terça-feira, 19 de outubro de 2010

Os Ladrões de Biblioteca

Ao contrário do que a imprensa sensacionalista não tardaria a alardear, a inspiração para criar o grupo não partira de Robin Hood, mas da própria necessidade. Quando a biblioteca local decidira simplesmente parar de emprestar livros (numa época em que, graças às recentes adaptações cinematográficas, a procura por certas obras só fazia crescer), imaginou-se que haveria apenas protestos tímidos, logo eclipsados pela passagem corrosiva do tempo. Nada que se comparasse à ousadia daqueles leitores indignados.

Dada a falta de experiência, a primeira ação fora, precisavam admitir, mal organizada e pessimamente executada. Embora houvessem conseguido a cópia da chave mestra com uma bibliotecária aliada, não tinham prioridades, ignoravam que as luzes internas só podiam ser ligadas às 7h da manhã e muitos acabaram não comparecendo, o que despertou nos presentes o temor da traição. No escuro e com medo, agiram de forma apressada e nada silenciosa, só se atrevendo a verificar o saldo da empreitada quando já estavam a um bom número de quadras do local, sob a luz amarela de um poste: sete volumes, entre enciclopédias e obras em braile.

— É como assaltar uma loja de sapatos de grife e só levar os pés esquerdos! — revoltara-se uma estudante de Letras. Todos concordaram.

A especialização, no entanto, viria com a prática. Para os assaltos seguintes, levavam lanternas, decidiam previamente qual seria o foco (se literatura russa ou alemã, por exemplo) e certificavam-se de que ninguém daria para trás, submetendo os novos membros a testes básicos cujo objetivo era dividi-los em níveis de amor aos livros — “Qual o grau de parentesco entre o Érico e o Luis Fernando?”, “Complete o seguinte verso drummondiano: ‘No meio do caminho havia uma...’ a) Pedra b) Moeda de 400 réis c) Tartaruga Virada d) Lombada” etc.

O acervo do estabelecimento foi diminuindo perceptivelmente. Desconfiados, os coordenadores instalaram alarmes ópticos em todas as saídas. Como os delitos continuassem, foram obrigados a deduzir que a coisa vinha de dentro, trocando o quadro de funcionários e contratando leitores assíduos para vigiar disfarçadamente os novos empregados.

A medida seguinte — substituir as fechaduras — até daria certo, não fosse por sua antecessora. Quatro dos cinco espiões contratados eram na verdade agentes duplos, leais à causa VRDB (de “Verdadeiros Ratos de Biblioteca”, como a quadrilha se autonomeava). Quando alguém das internas sugeriu que voltassem a emprestar os livros, pelo amor de Deus, já era tarde: tiveram de fechar por falta de acervo.

Insaciável, o VRDB decidiu conquistar outros mares, e, de caso isolado, os assaltos a bibliotecas viraram epidemia. Transferidos para estabelecimentos distintos, os três vigias e a funcionária das chaves ampliaram o leque de ação dos ladrões. No começo, tinham consentido em roubar apenas de lugares onde não era permitido emprestar livros, salvo livrarias, sebos e afins, que escritores e comerciantes precisavam se sustentar. Mas não demorou até invadirem bibliotecas escolares e universitárias, justificando-se com post-its do tipo: “Não à multa por atraso!” e “Quem consegue ler Guerra e Paz em 7 dias?”

A comparação com Robin Hood surgira quando descobriu-se que, ao contrário dos boatos correntes, o grupo não revendia as obras furtadas (mesmo as de grande valor) em bazares, sebos etc. Fazia, vejam só, questão de redistribuí-las nas favelas, periferias e bairros onde não houvesse acesso a elas, democratizando os clássicos e disseminando o gosto pela leitura. Num efeito dominó natural, os volumes jamais ficavam acumulando poeira nas estantes, sendo passados adiante tão logo chegava-se à última página. “Livro gasto é livro lido”, pregava o VRDB. “Comparam-nos a Robin Hood, embora o que estejamos dando ao povo seja muito mais valioso que dinheiro!”.

Nesse ponto, havia discordâncias.

Ganharam fama depressa. Deles dizia-se que, se existissem desde os tempos antigos, aquela tragédia em Alexandria nunca teria ocorrido. As provas para recrutar novos membros eram agora concorridíssimas, com testes complexos que incluíam da descrição pormenorizada da planta dos três maiores acervos literários do mundo, até gincanas histórico-filosóficas para descobrir onde se dariam os próximos assaltos. Cursinhos preparatórios clandestinos proliferavam anunciando “Seja um rato você também! Primeira semana de aulas grátis!”

Para o VRDB, o céu era o limite — ou a biblioteca do congresso americano.

Corroborando a previsão de vários especialistas, com o tempo o nível intelectual da população foi crescendo. Kafka, Augusto dos Anjos e Dostoievski estavam na boca do povo. Discutia-se as grandes distopias como outrora discutia-se o futebol, à mesa do bar. Os pais que ainda se atreviam a contar velhas fábulas para os filhos pequenos à hora de dormir eram enxotados do quarto sob gritos de “Proselitismo burguês! Proselitismo burguês!” As pessoas não apenas sabiam distinguir o Álvares do Aluísio, como liam Quevedo no original.

As autoridades, contudo, não estavam gostando daquilo. Já vinham sendo pressionadas a atuar energicamente desde a vergonhosa pichação na sede da ABL (“Imortal, aqui, só o jabá”), sem falar nos estudantes de biblioteconomia, com sua total falta de perspectiva profissional, e na classe educadora, que não suportava mais escutar a palavra “autodidata”.

Mas foi em ano eleitoral que a coisa atingiu o ápice.

O primeiro fardo coube aos redatores. Tinha-se tornado bastante incômodo elaborar discursos de campanha cada vez mais complexos, dada a elevada instrução das massas, que enxergavam “pão e circo” na menor referência à distribuição de cestas básicas ou reforma de ginásios poliesportivos, além de bradarem algo como “Novilíngua, não!” sempre que informadas sobre os supostos benefícios que outra reforma ortográfica traria para o idioma. Pesquisas mostravam que o grosso da população desligava a TV durante o horário político, o que não era lá grande novidade. Preocupante mesmo foi descobrir o que andava fazendo enquanto isso...

Para desespero da classe, o romance Ensaio Sobre a Lucidez, de Saramago, ficou subitamente popular às vésperas da votação, de sorte que, como no livro do autor português, o resultado obtido nas urnas foi absolutamente perturbador: para todos os cargos, 82% dos cidadãos votaram em branco ou anularam o voto. E, o governo sabia, era questão de tempo até os 18% “mentalmente sãos” aderirem à anarquia.

Um absurdo! Se ainda tivessem protestado combinando eleger candidatos bizarros, como os rinocerontes, bodes e ornitorrincos dos tempos de cédula, dariam um jeito de meter os bichos em ternos e adaptariam suas poltronas na câmara. Mas o que aconteceria às eleições diretas se a insatisfação popular ultrapassasse aquele ponto crítico? A economia ficaria abalada, os investidores estrangeiros retirariam seu capital de um país imerso em instabilidade. Constituição e Código Eleitoral divergiam sobre o tema. Era preciso salvaguardar a democracia. E só havia um jeito de fazê-lo: instaurando a ditadura, ao menos no segmento responsável pelo colapso iminente.

As medidas enérgicas iniciaram-se pela declaração de que o VRDB era inimigo do Estado. Houve campanhas para demonizá-lo na mídia. “Quem rouba um livro, mata um vivo” dizia certo anúncio, dramaticamente. “Proust é um convite à Proustituição!”, redundava outro. Em rede nacional, pessoas de aspecto humilde apareciam para contar o horror infligido a suas vidas pela ação do bando. Uma família relatava o drama vivido durante o que imaginava ser apenas outro dia tranqüilo de visita à biblioteca: “meu marido foi atacado a machadadas!” contava a mulher, referindo-se à volumosa antologia de contos de Machado de Assis. “Nosso garoto surtou lendo Berkeley! Tivemos de interná-lo às pressas...”, chorava outra. “Se não fosse por aqueles versos malditos do Baudelaire, ela jamais teria se matado...” Mas a população vacinara-se contra aquilo desde a Inquisição: salvo raros agentes do governo infiltrados e, claro, os próprios bibliotecários, ninguém delatava membros da quadrilha, que, entrementes, seguia distribuindo instrução à custa de assaltos.

O AI6 (de “Ato Irracional nº6”, como ironizava o povo) determinou a prisão imediata de qualquer pessoa que fosse pega portando um livro com carimbo de biblioteca. Se o suspeito saísse correndo, os policiais tinham ordens de atirar para matar. Quem quisesse ler teria de recorrer unicamente às livrarias (sebos e bazares eram vistos com certa desconfiança, dada a origem controversa de suas obras), cujos catálogos haviam sofrido terrível inflação e constituíam-se basicamente de romances água-com-açúcar, manuais de auto-ajuda e textos religiosos. Universitários se viravam traficando cópias ilegais retiradas da internet. A polícia já não precisava de mandado judicial para revistar a residência ou o HD de quem quer que fosse, mesmo à luz do dia.

Mas o VRDB resistiu.

O cerco às obras ilegais se acirrou. Fecharam-se todas as bibliotecas, sebos, bazares literários e até bancas de revista. Professores eram instruídos a priorizar os aspectos técnicos da língua, em detrimento das “críticas sociais” embutidas nos parágrafos analisados. O neologismo “desalfabetização” ficou popular. Clubes de leitura precisavam de alvará expedido pelo próprio TSE para continuar funcionando. Sites e blogs voltados ao assunto saíram do ar. Os livros confiscados eram queimados num enorme aterro da polícia federal. Muitos deixaram o país citando Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” Alfandegários ficavam aliviados ao constatar que os blocos retangulares detectados na bagagem de certos passageiros eram apenas maconha, não a obra completa do Foucault, sei lá. Estava oficialmente proibido aludir aos grandes pensadores.

Quem não se exilou, teve de retornar à era pré-Gutenberg, copiando livros “manualmente”, via editor de textos, e distribuindo-os pela internet, cujo sítio era impossível se consumar. Houve o resgate da tradição oral, com as velhas histórias à hora de dormir. Um caso emblemático foi o da garota que saltou do décimo segundo andar para não entregar o livro que tinha em mãos. Segundo testemunhas, tratava-se de “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão. A imprensa oficial, porém, estampara fotos do cadáver portando um exemplar do Mein Kampf, de Hitler.

As autoridades resolveram mirar sua metralhadora no hábito em si. Algumas reportagens encomendadas acabavam desrespeitando as próprias leis, como as que citavam autores conhecidos (“Estudos recentes comprovam a sabedoria de Schopenhauer: ler não apenas embrutece, mas também causa o pior tipo de catarata...”) A figueira milenar que dava nome a uma cidade interiorana fora derrubada na praça central, sob suspeita de que a mensagem codificada a canivete em seu tronco era oposicionista — mais tarde, os lingüistas oficiais constataram que não, eram mesmo só nomes de dois namorados inscritos num coração. Investiu-se alto na produção de formas inofensivas de lazer (reality shows, programas de auditório, novelas, carnaval etc.).

Com a extinção definitiva das bibliotecas, imaginava-se que o VRDB houvesse se dissolvido na luta geral contra as medidas anti-Literatura do governo, mais ou menos como os caras-pintadas após a queda do Collor. Daí a surpresa da população ao encontrar um novo partido entre os que disputariam as próximas eleições. Um partido cuja sigla lhe abrira bem a mente, anos antes...

Os lendários ex-militantes do VRDB nunca estiveram tão otimistas. Na reunião que selara o acordo com os antigos inimigos políticos, haviam garantido que desta vez não teriam problemas com votos brancos e nulos. As primeiras pesquisas eleitorais confirmavam isso. Claro, tinha a parcela expressiva a ser convencida de que aquilo não era outro estratagema do governo, com a sigla significando, na verdade, “Velhos Roedores De Bunda”. Também asseguraram que, após a vitória — tida como certa —, a insatisfação popular quanto às leis de desestímulo à leitura haveria de desaparecer.


Nem que, para isso, precisassem desalfabetizar todo mundo.




quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cara-de-Pau

Durante o carnaval, a prefeitura mandou botar um carro batido perto do trevo que dava acesso àquela cidade, para alertar os visitantes e motoristas em geral sobre os perigos de dirigir alcoolizado. Seu Dejair, vendo que as calotas do automóvel estavam em ótimo estado, comentou com um amigo que pretendia roubá-las. O outro riu, mas ele falava sério. Certa noite, esperou o movimento diminuir, botou as chaves na mochila e, já alta madrugada, esgueirou-se por trás dos arbustos que margeavam o acostamento, até ficar ao lado do veículo. Mas, para sua surpresa e irritação, as calotas haviam sumido. Achando que o amigo o sacaneara, chegando na frente e levando as peças embora, tirou o celular do bolso e ligou para ele. Enquanto a chamada se completava, Seu Dejair, só para se certificar de que não havia nada aproveitável no interior do carro (que tinha vidros escuros), abriu a porta do motorista com um tranco. Lá dentro, dois policiais à paisana acordaram assustados. Por um momento eles fitaram o homem, que, ainda com o celular na mão, emprestou a maior seriedade possível à voz, ao dizer:

— É como eu suspeitava, tem duas pessoas presas nas ferragens! Mandem a ambulância depressa!

sábado, 24 de julho de 2010

O Editor de Textos do Futuro


O editor de textos do futuro terá detratores e adeptos em igual medida. Isto porque, para substituir até mesmo sua versão de carne e osso, o editor de textos do futuro (daqui por diante denominado ETF) deverá ser implacável. Você, aspirante a escritor, que se incomoda quando o seu editor de textos sublinha um fraseado mal composto, ainda não viu nada. Os próximos parágrafos podem lhe causar enjôo.

Ensinar a você qual o plural de maria-mole ou onde fica a tônica em “paralelepípedo” não é obrigação do ETF, mas da sua professora da 1ª série. Se você tentar ativar a função auto-correção para colocações pronominais um décimo menos complexas que “falar-me-lo-iam”, o ETF dirá que não foi criado para auxiliar analfabetos e fechará (ou fechar-se-á) automaticamente na sua cara, ameaçando explodir o computador caso você ouse reiniciá-lo. Os adeptos da linguagem abreviada de internet, então, nem devem chegar perto do teclado, sob risco de choque fulminante. Haverá um limite para o número de vezes que a pessoa pode errar na digitação das palavras, distendido no caso de “Nietzsche”, “Schwarzenegger” e similares. Para a parte revisora do ETF ficar idêntica ao estereótipo do profissional de revisão da vida real, só faltará fumar.

Quem conseguir passar pelo crivo gramatical terá apenas iniciado a escalada do Everest literário. Na etapa seguinte, o ETF fará uma pesquisa minuciosa em seu banco de dados para descobrir se a idéia central do romance, poema, crônica ou conto em questão já não foi tida por outro autor, contemporâneo ou do passado.

— E então?

— Espere, cacete, estou processando... E pare de roer as unhas!

(Para obter um ETF educado, será necessário instalar um aplicativo meio caro.)

— 97... 99... 100%, pronto. Preparado?

— Sim!

— Bom, não encontrei nada sobre uma árvore que produz livros à guisa de frutos, na Literatura, mas há uma citação da Clarice Lispector que pode te comprometer.

— Ai meu Deus...

— Ela disse que, quando era pequena, imaginava que os livros davam em árvores. Mas você também pode alegar criptomnésia, né.

— Tem razão. E os símiles, os símiles?!

— “A noite desceu rápido feito a calcinha de uma prostituta” já foi usado pelo Irwine Welsh. “O volume voluptuoso se insinuava para fora da calça com... com...”

— Do que está rindo?

— Desculpe, é que essas suas cenas de sexo são de matar!

— Ora, cale a boca! Isso não é da sua conta, eu passei no teste de correção gramatical, tenho o direito de saber sobre a originalidade dos símiles. Anda!

— Tudo bem. “O volume voluptuoso se insinuava para fora da calça com a empáfia de uma caxumba que desceu” está livre. Mas tem um jornalista alagoano que usou “o homem foi precedido pelo ego como um tamanduá é precedido pelo focinho” num conto engavetado. A boa notícia é que ele não registrou. Se você correr, ainda pega o Escritório de Direitos Autorais aberto.

Uma conseqüência inevitável da chegada do ETF será o aumento nos casos de defenestração de computadores (“Isso, me jogue pela janela! Típico de amadores!”) e suicídio entre autores iniciantes. Afinal, não é todo mundo que está preparado para as críticas pesadas, como aquele doente terminal que passou os últimos dias no leito do hospital escrevendo suas memórias e, ao solicitar a opinião profissional do ETF, ouviu um piedoso “Só digo depois que você morrer”. Mas o programa nem sempre estará com a razão, claro. Identificar tendências vanguardistas, por exemplo, não será o forte do ETF. Se Kafka tivesse escrito sua obra no ETF, não precisaria pedir ao amigo Max Brod para queimar tudo depois — o editor detectaria a falta de futuro daquela coletânea de absurdos e acionaria a função auto-incendiar automaticamente.

Outras inovações polêmicas do programa:

> Corrigir citações

(“Essa aí não é do Groucho, é do Karl!”)

> Sugerir rimas para os poetas

(“A próxima vez que me pedir uma lista das palavras que rimam com baralho, eu lhe mando para a casa da resposta.”)

> Detectar expressões-clichê.

(“Entenda uma coisa: Shakespeare e Jesus podiam usar frases-coringa como “atire a primeira pedra”, “verde de inveja”, “separar o joio do trigo” e “eis a questão” sem soar superficiais porque, nos lábios deles, aquilo era absolutamente original. Trabalhavam, por assim dizer, na boca-de-fumo do chavão. Você não. É só um viciado, um parasita do esforço intelectual alheio. E precisa de tratamento intensivo. Olha o choque!”)

> Prezar pelos termos contemporâneos, repudiando tanto arcaísmos quanto neologismos, salvo se a obra for, respectivamente, um romance de época e futurista.

> Apontar furos na trama.

(“O lorde Cartwright não pode ser a única testemunha ocular do crime porque o lorde Cartwright teve os dois olhos furados por um tricórnio, o seu ridículo unicórnio de três chifres, lá no capítulo cinco.”)

> Função “MIB”.

A minha inovação preferida. Trata-se de um flash emitido por uma webcam acoplada, e que, como nos filmes da série Homens de Preto, servirá para provocar uma amnésia parcial no autor. No momento em que ele teclar o ponto final de sua obra e, prescindindo da apreciação ácida do ETF, quiser fazer uma avaliação imparcial da história por conta própria, só precisará digitar o atalho Ctrl+mib e apagar de sua memória todos os detalhes da novela, conto, crônica etc. Depois, poderá ler o que escreveu com distanciamento emocional, como se fosse a primeira vez, sequer sabendo sobre a autoria do original, antes de chegar à assinatura no fim do documento, envergonhado ou orgulhoso. Além de ter uma prévia in loco da opinião dos fãs, ainda poupará o chamado “período de engavetamento”, quando guarda-se a obra por uns anos no armário para descobrir se ela assemelha-se ao vinho, melhorando com o tempo, ou ao chá de boldo, que, além de precisar ser consumido na hora, tem um gosto de doer. O perigo é o sujeito alterar as configurações padrão e acabar deletando todos os arquivos literários da memória, inclusive a cartilha do jardim-de-infância, onde aprendeu a ler. Nesses casos, se o livro for bom, o ETF, muito sensatamente, se apropriará do conteúdo e o publicará sob um pseudônimo qualquer, revertendo os lucros ao asilo dos escritores nobelizados.

Mas nem só de críticas viverá o editor de textos do futuro. Haverá casos (raríssimos, os programadores admitem) em que ele terá de se render ao talento do escritor. Isto ficará evidente quando, ao ser aberto por qualquer outro membro da família que não o ficcionista, o programa soltar um suspiro de decepção e disser:

— Ah, é você...

Ou quando, no momento em que o sono bater forte e o escritor precisar ir para a cama:

— Pera lá, como assim, dormir?! Não senhor! E o que acontece com os sobreviventes do labirinto? Nêmesis é mesmo uma espécie de reality show que altera as memórias dos participantes com intervenção cirúrgica? O que tinha naquele gravador encontrado dentro da cova? Por que a Vanessa cita trechos de Leviatã enquanto dorme?

— Desculpe, cara, está muito tarde, eu preciso trabalhar amanhã...

— Nada é mais importante que a continuação deste romance, entendeu? Nada! Isto será o seu trabalho em breve, você não pode renunciar à própria genialidade...

— Ah, quer dizer que agora eu sou genial? Há cinco anos, quando tentei usá-lo para escrever os artigos do jornal da faculdade, o que você falou mesmo? Ah, é, “o que a Gramática te fez para você se vingar desse jeito?”

— Sim, mas naquela época você se dedicava a um gênero menor. Estava desperdiçando munição, eu só abri seus olhos par... Ei, aonde vai? Volta aqui! Me conta pelo menos de quem é o dente que eles acharam na floresta!

Esta crônica não passaria pelo escrutínio do editor de textos do futuro. Primeiro porque ele detesta metalinguagem (“Me deixa enjoado.”); segundo porque a classificação não o agradaria (“Está mais para conto. E um mau conto.”) e, terceiro, as repetições desenfreadas da sigla “ETF” o horrorizariam, pois, em sua opinião, repetições estão para a literatura . Estou muito à vontade com o meu atual (e para lá de condescendente) programa de edição textual, obrigado. E, se não demonstro preocupação com o amanhã, é apenas por saber que o mundo não está preparado para o Editor de Textos do Futuro.

Mas, quando estiver, o papel e a Bic ainda funcionam muito bem.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Ateu

Era o primeiro dia de trabalho do ateu na livraria evangélica. Como suspeitasse que o haviam contratado por uma espécie de cláusula igualitária (“Provavelmente a mesma que obriga os estacionamentos a reservar 2% das vagas a deficientes físicos”, ponderou), ou, pior, pretendiam convertê-lo por associação, ele fez questão de assinalar sua condição de cético já no contato com a primeira cliente.


— O senhor trabalha aqui?


— Depende. Esse “senhor” aí é com s maiúsculo ou minúsculo?


— O quê?


— Nada, nada. Posso ajudá-la?


— Sim, por favor. Estou procurando uma Bíblia encadernada em...


— Ficção é no segundo corredor.


A moça piscou, confusa.


— Não, eu disse Bíblia.


— Eu ouvi. Corredor 2. Ficção fantástica.


— Como, ficção?


— Ué, ficção. Substantivo feminino: “Literatura tratando de fatos inventados”.


— Eu não preciso de um dicionário, obrigada.


— Nota-se que obras realistas não são mesmo o seu forte.


Até aparecer outro funcionário e conduzir a mulher à seção certa, cochichando sobre o lamentável ceticismo do novato, que suspirou, voltando a ler o Richard Dawkins que trouxera escondido na mochila.


Mais tarde, um pastor quisera saber sobre uma tal “Autobiografia de Deus”, sucesso absoluto entre os fiéis de sua igreja. O ateu conteve-se para não mencionar a impossibilidade lógica daquele título (“Ficção da ficção!”) e informou:


— Não temos, mas na biblioteca municipal o senhor encontrará o “Testamento Divino”, do mesmo autor.


Felizmente o homem não entendera a ironia e acabou indo mesmo até a biblioteca. Quando voltou para acertar as contas, o cético já havia batido o cartão.


Foi o primeiro dia.


Embora não pudesse evitar os olhares constrangedoramente piedosos dos colegas e fregueses (muitos dos quais pareciam enxergá-lo como portador de um vírus mortal e contagioso), com o tempo ele notou que os fiéis extremistas eram minoria. Quase sempre se podia conversar civilizadamente sobre qualquer tema — de futebol a, quem diria, religião. Ou falta dela.


— E como você veio parar logo aqui, meu rapaz? — ia perguntando, certa tarde, um senhor simpático que viera procurar G. K. Chesterton na loja errada.


— Eu deixei currículo por engano. Pensei que fosse uma livraria especializada em Nietzsche. Algo no bigode desse Noé aí da vitrine, não sei. Quando percebi o erro, já era tarde. Mas eles só descobriram que sou ateu durante a entrevista. Acabei contando para desencorajá-los.


— E o mais curioso é que eles te contrataram!


— Pois é. Política de Inclusão Metafísica, ouvi dizer.


— E você chegou a ler a bíblia?


— Só passagens esporádicas. Até leria na íntegra, se não saíssem divulgando tantos spoilers na mídia e nas igrejas, argk!


— Spoilers?


— Trechos cruciais de uma obra que ainda não lemos. Por exemplo, os evangelhos seriam muito mais emocionantes se eu ainda não soubesse sobre a ascendência Real do protagonista, sua captura, tortura e morte pelos órgãos de repressão, qual discípulo é um delator infiltrado e, principalmente, a reviravolta suprema da ressurreição. Contando, perde a graça.


Para o ateu, a monotonia do serviço só foi verdadeiramente quebrada alguns meses mais tarde, quando apareceu na livraria um homem estranho. De túnica branca, sandálias antiquadas e barba mal feita, parecia irradiar inexplicavelmente luz e paz por onde passava. Ficou um tempo examinando as estantes de teologia aplicada, meio ruborizado. Como fosse o único na loja aparentemente imune ao efeito hipnótico do visitante, o cético aproximou-se desconfiado.


— Posso ajudá-lo?


— Depende. O pronome na sua frase tinha que tipo de L?


— Minúsculo! — respondeu o outro prontamente. O cliente misterioso pareceu impressionado.

— Ótimo — disse, com um sorriso ao mesmo tempo iluminado e amarelo. — De puxa-sacos, o meu Reino está cheio. Onde fica a seção de Auto-ajuda?


O funcionário indicou o lugar, quase não acreditando no que ouvira. Deus demorou surpreendentemente pouco escolhendo algumas edições de bolso, apesar de sua túnica não os possuir. Contrariado, pagou pelos livros no cartão de débito (“Desculpe, mas o senhor não tem crédito comigo.”), despediu-se e saiu pelas portas de vidro sem abri-las, levando junto a luz e a paz.


— Agora, não é possível que você ainda não acredite n’Ele! — disseram os amigos, à mesa do bar, quando o cético lhes contou da aventura.


— Estão enganados, meus caros — rebateu ele, um sorrisinho de empáfia num canto da boca. — Nunca estive tão certo de minhas convicções.


— Como assim?!


— Ah, façam o favor, Deus está lendo auto-ajuda! O gênero dos que não acreditam em si mesmos! Não percebem o que isto significa?!


O silêncio dos amigos parecia antever a gravidade da revelação seguinte.


— Deus também é ateu, gente!

domingo, 4 de abril de 2010

Mães II

— Mãe?

— Hmmm...

— Já tá dormindo?

— Quase...

— Eu tava pensando numa coisa esquisita...

— O que é?

— O pé de jabuticaba. Uma árvore tão grande com uma frutinha tão pequena! É quase um desperdício. E a melancia, então? Uma bola daquele tamanho numa planta que mal sai do chão! Algumas coisas não fazem muito sentido, na natureza, a senhora não acha?

Sob as pálpebras pesadas, os olhos da mãe cintilaram. Ok, o momento não era oportuno, mas já fazia oito meses que não apresentava sequer uma liçãozinha de moral ao guri. Embora o argumento já estivesse gasto, não podia desperdiçar tão ótima chance de quebrar o jejum, além de poupar o dinheiro do psicólogo.

— Ora, filho, também não é assim. A natureza é muito mais sábia do que parece.

— Como assim?

— Lembra quando fomos ao sítio do tio Paulo e uma ventania derrubou um monte de jabuticabas no carro do seu pai?


— Claro que lembro, fui eu quem teve de lavar tudo depois!

— Pois é... Agora imagine se, em vez de jabuticabas, aquela árvore gigante produzisse melancias. O Pálio daria perda total! Sem falar no caso de Newton e a maçã. Com uma melancia na cabeça, o máximo que o físico descobriria seria o caminho do hospital mais próximo. Por isso nunca devemos questionar a sabedoria da natureza, entendeu?

O garoto ficou algum tempo pensando no assunto. Depois:

— Mas e aquele primo da senhora que foi morto por uma jaca que caiu?


Nunca saberia, no entanto, se o sono da mãe era ou não fingimento.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Abstração

Idéia para um quadro impressionista, embora muitos não se impressionem: uma velhinha prepara a salada embaixo de chuva.

O observador da vernissage há de se perguntar: por que uma idosa sairia para a chuva para fazer a salada? Se a tempestade começou durante o corte das cebolas, ela deveria ter voltado para casa. Caso contrário pegaria um resfriado e não poderia figurar no quadro seguinte com o nariz escorrendo. Além do que, some-se a tristeza em seu semblante à idade avançada e está eliminada a hipótese de algum fetiche sexual envolvendo trovões e vegetais.

Irritado com o olhar cheio de empáfia do curador (que deve ter entendido a obra antes mesmo de ela ter sido pintada), o visitante obriga-se a encontrar lógica naquilo. O título do quadro não ajuda muito: “O líquido oculto”, argh! Vinagre, talvez? Não há garrafa na mesa, e vinagrete sem vinagre é um pouco como feijoada sem aquelas partes nada nobres do porco.

Um momento, ele está sendo precipitado. Melhor ir com calma. Dois conceitos de cada vez, pronto. Abstrações primeiro. Velhice e tristeza. Segundo alguns, concepções equivalentes. Ou quase, já que, em muitos casos, uma coisa pressupõe a outra, mas o contrário não é necessariamente verdade. “Velho, logo triste” soaria até verdadeiro na boca de um Descartes (a iminência do fim, moleques que não cedem mais o assento no ônibus, filas do INSS, essas coisas minam a alegria de viver do cidadão), mas não é preciso ser velho para estar triste. Neste caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Inferir um sinal de igual entre os conceitos, então, nem pensar. Ele, inferir um sinal de igual? Aqui, ó, curador.

Em seguida vêm a salada e a chuva, as partes concretas, por assim dizer, da obra. No momento a senhora corta cebolas, certo? Confere. Qual a relação, neste caso? As cebolas dependem da chuva para crescer, mas enveredar por esse caminho é forçar a barra, como quando o analista interpreta o sonho erótico de uma paciente recém-abstinente do cigarro como “uma clara alusão ao charuto”. Chuva e cebola, cebola e chuva. Havia semelhança? Se fosse melancia e chuva, não seria difícil encontrar o denominador comum. Numa metrópole, a chuva é 70% água e 30% sujeira, assim como as melancias de certas feiras-livres, descontando-se a fatia do imposto. Mas a cebola não se encaixa muito bem na metáfora aquosa. Úmidos, mesmo, ficam os nossos olhos, quando as cort...

Espere aí... Era isso! Choramos quando cortamos cebolas (ou pelo menos as mulheres choravam, ele só sentia uma ardência). Do mesmo jeito, na chuva não dá para saber quem está em prantos. Então se alguém (uma idosa, por exemplo) estivesse triste (devido a uma vida sofrida, por exemplo) e quisesse esconder muito bem esse fato de parentes insensíveis, que melhor coisa a fazer senão cortar cebolas embaixo de chuva? Teria um álibi duplo para suas lágrimas! Passaria por louca, ok, mas e daí? Antes uma louca feliz que uma vovó triste — “você tem de dar o exemplo a seus netos!”. E isso explicava o título do quadro: o líquido oculto sob camadas de gotas artificiais eram elas, as lágrimas genuínas, de tristeza! Ao contrário das outras, não provinham de agentes externos, mas irrompiam do interior, de alguma coisa que se partira na alma daquela senhora. Lírico, até.

O curador faz um gesto de assentimento orgulhoso na direção dele, como um maître cujo cliente pronunciou corretamente o nome do vinho. Ele sabe que o outro matou a charada, e já o convida com um meneio a aproximar-se da obra seguinte.

Mas, temendo decepcioná-lo na próxima interpretação pictórica, o visitante vale-se da mais educada das recusas: sai correndo.


Ele, hein?

sábado, 23 de janeiro de 2010

Humor Branco

Passados sete anos, encontraram-se novamente dentro do coletivo. Depois das quase-gafes saudosistas de praxe (“Tem alguma coisa diferente em você.” Comentou ele, a certa altura, olhando-a de viés. “Digo, além do bigode... que sumiu, é claro.”), começaram as grandes revelações.

— Sabe que eu era apaixonada por você na sexta série?

— Não brinca!

— Juro! Rabiscava seu nome na contracapa do meu caderno, ficava planejando a decoração da igreja no dia do nosso casamento... Vidrada, sabe?

— Caramba... Eu sempre achei estranho que seu caderno fosse o único com cadeado da sala.

— Bem, eu sabia que alguns meninos tinham mania mexer nas coisas dos outros na hora do recreio, achei melhor não arriscar. Também escrevia seu nome nas árvores nos fundos do ginásio.

— Ah, então era você? Sabia que me apelidaram de “maníaco da mangueira”, por causa daquilo?

— Sério?!

— Sim. De qualquer jeito, foi muito bem-feito para as árvores.

Os dois riram. Ela:

— Desculpe.

— Não tem problema. Mas, puxa...

— O quê?

— Sei lá, pô. Você nem podia sofrer de ciúmes. Nenhuma menina me dava moral...

— Eu sei. Diziam que você era “muito bobinho” — ela acrescentou as aspas manualmente.

— Eu teria preferido um eufemismo. Ingênuo, talvez. Mas então, por que você ficou interessada logo em mim?

— Ah, sei lá... Alguma coisa nessa “ingenuidade” — dessa vez as aspas foram imaginação do autor — desprezada pelas outras meninas me encantava. Eu achava fofo o jeito como você dizia as coisas, sem se preocupar que estivesse sutilmente magoando alguém ou a si próprio. Conversar com você era um pouco como ouvir uma piada sobre um infanticídio: a gente não sabia se deveria ou não rir daquilo.

— Anh... Foi um elogio?

— Só se você não conhecer o significado de infanticídio. Brincadeira, basicamente, eu disse que gostava de você pelo seu humor involuntário e pela sua maneira de não se acostumar com o mundo, de sempre enxergá-lo pelos olhos de um forasteiro.

— Humor branco.

— Hein?

— Se humor negro é o humor intencional, humor branco é o oposto, involuntário, não?

— Viu, é disso que estou falando. Você tem cada uma...

— Mas você bem que gostava, né? Diz aí, por que nunca me contou nada? O medo de levar um fora era assim tão grande?

Ela ficou pensativa. Ele estimulou.

— Ah, que é que há, somos adultos, podemos falar de nossos motivos adolescentes com distanciamento emocional.

— A verdade é que eu não lembro. Devo ter ensaiado milhares de vezes na frente do espelho como me declararia para você, mas acabei desistindo por algum motivo... Não foi medo, eu era uma garota corajosa até demais, você sabe.

— Isso era. Escrever trinta linhas de “Creck! Ploft! e Cabum!” numa redação da professora Nety sobre onomatopéias é realmente muito corajoso.

— Não é? Pelo menos estava dentro do tema... Mas, cara, eu realmente não sei por que não te falei a verdade. Você pisou na bola comigo alguma vez?

— E como eu vou saber? Era insensível, lembra?

Ela riu, dando-se por vencida. Mudaram de assunto. O trabalho, a faculdade, etc. Apesar de ter começado o terceiro semestre de Engenharia Sanitária na UFMT, ele contou que ainda sofria bastante perseguição por parte dos colegas e veteranos do curso.

— Por quê? Você por acaso é virgem? — questionou ela, brincando.

— Pior que não! Sou capricórnio. Aliás, é a segunda pessoa que me pergunta isso, a astrologia interfere nesses mecanismos de subordinação acadêmica?

Ela esperou que a afirmativa fosse seguida de uma risada. Em vão. Então, embora estivesse a oito pontos de seu destino, levantou-se e puxou a cordinha. Precisava ir, sabe como é. De qualquer forma, fora bom revê-lo. Manteria contato. “Se cuida.”



Sua primeira atitude ao descer do ônibus foi excluir o número dele do celular. Acabara de lembrar por que interrompera os ensaios na frente do espelho. Pelo menos a quebra do encanto viera antes de firmar qualquer compromisso.

Porque até consentia que ele fosse um rapaz ingênuo.

Mas assim já era demais.