisão sozinho.
            Não me deixei abalar. Agendei uma reunião com os burocratas da empresa, chefes de meu chefe, para explicar-lhes a necessidade de encontrar outra Dubai das idéias, metáfora para aqueles lugares onde a ficção é latente, e as histórias, ainda que em estágio embrionário, só precisam de rala escavação para brotar feito petróleo de solo árabe. Desde que entrara no ramo, minha Dubai fora o Cemitério de Santa Mônica, no centro, conquanto ultimamente não me sentisse mais à vontade para criar ali. “Esses túmulos moderninhos são frios demais, quase estéreis”, esclareci, bastante convincente. Era estranho pensar que durante tanto tempo havia extraído meu petróleo particular de gente morta e enterrada, elevando o conceito de combustível fóssil a um nível de humanismo com que sua versão tradicional só poderia sonhar. Num último esforço para salvar a antiga fonte, eu até cogitara transformar tal argumento num romance de realismo mágico, mas desisti por achar que a idéia era óbvia demais para ser original. 
Com o adiantamento no bolso e os prazos menos apertados, chegava a hora de pesquisar. Saber que tipo de lugar estava procurando foi essencial para conseguir a aprovação dos burocratas, que, confesso, não havia imaginado tão fácil. Velocidade similar teve a busca. Numa aparente alusão à Brasília, minhas fontes pareciam mancomunadas — lista telefônica, amigos e internet foram aos poucos apontando, como na bússola, para o norte: Hotel Miramato.
Situado no quilômetro 6 da BR 665 — o que fazia os teóricos da conspiração reproduzirem o “Uuuhhh!” que se segue à bola que raspa o travessão —, o hotel era um prediozinho esquecido num vasto tabuleiro de Banco Imobiliário. Ficara famoso quando Roger Morse, jovem poeta sofrendo de depressão e frustrado com a crítica a seu primeiro livro, dera um tiro na boca no hall de entrada, antes mesmo de pagar a diária. Como fosse fugitivo da polícia (atropelara duas adolescentes enquanto recitava trechos da Ilíada, dirigindo bêbado em sua jornada para matar todos os críticos literários do país), a notícia ganhara os jornais, e em pouco tempo o hotel convertera-se na Meca dos autores de terror com bloqueio criativo, dispostos a incorporar o espírito do colega falecido e produzir obras-primas do suspense gótico. À época, eu não soubera de nada por estar em Paris investigando originais secretos de Georges Perec para uma exegese definitiva. Ou pelo menos era o que se pensava na editora.
Todos que se hospedavam no Miramato com pretensões literárias, entretanto, saíam de lá misteriosamente desiludidos, o olhar vago, direto para o bar defronte, sugestivamente batizado de “Pronto, pronto”. Por motivos que preferiam esconder, nunca conseguiam terminar suas obras no local: “Estava indo tudo bem e, de repente, puf!” Quando perguntados sobre o significado exato de “puf!”, eram lacônicos, prometendo apenas jamais botar os pés ali outra vez. Alguns simplesmente começavam a chorar.
Eu, pelo visto, seria uma gloriosa exceção à regra. Não só sentia-me extremamente prolífico naquele quarto como concluíra, em tempo recorde, 12 dos 13 contos que pretendia compilar num volume intitulado “À Sombra do Cedro”: três dias. O quadro sobre a cabeceira da cama, por exemplo, inspirara “Por quem choras?”, sobre a suposta maldição envolvendo as 27 telas pintadas por Giovanni Brangolin entre os anos 70 e 80, retratando rostos perturbadores de crianças chorando. Já os corações trespassados que ilustravam o papel de parede serviram de mote para “As Vísceras”, a respeito de um homem bom e pacífico que começa a apresentar comportamento homicida após receber órgãos de um serial killer durante um transplante — “lembrai-vos de que, desde o Dilúvio, há uma demanda inesgotável por assassinos em série”, dizia um mandamento do gênero. E, finalmente, era ao pinheiro visível da única janela do quarto que eu devia o estalo que resultara no conto título da coletânea, narrando a laboriosa derrubada de uma castanheira solitária no centro de uma enorme charneca, em cuja sombra já haviam perecido boiadas inteiras, homens e até crianças, todos eletrocutados por raios ao buscarem abrigo do temporal iminente no local menos apropriado possível.
É, os espíritos escritores que se cuidassem...
Até ali, porém, o processo de criação não diferia muito do que costumava usar em Santa Mônica, a antiga Dubai: eram apenas aspectos triviais do ambiente circundante ganhando vida graças ao surto. A brainstorm, nesse caso, nada tinha a ver com a tão alardeada “aura sobrenatural” que impregnava o hotel. Reparando nisto (e também porque precisava urgentemente descansar os dedos e o cérebro), resolvi dar uma pausa. Queria que o último conto fosse especial. Salvei tudo o que digitara até ali num pendrive e fechei o notebook.
Liguei o abajur e deitei-me na cama, embora não pretendesse dormir. Estava decidido a esperar algum sinal vindo genuinamente de além-túmulo, tanto para encerrar o livro em tom documental quanto porque queria triunfar onde meus colegas haviam falhado, dando voz ao espírito perturbado de Roger, calado eterna, precoce e covardemente pela maldita crítica. Fiquei me perguntando se teria o mesmo efeito ofensivo comparar críticos a eunucos num harém e a diabéticos numa confeitaria.
Então a luz do abajur começou a piscar. A princípio tentei ignorar, mas aquilo me incomodou. Dei tapinhas leves na proteção. O problema persistiu. Como ainda não tivera minha epifania e a lâmpada no teto fosse forte demais para ser encarada daquele ângulo, relatei a falha ao serviço de quarto, pelo telefone (serviço de quarto num hotel de beira de estrada é meio como uma máquina de coca-cola em pleno Saara). Em minutos uma moça simpática, de uniforme azul todo rendado, apareceu com uma lâmpada nova, substituindo rapidamente a defeituosa. “Isso acontece muito com os escritores, nesse hotel”, comentou gratuitamente. Como não havia preenchido nenhum questionário na recepção, ficou implícito que tenho “escritor” tatuado na testa. Ela testou o aparelho, que voltara ao normal. Desculpou-se em nome do hotel e saiu.
Entregava-me novamente à digressão quando a perturbação luminosa voltou. “Mas que saco!” Com o braço a meio caminho do telefone na mesa-de-cabeceira, me detive, reparando numa coisa que de início julguei ser fruto de minha mente sobrecarregada: a oscilação agora parecia obedecer a um padrão fixo, com a lâmpada alternando de “acesa” para “apagada” ora bem depressa, ora mais devagar, repetindo-se o processo a intervalos regulares. Estranho. Esperei a ocorrência completar a quarta rodada sem qualquer alteração. Se não fosse ridículo, diria que o abajur estava tentando enviar uma mensagem por...
— Código Morse! — e saltei da cama como quem encontra uma cobra escondida sob o edredom.
Jesus, como não pensara nisso antes?! Que melhor jeito para Roger se comunicar com os vivos senão através do sistema que levava seu sobrenome? “Acontece bastante com os escritores”, dissera a empregada. Só podia ser isso! Não entendendo a “língua” de que o espírito se valia para conceder-lhes a tão almejada inspiração, os ficcionistas acabavam desistindo de terminar suas obras no hotel!
Procurei papel e caneta na gaveta da cômoda. Por sorte, conhecia o código desde a 7ª série, quando a proliferação dos monitores de classe alcagüetes obrigara o resto da turma a buscar formas alternativas de traficar cola durante os exames. E o diretor dizendo que a gente devia se envergonhar...
O abajur seguia repetindo sua mensagem intermitentemente. Com mãos trêmulas e incapaz de manter os pêlos da nuca paralelos a ela, comecei a converter os sinais luminosos em pontos e traços. Ao concluir a tarefa, a oscilação parou de repente, como se a lâmpada tivesse enfim decidido permanecer acesa. No papel, meu mapa da mina cifrado cintilava:
Jó 8:19

“Jó 8:19” Agora que o calafrio cessara, eu voltava a ser inundado pelo fascínio que me fizera optar por aquele gênero literário. Sim, o terror. Poucas emoções são tão representativas da condição humana quanto o medo da morte, ou do que nos espera além dela. Pela primeira vez em muito tempo, desejei não ser agnóstico e carregar uma bíblia na mochila. Convenientemente, o hotel possuía um pequeno acervo de livros no térreo, especialmente reunido, segundo li na internet, para eventuais pesquisas dos profissionais que mais lhe rendiam lucros. Excitado, tranquei tudo antes de descer. Agora o último conto prometia ser o melhor, com provável imersão total do autor na trama. Talvez até me obrigasse a rebatizar a coletânea e acrescentar um subtítulo chamativo: “mais ou menos baseado em fatos reais”...
Conhecia vagamente o livro de Jó. Era o sujeito a cuja história os fiéis recorriam sempre que confrontados por aquela pergunta espinhosa, a “Se Deus é incondicionalmente bom, por que coisas terríveis acontecem a gente inocente?” Enquanto descia as escadas de três em três degraus, imaginava que, dependendo do que fosse encontrar em 8:19, haveria mil e um jeitos de encaixar o argumento da aposta de Deus com o Diabo num conto escatológico, quem sabe mesmo num romance à parte. Ou aquilo era apenas o ponto de partida para uma frenética caça-ao-tesouro? Tanto melhor!
Não foi difícil encontrar a bíblia na minguada coleção do Miramato. A edição clássica, encadernada em couro marrom e fechada a zíper, destacava-se das obras surradas como uma ervilha boa numa vagem apodrecida. A tremedeira reassumindo o controle das mãos, folheei ainda de pé até encontrar o trecho. Li-o aos sussurros, temendo repartir minha glória com qualquer outro hóspede:

“Eis onde termina teu destino,
mas outros como tu germinarão do solo.”

Reli a passagem cinco vezes sem entender. Parecia a reviravolta de um thriller policial que fizera sucesso há alguns anos. E, como no tal filme, o sentido da mensagem só tornou-se cristalino na sexta tentativa. A compreensão cedeu lugar à raiva, que, por sua vez, foi substituída pelo desespero: saí em disparada rumo ao quarto, rezando para que houvesse cometido um terrível engano. Devo ter derrubado umas duas camareiras no caminho.
Infelizmente, como a maioria das primeiras intuições, a minha se revelou acertada — o pendrive e o notebook ainda estavam lá, mas todo o esforço intelectual dos últimos três dias simplesmente desaparecera. Não adiantou pressionar Ctrl+Z até os dedos calejarem.
Nada de contos.
Nada de textos.
Puf!
***

Sentei-me com certa dificuldade ao balcão da taberna defronte ao Miramato. Não entendi a pergunta do barman.
— Como assim, “a de sempre”? Eu nunca vim aqui.
— Não estou falando de bebida — esclareceu ele. — A história de sempre. Veio ao hotel atraído pela promessa de inspiração fácil, teve um surto criativo que o fez escrever três quartos do livro em tempo recorde, o espírito do Morse o atraiu para longe do computador, máquina de escrever ou valise cheia de originais e levou todo o seu trabalho embora?
O olhar que lhe lancei devia encapsular toda a desconfiança do universo.
— Quem te contou...
— Olhe em volta, amigo — cortou ele, sorrindo. — Isso aqui está cheio de gente como você.
Era verdade. Um autor frustrado reconhece outros, quando os vê. Olheiras profundas, citações com o pronome no lugar errado, a expressão melancólica de quem chegou a sentir o gosto do Nobel — um Jabutizinho que fosse! — na ponta da língua. Como tanta gente culta podia ter sido passada para trás pelo maldito espírito de um jovem de quem um dia havia sentido pena?
— É o golpe perfeito, não? — prosseguiu o barman. — Como, dentro do hotel, vocês costumam escrever tudo de uma só tacada, não têm tempo de registrar a obra, inviabilizando processos futuros por plágio. O que me revolta, rapaz, é saber que esse filho-da-mãe se matou por causa da crítica e vem descontar nos próprios colegas de profissão!
Aí eu me indignei.
— E por que ninguém nos avisa antes, cacete?!
O barman sorriu.
— Sinceramente: você daria bola?
Não respondi.
            — Mas relaxe, que a tendência é piorar. Aliás, seu original era de contos ou romance?
— Contos.
— Então vai acontecer depressa. Ele costuma demorar com os romances, tem de bolar um final convincente etc.
O que vai acontecer depressa?
O empregado fez cara de médico que vai anunciar morte na família alheia.
— Daqui a dois meses, no máximo, você vai entrar numa livraria e encontrar a sua obra publicada com o seguinte adendo: “Ditado pelo espírito de fulano de tal”, e pensará que esse fulano de tal é um pseudônimo inventado pelo próprio Morse. Mas não é. É o nome do espírito para o qual o espírito do Roger vendeu o seu original.
— Ent-tão o Roger é...
— Um ghost ghost-writer, exatamente. São dele, por assim dizer, os thrillers de suspense que andam fazendo tanto sucesso ultimamente.
Pensei em dar um soco no balcão, subir-lhe em cima e convocar todos ali para processarmos os espíritos por falsidade ideológica, formação de quadrilha e plágio, mas desisti: soava absurdo até na minha mente. Sem saída, caí no choro.
— Pronto, pronto — consolou o barman, fazendo propaganda involuntária.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

1 de 9 Trilhões


Cedendo aos apelos do estômago, Pedro foi até um trailer-cantina ali perto para comprar dois salgados e uma coca. Degustou-os apressadamente, atento às pessoas no calçadão, que, conquanto ele não soubesse, estava anormalmente vazio naquele dia. Dado o horário, o banco de Drummond só não virara uma chapa tórrida porque o céu seguia nublado.

— Cara, eu preciso maneirar nos gastos. Consegui a grana pra essa viagem servindo de cobaia num laboratório dermatológico lá da minha cidade. Eles estão testando um novo tratamento de acne, por via oral. Ter a cara cheia de espinhas nunca me foi tão útil.

Esse lance de ser cobaia remunerada é proibido no Brasil. Tive que assinar uma montanha de papéis isentando o laboratório de culpa, caso eu morresse por causa dos comprimidos. (Fico pensando em quem assina a papelada dos ratos.) Também me deram esse pager, para as emergências, e um bloco de notas. Devo escrever, de um lado, os benefícios notados, e, do outro, os efeitos colaterais. Preciso voltar lá toda semana por causa dos testes, o que é meio estranho, pois eu posso estar no grupo do placebo. É, eles dividem as cobaias em dois grupos: um recebe o medicamento verdadeiro, o outro só pílulas de farinha. Antes eu achava que o grupo que apresentasse os melhores resultados tinha o comprimido lançado no mercado, independente de ser a droga ou o placebo. Fazia todo o sentido creditar à farinha as melhoras milagrosas que a medicina injustamente atribui ao mítico efeito psicológico. Mas foi bom mesmo que eu estivesse errado. O preço da mandioca iria às alturas... 
 
Falando nisso, na sétima série eu tive um colega com uma disfunção estranha. Chamava-se “Situs Inversus”. A disfunção, não o meu colega. É quando os órgãos situam-se em lugares trocados dentro do corpo. Os rins dele, por exemplo, ficavam onde deveriam estar os pulmões, que desceram um pouco para dar espaço. A situs inversus é raríssima. Começamos a desconfiar porque ele era o único a cantar o hino nacional com a mão no lado direito do peito, mas a confissão só veio depois que o flagramos tapando os ouvidos ao espirrar. Coitado, a turma não largou mais o pé dele. Ser meio bochechudo só piorou as coisas, e a família até precisou tirá-lo do colégio quando uma charge que o mostrava massageando as bochechas depois de levar um chute no saco começou a circular.

Essa hostilidade toda me fez pensar na relatividade das coisas. O que nos dá a certeza de que o normal é ter o coração do lado esquerdo? Quem garante que os portadores de situs inversus não são como Deus queria a espécie, e o resto da humanidade a verdadeira aberração? A droga da maioria, Drummond. Aceitar que o grupo em vantagem numérica precise ser tratado por “exceção”, em vez de “regra”, é admitir que Deus (ou a natureza, sei lá) não dá a mínima pra gente — vai ver até beba em serviço. Seria preciso reescrever toda a literatura médica (sem falar na literatura mesmo, nas pinturas de são Sebastião e, céus!, na música sertaneja); produzir, em vez de hormônios do crescimento para os anões, hormônios do rebaixamento para as pessoas altas; no lugar de drogas tarja preta para os loucos, alucinógenos tarja psicodélica para os sãos; rever conceitos, adaptar o mundo e as mentes à nossa nova condição de vítimas. E isso dá preguiça. Não somos saudáveis por natureza, mas por conveniência e maioria de votos. 

Falei em Deus agora. Por favor, não pense que sou desses que usam uma simples vitória na sena acumulada para justificar sua existência ou bondade. Tampouco daqueles que se valem de uma mísera hecatombe natural para alegar sua inexistência ou sadismo. (Até porque chamar Deus de sádico é um anacronismo terrível, pois, salvo ridícula ignorância cronológica, Deus é um pouco mais velho que Sade.) Não, prefiro o macio terreno intermediário. Agnóstico, isso aí. Mamãe diz que o agnosticismo é o equivalente religioso da bissexualidade, mas optarei por uma analogia menos vulgar.

A consciência, para mim, é como uma daquelas salas de interrogatório dos filmes, na qual me encontro absolutamente sozinho. Fora a cadeira, a lâmpada e a mesa, há um espelho que ocupa toda a metade superior da parede norte (o ponto cardeal é simbólico). O que eu fizer nesta sala pode estar sendo observado e julgado por alguém que se esconde atrás do espelho, como as testemunhas oculares dos crimes... Ou não. Talvez esse espelho encerre uma metáfora ainda mais engenhosa e literal, querendo dizer que “a única criatura a observar-te aqui é tu mesmo, burro”. Só que minha capacidade de averiguação esbarra nas limitações sensoriais, pois não possuo visão de raio-X nem força suficiente para quebrar o vidro. (Como vê, o Super-Homem não se encaixa muito bem na minha alegoria. Aliás, se encaixa sim: ele é um niilista.) Mas isto não significa que vou mostrar a bunda para o espelho ou ficar bajulando o suposto observador, nada disso. Equilíbrio sempre. Certo, talvez eu mostre meia nádega, um dia, só de tédio. 

A verdade é que o agnosticismo foi a única maneira que encontrei de me opor a meus pais na questão da espiritualidade. Mãe católica, pai ateu, já viu: só me sobrou o alto do muro. O curioso é que papai nem sempre foi incréu, sabe? Bem ao contrário, aliás: costumava superar mamãe em carolice, era desses que levam até as entrelinhas da Bíblia ao pé da letra. Vivia tendo pesadelos em que um arqueólogo holandês descobria um documento intitulado “Nota de abertura à primeira edição do Pentateuco”, que começava assim: “Este livro é uma obra de ficção. Quaisquer semelhanças...” Então acordava chorando e rasgando o lençol, em vez do documento. Até que um dia...

Um dia, na volta do serviço, ele achou um livrinho que alguém esquecera sobre o banco do ponto de ônibus. Não conseguiu pronunciar o nome do autor. Nem o da obra. Pensou “Imagine o conteúdo!”, e enfiou-a displicentemente no bolso da camisa. (Engraçado, as edições de bolso nunca cabem nos meus. Tampouco o preço delas.) Deu-se que, no trajeto de volta, um cara inventou de assaltar o ônibus, sem perceber que havia dois policiais entre os passageiros. Houve tiroteio. Meu pai foi atingido no peito, e só não morreu porque a bala ficou detida entre as páginas do livrinho. E como tratava-se de Ecce Homo, do Nietzsche, o velho não teve outra saída senão converter-se. Ou melhor, desconverter-se. Até hoje cultiva o bigode. 

Agora, o senhor sabe daquela conversa sobre todo ateu se arrepender no leito de morte, né? Não sei se com papai será assim. As pessoas exageram, também. Lembro de um folheto religioso que recebi certa vez, compilando declarações de ateus famosos que supostamente renunciaram à descrença na hora da morte. Orwell, Coleridge, Beckett, o próprio Nietzsche. Havia coisas realmente chocantes. Consta que o semiólogo heresiarca Herbert Finley, por exemplo, teria berrado aos céus “Estou queimando! Alguém me salve destas brasas!”, numa clara referência às chamas do inferno. O fato de ele ter morrido na fogueira não pareceu interessar aos redatores. Outro mistério é saber quem coletou as palavras finais da arqueóloga Catherine Armstrong, que estava sozinha ao ser tragada por uma tempestade de areia na Tunísia, e nunca teve seu corpo encontrado. Mas essas omissões seriam só um leve arranhão na credibilidade do folheto, não fosse a última frase (“Oh, como eu desejava não ter fumado o apocalipse...”), atribuída ao roqueiro Philip MacDowell, que, como se sabe, está vivo até hoje.

Os supersticiosos costumam atribuir muito significado às palavras finais das pessoas. Vá lá, tem até certa lógica jurídica imaginar que tudo o que dissermos nessa hora poderá ser usado contra nós, ou a nosso favor, às portas do paraíso. (Os prisioneiros crucificados ao lado de Jesus que o digam.) 

Mas o que eu não suporto é gente envolvendo a menor bobagem numa aura de premonição que, além de forçada, é ridícula. Sobre um cara que, antes de morrer, telefonou para a esposa assegurando que “a montanha-russa é totalmente segura”, só faria sentido dizer “Parece que ele estava adivinhando” se o sujeito fosse o rei da ironia. Sobre outro cuja frase derradeira foi “Ligue o ventilador para dispersar esse cheiro de gás!”, se fosse suicida. Por isso eu admiro aquela espécie de suicida que, além de tecer uma crítica inconsciente a tais crendices, possui suficiente presença de espírito para saltar do décimo quinto andar e ter como brado final apenas o bom e velho “Jerônimo!”

Engraçado, há vários relatos de ateus que viram religiosos no leito de morte, mas nenhum de religioso que torna-se ateu nas mesmas circunstâncias. Provavelmente porque o sujeito não tem nada a ganhar, além do arrependimento pelas horas que gastou rezando. Mas não custa imaginar a cena...

— Doralice, vai chamar tuas irmãs que teu pai tá morrendo e quer falar com a família.

Lágrimas, correria, apostas sobre quem consta do testamento.

— Pronto, pai, estamos todas aqui. O que o senhor queria dizer?

O velho percorre cada rosto choroso em volta da cama, como um ventilador, antes de declarar:

— Deus não existe.

— O quê?

No mesmo tom desdenhoso, ele repete:

— Deus não existe.

Tumulto, incredulidade, perturbação.

— Mas o que é isso, pai? O senhor, sempre tão religioso, falar uma besteira dessas? E logo agora?!

— O senhor, que até dormindo pregava a Palavra?

— O senhor, que deu a todas nós nomes bíblicos?

— Epa, menos eu — lembra Doralice, que também é a caçula. Pela primeira vez em 8 anos, a questão paira no ar: “É mesmo, por que a Dora não tem nome tirado da Bíblia?” 

— Já devia ser um sintoma inconsciente da minha desilusão futura. — explica o velho. — Acabei de ter uma epifania. Ou a falta dela. Não há nada do outro lado. Nada, ouviram? Nem purgatório, nem céu, nem inferno. Nem Deus, nem Diabo. É simplesmente como dormir sem sonhar. Uma chatice só. Chamei vocês aqui para registrar meu arrependimento. E alertá-las: jamais deixem de fazer qualquer outra coisa por causa do culto, salvo roubar, mentir e matar, que a moralidade não tem nada a ver com isso. Jamais, entenderam? Se fosse possível depositar num banco de horas o tempo que perdi, eu deixaria pra vocês junto com o resto, mas não é. Então fica o conselho: passem longe das igrejas.

As irmãs se entreolham sem acreditar. Está delirando. É isto! Aconteceu com Santo Agostinho. Aqueles são os estertores finais de uma mente religiosa em colapso. Estertores hereges, ironicamente.

— Calma, pai, o senhor está muito debilitado, não tem noção do que diz. Tenho certeza que Javé perdoará essas blasfêmias e...

— Não fala esse nome perto de mim!

— “Blasfêmias”?

— O outro.

— “Perdoar”?

— Não!

— Qual?

— Javé! Javé!

E neste momento o velho tem um ataque, morre e só se salva porque suas últimas palavras foram um dos 9 trilhões de nomes de Deus.
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Sexto capítulo de um despretensioso romance incompleto. Um dia eu termino. Ou não.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Afluente Imaginário*

Há uma passageira do ônibus que faz a rota 607, Parque Atalaia-Centro, por volta das 16h20, que muito me intriga ou fascina. Não sei ao certo quando comecei a reparar nela – é um desses hábitos que a gente só se dá conta de ter ao ser impedido de praticar, como quando tentamos alisar o cavanhaque recém-raspado. A observação constante, embora dissimulada, permitiu-me formular algumas teorias sobre sua vida fora dali.

Do privilégio de poder escolher sempre o mesmo banco (o penúltimo do lado direito, encostado à janela), deduzi duas coisas: que ela mora próximo ao ponto de partida do coletivo e é obsessiva em algum nível. Defronte ao assento pelo qual invariavelmente opta há um espelho, e eu também teria inferido daí que é vaidosa ou narcisista. Um fato, porém, advogou o contrário: quase tão imutável quanto a localização de minha colega é sua concentração nas páginas do livro que estiver em seu colo.

No início talvez fosse a mera empatia que se costuma sentir por quem compartilha conosco um hábito querido. Também havia a curiosidade sobre o título da obra (cuja capa, por embarcar depois da leitora ter aberto o volume e desembarcar antes que ela o fechasse, eu nunca via). De pé a seu lado, penso ter identificado três ou quatro vezes um que outro trecho familiar, e, ao menos em uma ocasião, palavras redigidas num idioma que ignoro. Não que me esforce muito neste sentido. A relação estabelecida entre mulher e objeto emana uma cumplicidade na qual não vale a pena se intrometer espiando por cima do ombro. 

 Só num ponto do trajeto o solipsismo se interrompe. Antes e depois dele, a impressão que se tem é que o mundo em volta pode mergulhar no mais completo caos que a concentração da leitora não sofrerá o menor abalo. É também a terceira coisa invariável a respeito dela: quando o ônibus começa a travessia da ponte sobre o Rio Coxipó, sua cabeça, como que impelida por uma mão invisível, desvia-se das páginas para contemplar, durante seis ou sete segundos, o espetáculo das águas que um débil trecho de mata emoldura. Findo o instante, torna a submergir no oceano de papel, e dali não sai, suponho, até o fim da viagem.

Esse gesto maravilha-me de tal modo que quase sempre prefiro apreciá-lo a observar o rio. Superficialmente, parece implicar o triunfo do fato sobre a ficção, da realidade sobre o sonho, da vida sobre a descrição da vida. Mas é possível vislumbrar em seu cerne quase o oposto: o quão pouco falta para que o imaginário se equipare ao real em todos os aspectos. Ou, para usar a metáfora de Schopenhauer, o quão pouco falta para que se tome consciência de que realidade e sonho são páginas de um mesmo livro, e que optar por um não significa desprezar o outro. Essencialmente, nada no trajeto do Parque Atalaia-Centro muda — mas o afluente é a única coisa que continua a merecer a preciosa atenção da leitora. Há, em tal atitude, a sugestão de que nem com o olhar se mergulha duas vezes no mesmo rio. 

Ignoro o que a paisagem significa para ela, naturalmente. Pode ser que tenha perdido um irmão ou amigo naquelas águas, e o ato de olhá-las não passe de uma reverência póstuma, quase instintiva, como os cristãos que se benzem ao passar por uma igreja. Nem a melancólica hipótese de luto, contudo, invalida o encantamento. Independente do motivo, a olhadela de 7 segundos é o respiradouro pelo qual o universo dito palpável se infiltra na fantasia dita imaterial da leitora. O mundo a distrai do livro porque o livro a distrai do mundo. Aquele ônibus é palco do embate entre duas rotinas que, de algum modo, se anulam e se completam.

De meu lugar, antevejo a tarde em que a passageira não mais cumprirá o ritual. A ponte começará, continuará e terminará e seus olhos não se fixarão na paisagem sob ela. Será um dia muito alegre ou muito triste. Há de se admirar a história que a fez declinar ou esquecer do velho hábito. Tanto mais caso o fragmento lido no instante exato da travessia for a descrição de um rio avistado de sobre uma ponte. Nesse dia, quando a contemplação do afluente imaginário tornar dispensável visualizar o real, o escritor terá enfim ombreado com Deus.

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*Não aquele Afluente Imaginário, Martha.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Salvos Pela Ignorância

O Ricardinho só impunha uma condição para continuar comparecendo aos encontros periódicos da velha turma: que não tirassem fotos dele. Desde que chegara à escola, no longínquo 1º ano do ensino médio, misteriosamente expulso do colégio anterior, era a mesma coisa. Começou com avisos tímidos durante as festinhas de classe, não sou fotogênico, sabe como é. Mas dera o azar de nascer justo na época em que até walkie-talkies feitos com latinha e barbante têm câmera embutida, de sorte que foi preciso esmagar três celulares e dois narizes para seus apelos serem levados a sério. Percebendo que a desculpa inicial parecia pouco para justificar tamanha reserva, sem contar a violência, ele assumira uma postura teórica mais elaborada: se não detivesse nem os direitos sobre a própria imagem, sobre o que deteria, pombas?

Aos poucos, com aquela tolerância à excentricidade que só encontra solo fértil neles e nos parentes próximos, os amigos foram se acostumando. Afinal, apesar de intelectual, o Ricardinho era um cara divertido, companheiro leal e, desde que mantido longe dos flashes, pacífico até. Se o preço para tê-lo no grupo era precisar abrir o empoeirado álbum de formatura — dali a, sei lá, 40 anos — e lembrar-se vagamente que estava faltando alguém entre os rapazes, embora ninguém soubesse direito quem, eles se dispunham a pagá-lo. As alusões à sua obsessão sequer eram vetadas durante as reuniões.

— Duas coisas nesta vida ninguém haverá de ver: do bacalhau, a cabeça, e do Ricardinho, o RG — recitava Rafael, o poeta menor (em relevância e estatura) da turma. Ricardinho só fazia aplaudir, mas sempre como quem completa o poema: “tentem só, para ver”.

Ultimamente, porém, vinha ressuscitando no grupo uma desconfiança sobre a velha fobia do Ricardinho. Começou quando, à mesma mesa, no mesmo bar, a Mônica tocou numa questão jamais esclarecida.

— Não acham estranho ele nunca ter contado por que foi expulso daquele primeiro colégio?

— Bem, a tese mais forte ainda é a de brigas por fotos tiradas sem licença — lembrou o Alex.

— É, mas a diretora do nosso colégio disse que não poderia expulsá-lo pelos narizes quebrados, já que todos sabiam que ele tinha pavor de fotografias, e seus pais só foram obrigados a pagar os celulares — contrapôs o Rodolfo.

— Ainda se fosse feio, vá lá... — observou a Camila. Houve divergência.

— Vai dizer agora que ele é bonito, pô?

— Pode até não ser, mas não tem uma ruga!

Era verdade. Se havia alguém na turma que não fora reduzido — seja por festas, bebidas, parceiros errados ou tudo isso junto — a um arremedo patético do que já fora na adolescência, era o Ricardinho. Dava inveja constatar como o desgraçado conservara todos os cabelos, a barriga reta e o viço da pele. Suspeitíssimo.

— E aquele maldito livro que ele carrega para todo lado? — atalhou a Camila, querendo poupar a auto-estima do grupo.



— Pois é — disse o Rafael, pensativo. — Toda vez que alguém pergunta sobre a real origem do medo, ele dá uns tapinhas no livro e diz que sofre de uma versão modernizada da mesma maldição que aparece na obra. 

— Pô, Rafael, tu que é poeta não sabe que livro é?

Rafael deu de ombros:
— O título está apagado demais e, pela cor da capa, não faz o meu gênero.

 — O livro não é importante — cortou a Mônica. — Deve ser só um blefe do Ricardinho para desviar a atenção do verdadeiro problema. O que a gente precisa é bolar um jeito de descobrir o que ele esconde sob esse papo de “direitos de imagem.”


Combinaram a ação para o fim de semana seguinte. Chamariam o Ricardinho para um churrasco casual na casa da Mônica, onde a turma toda posaria para um retrato caricatural feito por um conhecido cartunista, amigo do pai da moça.

Ouviu, Ricardinho? — disse Camila ao convidá-lo, fazendo gestos exagerados, como a explicar a tabuada do 7 a uma criança. — Um retrato caricatural, desenho, grafite sobre tela. Nada de câmeras digitais, celulares nem polaróides.

Primeiro Ricardinho ficou teso, depois pensativo e por fim concordou.

— Mas tem uma condição — ressaltou.

— O quê?

— O desenho vai ficar comigo.

— Por quê?

— Preciso me certificar de uma coisa...

Durante o churrasco, tudo correra bem. A dificuldade veio na hora da foto, quando precisaram acomodar os convidados mais alterados no banco do coreto que havia nos fundos da casa da Mônica, de modo a tornar a farsa convincente para Ricardinho, muito tenso em seu lugar de destaque. O tal famoso cartunista (na verdade, Rodolfo disfarçado) só precisou de alguns segundos para acionar várias vezes a câmera profissional embutida em sua tela, enquanto fingia ajustar o tripé. Sem barulho nem flash, o plano sairia perfeito, não fosse por um tio embriagado da anfitriã que, desejoso de ver “como estava ficando o rabisco”, acabou atrapalhando o fotógrafo e revelando tanto sua identidade quanto a armadilha. Ricardinho ficou furioso.

— Rodolfo, me dá essa câmera! — vociferou, a ameaça transbordando de cada sílaba. Mas Rodolfo saíra correndo, metade do bigode fajuto ainda pregado ao rosto, montara na moto e desaparecera cantando pneus. E não à toa os amigos o haviam incumbido da tarefa: o rapaz era piloto de motocross nas horas vagas. Mesmo se quisesse, Ricardinho jamais o alcançaria.

Mas ele não quis. Todos ficaram bastante apreensivos com sua próxima reação — somada à consciência da traição, a velha violência podia voltar ainda mais forte. Cada um correu a se agarrar ao cabo de enxada mais próximo. Ricardinho, porém, apenas exclamara vagamente:

— Vocês não compreendem...

E deixara a casa da Mônica aos prantos.


Ainda estava chorando quando chegou à própria residência. Só então lembrou-se de outro erro fatal: deixara o livro sobre o banco do coreto. Se, apesar das fotos, houvesse qualquer esperança de os outros continuarem ignorando sua real condição, o esquecimento da obra arruinava tudo — só precisariam saber o título para somar dois e dois. Droga! Não fosse pela maldita curiosidade em descobrir se sua praga estendia-se também a desenhos caricaturais, devia ter desconfiado da encenação. Por tudo na vida, não queria punir os amigos, embora soubesse não haver outro jeito. Ficou inconsolável durante horas.

Então o telefone tocou. Uma, duas, três vezes. Não deu atenção. Quando a chamada finalmente caiu na caixa de mensagens, a voz angustiada de Mônica encheu a sala:

Ricardinho?! Alô, Ricardinho?! Se estiver aí, atenda, por favor! Nós cometemos uma tremenda injustiça com você! O Rodolfo acaba de mandar as fotos por e-mail. (Não se preocupe, ninguém mais ficou sabendo.) Poxa, a coisa estava na nossa cara o tempo todo! Você tem um tipo avançado de fotofobia, não é? É hiper sensível à luz, ou a alguma outra coisa que as câmeras emitem, já que a do Rodolfo nem tinha flash... As feridas que aparecem no seu corpo e rosto quando tira fotos, meu Deus... Estávamos tão ocupados achando que você fosse querer bater em todo mundo que nem notamos as chagas durante a confusão, embora o meu tio afirme ter visto mesmo uns machucados feios aí... Olha, a turma está fazendo uma busca pelos hospitais da região para te achar, se ouvir esta mensagem, nos procure, por favor! E seu livro ficou aqui, guardamos pra você... Ah, amigo, eu armei tudo isso, estou tão arrependida...

Ricardinho não podia acreditar. Fotofobia? Então eles haviam chegado àquela conclusão? Nem mesmo Rafael, o poeta menor do grupo, conseguira juntar os pontos? Seria possível que ninguém ali sequer ouvira falar na história do livro que carregava consigo por toda a parte, como um talismã, durante os últimos 19 anos? Os amigos haviam mesmo sido salvos pela própria ignorância?

Estava certo. A turma nem desconfiava da verdade e, exceto pelo fato de as alusões à “doença” terem cessado, e que agora todos o viam com uma pontinha de pena, voltaram às boas. Pouco a pouco, o incidente no coreto foi desvanecendo-se no passado, como uma mancha de vinho que reluta, mas acaba saindo.

O Ricardinho só reza para que nenhum dos amigos jamais leia O Retrato de Dorian Gray (que, aliás, nunca mais levou às reuniões). Porque, se isto acontecer e a turma finalmente desvendar seu segredo, ele terá de matar todo mundo.

E esse negócio de procurar novos amigos já está ficando chato.